Rapariga com brinco de pérola, de Johannes VermeerOlhei um ponto perdido não sei onde em que distância
um encontro com a poesia
Rapariga com brinco de pérola, de Johannes Vermeer
pintura de Pierre-Auguste Renoir
pintura de Georgia O'Keeffe
Os homens, os homens, eternamente os homens
reflectidos nos espelhos das águas, nos labirintos
da espessa terra, composições de sombras de exércitos ávidos
de suicídios lentos, de solidões gritadas nas paredes
paredes de tantos lugares, de tantos prédios, de tantos museus.
Venham homens, venham com os vossos poderes suster as lágrimas
e a solidão e o desvario e a morte lenta dos oceanos
porque mais fácil - muito mais fácil -
é imaginar que conseguir
muito mais fácil do que iludir o gosto e o sangue.
Venham, porque sentirão o gesto torcer o emaranhado
ouvirão os ecos crescerem, variados, nas montanhas próximas
saberão dos rios que secam em tanto deserto.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
Perseus com a cabeça da Medusa, de António Canova
Inventemos o encoberto em-nós na luz que se apaga
e se inventa, como misérias de água que o ribeiro deixa
ou o mar expõe na sua imensidão serena e selvagem
bárbara e monótona. A alma! ...
Inventá-la, é guardar o resto que resta de-nós
e se não sente. É atravessar um grande jardim
sem árvores e sem bancos. É respirar o ar de um tubo
polvilhado de carbono. Basta olhar tudo o que vem de fora
para nos compreendermos sem alma, como casa grande
e meias luzes de intento e graça. Sem voz nem eco.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

Oh! amada oh! minha Ilha-Verde da paixão
cercada de ventos fortes ou tormentas
de marés vivas ou vingativas vagas alterosas
crespúsculo solar desta natureza pródiga de contrastes
que, subtil e discretamente, te arrasta e desfigura o rosto
marcado pela beleza - essa força íntima e secular da terra-
modelação perfeita que só a própria perfeição possui.
Mas tu és forte e determinada.
Porém, nada, mas nada vergará a tua vontade e o teu destino
já que são eles a causa de tu existires
de saberes que estás na terra como mulher e como vontade.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
