pintura de Pierre-Auguste Renoirquinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
deo-la-deu-oh-linda
pintura de Pierre-Auguste Renoirquarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
amanhã saberei o segredo que há em-mim
pintura de Georgia O'Keeffeterça-feira, 17 de fevereiro de 2009
As árvores eram silhuetas breves
José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Hora segunda
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Idade que se compõe, quando no silêncio e no fresco da noite
Idade que se compõe, quando no silêncio e no fresco da noite
cumprindo o ritual antigo, nos baptizamos de céu claro e sem nuvens
com as estrelas penduradas num chamamento breve e perfeito.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Na forma e no sentido sempre me marginalizei
Na forma e no sentido sempre me marginalizei
sempre procurei projectar-me de encontro à lição
de que sabia ir gostar aprender. Porque, e a verdade é
não consegui aprender o que nunca gostei.
Nunca confundi a forma da obrigação
da satisfação ou do prazer de gostar.
Os discursos, cada um em-si, sempre manifestaram
uma linguagem e um sentir diferentes.
Mas tudo isto não impede as travessias do deserto, muitas e várias
em que as sagradas alianças nada valem ou a nada levam. Daí...
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Tudo é meu, porque vem de-ti
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Daí, as horas ficarem límpidas, como um enigma;
as horas ficarem límpidas, como um enigma;
um grande corpo inteiro onde acontece a voz inicial;
a memória de pequenos nadas; a alegria que se vê
sente e alonga como razão essencial da luz.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Que importa (sim que importa!?...)
Que importa (sim que importa!?...)
o que os homens intentam modificar
- num planeamento nervoso e adulterado
força mais do seu orgulho ferido
do que propriamente da desgraça acontecida -
se as consequências em nada alteram o que está traçado
o que está marcado, o que será para sempre nosso?
A minha vida será a tua
mesmo que lhe queiram dar destinos e rumos diferentes.
Ninguém se aperceberá que a escolha foi voluntariamente nossa?
Que partiu de-mim para ti e de-ti para mim?
Que uma semana juntos valeu mais do que dezassete
ou vinte anos de acontecido matrimónio?
Ah! como a desgraçada frustração humana
é tão própria dos que a personalidade não dotou
ou em que a inteligência não permite destrinçar em pleno
pois só o desforço se manifesta importante.
Mas é a esses, que gritamos a nossa vontade e a nossa verdade.
E creiam, os bastardos, que não temos medo. Nem vingança.
Temos sim, o destemor dos que se apaixonam
dos que se amam verdadeiramente
dos que são livres por si-mesmos.
Essa paixão, esse amor, essa verdade
essa doação da Natureza temo-la nós, só-nós
a quem a Terra ungiu de amantes plenos e naturais.
Isto é: amadores sagrados do que têm... amando.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Hoje há o chegar
Hoje há o chegar. Quantas ruínas
derramei em leis perfeitas? Quantas luzes
dei a olhos cegos? Quanto retorno ao nada
retirei de-mim?
Oh! aquela imensa poeira repetida
oculta fronte de dedos ágeis
existência de só existirem coisas
para lá de sabermos mistérios...
Já hoje é o chegar
esplêndido e definitivo
Hora certa do equilíbrio da nudez
segurança do sol para lá das horas
das máscaras
das vozes fáceis e gastas.
Oh! como a melancolia é grande
e o meu tempo pouco. Ou nada. Ou sempre.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Deixaram a terra produzir os seus efeitos
Deixaram a terra produzir os seus efeitos
e que efeitos foram, sobre a luz solar!?
A alma grande dos rios soergueu-se das margens
em cânticos de verde e rochas arredondadas
com o mistério das paixões por entre os canaviais
a estrada de Marte em frente, o fluxo de Vénus ao largo
e a gruta estreita de negro aparecida.
Receberam, como sempre recebem no meio das mãos
o teu corpo arrefecido, de olhos fechados e mãos postas
adormecido num sonho vagaroso e grande.
A alma dos teus poetas inundou-se-te no sorriso
que punhas na boca pequena, vermelha e cheia
sorriso acontecido ontem, ante-ontem e sempre
já que fora teu. Breve e triste...
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Os homens, os homens, eternamente os homens
Os homens, os homens, eternamente os homens
reflectidos nos espelhos das águas, nos labirintos
da espessa terra, composições de sombras de exércitos ávidos
de suicídios lentos, de solidões gritadas nas paredes
paredes de tantos lugares, de tantos prédios, de tantos museus.
Venham homens, venham com os vossos poderes suster as lágrimas
e a solidão e o desvario e a morte lenta dos oceanos
porque mais fácil - muito mais fácil -
é imaginar que conseguir
muito mais fácil do que iludir o gosto e o sangue.
Venham, porque sentirão o gesto torcer o emaranhado
ouvirão os ecos crescerem, variados, nas montanhas próximas
saberão dos rios que secam em tanto deserto.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
há canções ao longe
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
os caminhantes sem destino
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Sobra a cidade com os seus mistérios
Casas alinhadas no contorno do mar com cabelos à espera que o vento chegue.
Risos na noite de ninguém, que é o silêncio das estradas por onde corre a paciência dos que não têm sono.
Bocas abertas à espera da fome, que é o que todos esperam e nenhum pede, pois a terra é solta e chega até aos olhos com a coragem de quem existe.
Sobra a cidade com os seus mistérios, as suas luzes, o desencantado movimento, as suas fontes enganadoramente disfarçadas, pedra angular duma igreja que não tem contornos de Sé, quiosques ribeirinhos de matarem gostos, gargantas secas à procura de múltiplos líquidos e o não acabar de certeza que se esgota.
José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
O silêncio
domingo, 1 de fevereiro de 2009
No meu silêncio de escuta e visão
José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
De murmúrio fiz as esquinas próximas onde ninguém passa
Elas existem em-mim, saem de-mim
percorrem-me em passos lentos e rápidos
seguros, inseguros, fáceis, desencantados, trôpegos
como os dos homens que se levantam dessedentados de álcool
em gritos breves e imensa tontura.
Murmurei as esquinas próximas onde ninguém passa.
Elas existem, porque se erguem em frente de qualquer olhar
passeio, jardim, praça, avenida, ruela.
Existem, porque são o que os olhos querem.
Se as murmuro, é porque elas são o aspecto
que em-mim há para quem me olha.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Oh! como é triste não termos a alma que gostariamos de ter
Oh! como é triste não termos a alma que gostaríamos de ter
para reproduzi-la de encontro aos muros da nossa ânsia
aos paredões sombrios do nosso gesto
às forças largas das nossas intenções
à praça grande que guarda as nossas capacidades
e encontrá-la na forma de Alma-Mulher, Alma-Gesto
Alma-Fracasso, Alma-Desejo, Alma-Encoberta na ânsia
de a termos. Alma-Nevoeiro de tanta face descoberta e fácil
como a nudez que nos torna tímidos e breves
para lá da ofuscada torre da nossa babilónica verdade e mentira.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
É de noite que me visto. E dispo. E consumo.
..................nunca se gastam. Na minha casa, à noite,
..................tudo é suicídio, porque a minha memória é
..................um grande abraço envolvente, transportando-
.................-me não sei donde para onde. Apenas fantasia?
É de noite que as sensações se materializam, que podemos enfrentar os outros nos olhos, nas mãos, nas bocas, nos copos. É aí que a navalha aquece o sangue, o grito sai mais nítido, o corpo cai mais pesado, o vento se enrosca mais perto, a junção é mais breve. Mesmo o medo, que sendo a razão de se ser, é a alegria contrária de nos possuirmos. Fantástica a noite de todos os dias! Com todos os seus aspectos!
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
a voz que se levanta
podias vir com a tua beleza azul
levantar as mãos dos homens
adormecidos e gastos. podias vir
com o gesto da tua face em
sorriso aberto, marcar os olhos
dos homens que te chamam ao longe.
podias vir, e conscientemente proteger
todos os filhos que deste a nascer
por essas esquinas fixadas em cada
ponto da cidade, que sendo tua
é de todos os olhos dos homens
que te seguiam. podias vir, tu-mesma
ou a sombra que escolheste e te
representasse, porque a voz que se levanta
não é a tua, mas a minha!
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989
domingo, 25 de janeiro de 2009
palavra inicial V
palavra inicial IV
Perseus com a cabeça da Medusa, de António Canova.
sábado, 24 de janeiro de 2009
palavra inicial III
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
palavra inicial II
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Saber o que está tão perto
Saber o que está tão perto
tão seguramente confessado
qual retorno ao que se escreve e se canta
porque nada pode acabar sem ter começado.
Fluído, o que se consome por entre os lábios
- que são restos de hoje e lágrimas de um amanhã
que se inventa, se cria, se muda e se retém.
Não me demovam, porque tudo é luminoso e fluente
próximo e opaco, clareira e vertente.
Imagino-me e não ouso.
Invento e não creio.
Sonho-me e vejo-me um menir isolado.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Rebentem as noites de chuva e aqui estarei
Rebentem as noites de chuva e aqui estarei
aqui me suporto, aqui me faço fé.
Respondam-me com a segunda razão
- a razão dos aspectos, a razão da fala -
a lembrança da alma. Poderás recordar a alma?
Oh! frágil noite de lágrimas e fogo
onde me retêm as nuvens e as margens marítimas.
Deixa que me faça para que te possua.
Depois... Depois, que venha a tua alegria breve
transformada em desejo, em cama
esteira, pau, suor.
Deixa-me o tempo de hoje
porque amanhã será o leve tempo das brisas.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Quanto tempo demorou o meu tempo em-ti?
Quanto tempo demorou o meu tempo em-ti?
Quanto segredo me custou as horas longas
em que a espera se anunciava e se estendia no rigor da demora?
Quanto tempo era o meu sem ti?
Quanto silêncio me habitou sem que te habitasse nas longas horas
em que me perdia na hora demorada?
Foi num fim de tarde, enquanto o sol tardava no mar.
O grande cata-vento movia as suas pás
empurradas por um vento sibilino e farto.
Alongava-se o horizonte mesmo em frente
e as quilhas dos barcos empinados, presos na corrente
acendiam luminosidades que a água reflectia.
Chegaste com o teu sorriso branco mascarado de vésperas
de manhãs erguidas no sono que a noite compõe
...........................................em horas remexidas e soltas.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Longe estavas, como longe estás
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
palavra inicial I
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
A imagem que o sono adormeceu
descobrira a noite o meu silêncio de sono por fazer
com as estrelas penduradas na chuva que caía
já que os gestos se desdobravam múltiplos de ser
plenos de sonho e cansada fantasia.
só que pela manhã, neste silêncio de quarto, penumbrado
há horas que passam friamente arrepiantes.
emoldura-se o gesto no movimento desfiado
qual soluço quedo e triste! só amantes...
em cima da mesa, uma fotografia tua com o casario atrás.
é engraçado. lembras-me alguém, serenamente
e no mesmo momento, há uma ligeira névoa que desfaz
toda a visão errante e descontente.
resta esse olhar teu que é estranho e infinito
pensado sei lá em que distância ou em que perto
já que a luz que te ilumina, é parte e grito
que o teu corpo esconde em lugar deserto.
mas a noite, na imagem que o sono adormeceu
tem vapores de ópio e álcool liquefeitos
força de orgasmos que o silêncio arrefeceu
nos encontros marginais dos nossos peitos.
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Se o meu silêncio fosse a traição de-mim

domingo, 11 de janeiro de 2009
Seguraram-me as mãos
Seguraram-me as mãos.
Mas de que vale segurá-las
se nesta terra tudo se compra
tudo se vende?! Como não gastá-las!?...
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
sábado, 10 de janeiro de 2009
Inventemos o encoberto em-nós na luz que se apaga
Inventemos o encoberto em-nós na luz que se apaga
e se inventa, como misérias de água que o ribeiro deixa
ou o mar expõe na sua imensidão serena e selvagem
bárbara e monótona. A alma! ...
Inventá-la, é guardar o resto que resta de-nós
e se não sente. É atravessar um grande jardim
sem árvores e sem bancos. É respirar o ar de um tubo
polvilhado de carbono. Basta olhar tudo o que vem de fora
para nos compreendermos sem alma, como casa grande
e meias luzes de intento e graça. Sem voz nem eco.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
o inverno inverso das estradas
Quando as páginas brancas forem remendos carbonizados
quando da rua lavada emergir o estrume lixo
quando do verde jardim as crianças se afastarem
quando o mar invadir a grande praça e arrancar
os frágeis bonecos emparedados no pedestal
quando as aves gritarem e os homens se afligirem de vez
quando tudo for negro e a terra fogo
então
oh! santidade absoluta dos actos
oh! irritante aspereza dos cortinados
oh! insensível brandura dos alvos cabelos
oh! demoníaca insegurança de todos os gestos
então
deixará de haver mundo para haver inferno.
Os anjos aparecerão vestidos com vestes ígneas
remendo de ossadas e sorrisos lôbregos
pés de vento e mãos de espadas
tão fortes e cruas como a mão que sustem
o inverno inverso das estradas do mar.
Fujam-fujamos onde a sombra não nos inquiete
onde o calor venha devagar e a onda rápida
(quer os livros estejam fechados ou abertos
o cimento mole, a terra ressequida, as luzes circulares)
onde olhando as unhas possamos ver as nódoas
da nossa magia destrutiva e assassina.
Fujam-fujamos para todo o lado, menos...
Menos, para aqui, porque do outro lado
está a imagem que nos envolve
sem termos consciência de que é ela que nos contempla!
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Tocata e fuga
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Há que reconstruir os gestos dos que se ausentam

Há que reconstruir os gestos dos que se ausentam.
Nada do que existe é igual. Disse-o tantas vezes
disse-o tão igualmente, que farto estou de inventar vozes
igualdades e embelezamentos de outras vozes.
Esquecido, repouso no teu rosto.
O teu olhar enche-me de contínua busca
e o arredio gesto, de imenso vagar.
Não posso ter pressas. Basta-me olhar-te
e saber-te viva. Tudo o resto, é a grande rocha
rente ao mar. E alguma sombra...
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Nunca chego a casa. A minha imensa manhã acaba no outro dia.
Nunca chego a casa. A minha imensa manhã acaba no outro dia.
No dia em que os homens inventaram a vida, secretamente
em que me vi velando o vaso sagrado da última leitura dos lábios
em que o sol repousava a pique sobre a minha cabeça.
Nunca chego a casa sem que a imensa manhã acabe no outro dia
no momento em que seguro as algibeiras e lembro
que a distância que me separa da terra
é a mesma da distância que me separa do sonho.
E amo o sonho e o amor.
Ninguém ama e sonha mais facilmente do que os homens tementes e incuráveis. Mas ...
Nunca ninguém inventou a minha infância!
Ninguém me disse como foi a minha ousadia
como ela aparecia, como ela se parecia
como ela se transfigurava, como ela era!
Ninguém me disse nada. Como me cresciam os cabelos
se me iluminava o olhar
corriam os rios, que me diziam as pessoas ...
Nunca ninguém inventou quem eu era!
Quem me poderia imaginar no pequeno que crescia
com os calções brancos à margem do joelho
sapatos envernizados colados às meias brancas
o cabelo curto, olhos grandes à procura do tudo
que era o nada que eu via em tudo o que me aparecia!?...
Quem me poderia imaginar no pequeno que eu era
com as mãos soltas a erguerem choros
lágrimas pesadas de encontro ao peito
corridas breves na praceta
- pequeno largo do meu destino, da minha alegria, da minha solidão!-
jogos de bola, sapatos escalavrados, calças rasgadas
corpo sujo, sovas monumentais. A minha Mãe!
Nunca ninguém inventou quem eu seria!
Nem mesmo quando jovem; a barba a desfiar-se no rosto branco
a vista pregada na janela da frente, olhando a pequena Lúcia
que se escondia por dentro dos reposteiros
olhando-me desafiante
em todas as horas do dia
às escondidas dos pais.
Mesmo, quando as correrias se faziam em horas retardadas e mendigas
em saltos do rés-do-chão para a praceta
em jogos de berlinde, na terra solta e escalavrada
até que as horas chegassem, para que chegasse o tempo
do jantar
da luz muito minha
- daquela que me habituara a olhar
na lâmpada que se suspendia do tecto.
E adormecia com a claridade da sombra.
Nunca ninguém inventou a minha infância!
Mesmo quando inventei o sabor do meu primeiro cigarro
quando dei por mim a satisfazer-me irrepreensivelmente
quando pela primeira vez respirei os lábios duma francesa, mais velha,
na Nazaré, ou, quando uma jovem prostituta, numa rua de Tomar, me
conseguiu abrir as pernas. Aí, inventei o verão da ânsia, o desejo de
correr por entre as margens do dia e da cidade, correr veloz antes que
a juventude se acabasse, antes que as colinas tomassem os lugares dos
espelhos, os homens me gritassem os seus códigos secretos, a palavra
viesse com a sua tonalidade negra.
Nunca ninguém inventou a minha infância.
Apenas eu a conheci, mendigando as horas, muitas;
as tristezas, várias; as loucuras, velozes; as palavras, atrevidas.
Quem inventou a minha infância?
quando cheguei a ela, a luz tinha a hora do sol
e este olhava-me, no seu espelho mágico e encoberto...
José Manuel Capêlo, Odes Submersas, Átrio, 2000
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Certo, até ao momento de chegarmos
Viajo na noite incógnita e escuto...
Oiço, num desponte, o ladrar dos cães pelo tempo adiante. O mirrado cantar dos galos na alvorada a despontar. O desfiado riso dos madrugadores a barbearem-se no grito alegre dos padeiros em distribuição de pão. O assobiar dos varredores de ruas em serigaitada permanente. Viajo em tudo, enquanto a outra metade dorme, ou pelo menos, desperta. Viajo... Tudo está certo, mesmo o errado que se confunde com o balouçar das folhas, enquanto a brisa se evade na procura e o andar do homem fere as calçadas desgastadas pela erosão dos momentos. Enquanto a noite adormece para acordar mais tarde e a manhã desponta na quietude dos pântanos amordaçados. Se aflige. Viajo ... No futuro das imagens que tornamos ilusão, desejo que formamos sentir, sentidos que adoramos como certeza. Como se de reais se tratassem e não esmorecessem as formações alegres dos nossos sonhos de riso e prazer. Viajo ... Em ti, na certeza de te chamares mulher e teres um corpo bem diferente do meu. Tentar-te na proporção de me desejares possuir sem nos pretendermos egoístas ou simbólicos adoradores. Viajo ... Na vida que nos habita e nos ama, como se nos lembrássemos de todas histórias boas, ouvidas em pequenos. Sem destrinças, sem medos, sem vazios de alma. Viajo... Até ao momento de chorarmos. De querermos ter e não pudermos, já que tudo é difícil, difícil demais para os nossos olhos. Porque o somos e não nos enganamos. Porque nada se perde. Tudo se transforma.
José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986
domingo, 4 de janeiro de 2009
Os teus olhos vieram com as sombras da tarde
sábado, 3 de janeiro de 2009
Oh! amada oh! minha Ilha-Verde da paixão
Oh! amada oh! minha Ilha-Verde da paixão
cercada de ventos fortes ou tormentas
de marés vivas ou vingativas vagas alterosas
crespúsculo solar desta natureza pródiga de contrastes
que, subtil e discretamente, te arrasta e desfigura o rosto
marcado pela beleza - essa força íntima e secular da terra-
modelação perfeita que só a própria perfeição possui.
Mas tu és forte e determinada.
Porém, nada, mas nada vergará a tua vontade e o teu destino
já que são eles a causa de tu existires
de saberes que estás na terra como mulher e como vontade.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Sempre amaste as luzes e os olhares
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Sábado adormeceu

Sábado adormeceu.
Corre a noite com a brisa forte e refrescante
a entrar-me pela janela aberta deste andar de três pisos de altura.
É a noite que me invade de segredo.
Como o de estar só
e perfeitamente consciente d(est)a minha solidão obrigatória
necessária, fantástica. Tenho mais tempo de pensar
de criar para mim todos os objectos que imagino
todos os reflexos que me possuem, e de que sou possuidor
na mais completa e perfeita alquimia dos sentidos
dos desejos, das verdades que me surgem irradiantemente distintas.
A solidão não é, nem nunca poderá ser o estado do meu abandono
ou da minha oposição ao mundo que me rodeia.
É antes, o mais completo estado das minhas faculdades
das minhas aparências, das minhas visões
das imagens que crio para mim
(e também para os outros, porque não!...) e que deixo
para quem as quiser receber voluntariamente e sem obrigações.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Esperei por Sábado
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Falaram-te os olhos com o fogo no corpo
Falaram-te os olhos com o fogo no corpo. Saíste
com a imensa claridade das lágrimas
a fecharem-te a boca, vácuo íntimo de uma clareira
que se suspendia para lá das cores de um arco-íris reflexo.
Não serás, não poderás ser a alma que te imaginas
mesmo que as formas que dás aos teus gestos
sejam restos de hoje ou iluminuras de um amanhã
mais visto que desejado. Olha-te e vê.
Repara que as nuvens não são fixas, nem os montes suaves
nem os ribeiros mansos, nem a voz dos homens
a bravura do que te traz suspensa. Os homens têm olhos
nas vísceras e cutelos nos lábios. Dão-te o que lhes pedes
mas ferir-te-ão sem que as tuas lágrimas
demovam a enorme cavalgada em teu redor.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
domingo, 28 de dezembro de 2008
Da razão imaginável
sábado, 27 de dezembro de 2008
Nestas horas, horíssimas de estar
Nestas tristíssimas horas de Setembro
entre um riso calvo e uma parede por caiar
no meio de mesas e luzes alinhadas
ao lado duma fronteira e dum olhar
descubro faces crispadas
com vontade de gritar.
Nestas longuíssimas horas de nada
entre um café aguado e água por beber
no meio de tacos velhos e mãos de ontem
ao lado do tempo e de nada ver
há ecos que se repetem
sem nada terem que ser.
Nestas estranhíssimas horas de outro dia
entre uma lágrima e um risco sem sentido
no meio do meio do mundo
ao lado dum brinco em corpo tido
aparece-me do mais profundo
um vulto sem ter ouvido.
Nestas horas, horíssimas de estar
espero, sentado, quem chegar.
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Sonha como quem acorda

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
Foi assim que apareceste no grande vale dos meus delírios e sonhos
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
poema para um amigo
Se a manhã crescesse em forma de monte
se a manhã crescesse, meu amigo
talvez que eu conseguisse pintar um quadro
com a forma da tua alegria.
Emprestaste-me as tuas mãos
e com elas fui passear para o meio da floresta
contígua ao mar
próximo das nuvens que me baptizavam o rosto.
Serenamente, sem pressas
fui afastando as pedras que me cruzavam o caminho
como representativas figuras
que num palco nada representassem.
Como o fumo na minha boca
fui caminhando atrás dos cigarros
atrás desta pequena loucura
que em nada me aflige, em nada me altera.
Mas se por outro lado, a manhã crescesse em forma de névoa
então, meu amigo, estes olhos
baixariam à terra que me produziu
ao ventre que me gerou
à luz que se abriu solta
à revolta do meu choro
ao eternizar dos meus primeiros passos.
Talvez que eu não conseguisse pintar um quadro
com a forma da tua alegria.
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro 1982











































