terça-feira, 31 de março de 2009

Destino

pintura deFrédéric Bazille
para o Pedro Oom,
.
no seu túmulo de pérolas
e jade e riso cicatrizado
Deixar nos meus olhos a saudade de ficar
e seguir no tempo sem vontade de lá estar.
.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 30 de março de 2009

A paixão de amar

A origem da Via Lactea, de Tintoretto

Deixaste-me, amor, no dizer que sente
esta minha alma castigada e gasta.
Do tempo, que foi longo e foi presente
bastou que a mão se levantasse casta
.
no esplendor deste desejo inocente.
Mas quê, se tudo o que se anima, basta
por si, em imagem diluída e carente
ante o calor que nos consome e arrasta...
.
A tentação do tempo é modo fugidio
como a maresia que vem e vai
na ondulação do espraiado mar.
.
Eu, que tenho em-mim este ardor frio
nunca me lembro se da minha alma sai
o amor ferido ou a paixão de amar.
.
.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas , Aríon, 2000

domingo, 29 de março de 2009

Tempo de regresso

pintura de Eugene Boudin
.
Fica-te o silêncio, as longas noites e o vento
com que sonhaste o regresso do infante adormecido
por entre as vagas que se levantam do mar imenso
ou no seio da floresta, em verde aberto.

Escuta amada, o murmúrio dos ecos
no levantar das folhas de encontro à brisa
ou a visão do sol, que se dilui na claridade da noite
lugar secretíssimo que ninguém descobre
e onde só nós estamos.

Que sei eu dizer-te, que já não saibas ou penses
- mesmo que o meu sorriso se ilumine de sombras -
se só tu decifras a lonjura da terra e o rebordo do mar?

Que sei eu provar-te que não me tivesses dito
senão esta natureza que se criou em-mim
mas que veio de ti, sem que jamais o soubesses?!...


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

sexta-feira, 27 de março de 2009

José

Melancolia de Paul Serusier


José,
deixa que a tua fraqueza encolha os ombros
que os dias se levantem azuis e acabem em chuva
que a tua alma parta sozinha e viaje sempre
que o teu grito seja o eco no próprio vazio.
Dentro de ti, lá bem no fundo, és tu...
Ninguém te conhece. Os olhos são cegos
as mãos imensas, o frio ímpio, o calor tórrido
e todos têm Pátria e todos têm gente
só o frio que o teu olhar sente
é mais quente
......................que todo o sol no mundo.

José,
vai, descobre por ti mesmo cada erva na planície
cada toca de coelho bravo, todo o ninho de ave
toda a fogueira a arder no finito distante
toda a chuva e todo o vento
todo o enigma do poema - que é o teu!
Quem te pode falar as palavras e os risos
o choro, as emoções, os arrependimentos, os gestos
as miragens, os quadros, o poema?
Todos estão fartos, e cansados, e tu, vives
no mundo que te ignora ou te condena
sem mesmo que ele-dele tenha pena
embandeirado em crena
............................um arco desfeiteado.


José,
escreve o teu poema e deixa que o mundo continue
porque nunca houve um quadro acabado
sem que uma mão o pintasse!
Não tenhas remorso desta vida, deste tempo curto
destas horas fartas de rugas, de mãos cheias de vício
onde o sol se põe - como em todos os lugares-
porque a promissora morte, a morte inesperada e decente
não é ingénua, nem solitária, nem consente
que toda a mente
......................a leve para longe de si.


José,
assim, nunca estarás só ou insatisfeito
nesta lenta
........... e triste
................. caminhada
.................... dos dias...


José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

quarta-feira, 25 de março de 2009

LONGOS BRANCOS BRAÇOS


pintura de Pierre Puvis de Chavannes

Olhei na estranha montanha meu amor
que os dias não passavam iguais
que o reflexo do sol tinha a imagem da água
que a pobreza do mundo compreendia a imagem do céu
que ontem fora um dia longo
que hoje fora um dia sem qualquer dia
que amanhã irá ser um dia curto

Olhei na estranha montanha meu amor
os cavalos empinarem-se de riso
os archotes iluminarem a luz
a água vir dar de beber à sede e ao suor
as árvores baixarem-se na sombra seca
os teus longos brancos braços virem-se estreitar
de encontro ao amanhã que não virá

Olhei na estranha montanha meu amor
o meu gesto a cruzar-se no tronco
dum candeeiro sem lâmpada

Era o largo em que circulava o fumo do meu cigarro


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

terça-feira, 24 de março de 2009

LUZES... COPOS


Le buveur, de Paul Cezanne

Deixem-me as luzes adormecidas no eco
as garrafas apanhadas no copo
e... serei eu!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 23 de março de 2009

Como se não bastasse

pintura de Amadeo Modigliani

Como se não bastasse
como se do vento sibilassem nuvens perpétuas
o clamor invadiu o lugar e dei por mim a segredar-te:

Os teus olhos eram azuis e bastavam-me, como o recanto ligeiro
em que abraço os teus ombros, o teu sorriso, a tua boca.
Inunda-me de ti, para que ofereça à terra o lugar perfeito
em que durmo o meu sono (ir)real. Deixa que te traga o silêncio
como me deixas o corpo, em contornos de mágico azul
e louco delírio. Corro-te as pernas com as mãos suadas
com a boca pronta, com o arco a pedir a flor do teu chamamento.
Breve, perfeito. Teu!... E é de ti, oh! amada - ermida do meu silêncio
oráculo do meu olhar, lugar do meu recolhimento, tempo da minha
espera - que ofereço em bênção, o calor do meu corpo
a forma (im)perfeita(?) que me espera e se te oferece.
Que me saibas guardar, como eu a ti, neste final do tempo
lugar da primavera em que crescem todas as estações.

Então, vendo que éramos dois
os deuses calaram e resguardaram-se no seu lugar.

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

domingo, 22 de março de 2009

Quem correu comigo ao longo do rio e se transformou em mar?


pintura de Claude Lorrain

Quem correu comigo ao longo do rio
e se transformou em mar?

Quem comigo veio na longa sombra descendo as escadas
aquelas longas e incomensuráveis escadas
que seguem do abismo até ao abismo e nos transportam
numa lentidão sôfrega, ao mar em frente
ao mar do silêncio e da calma, da aflição e do instinto
sem que nos possamos deter?

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

sábado, 21 de março de 2009

Vieste igual, porque vieste tu

pintura de Georges Seurat


Vieste igual, porque vieste tu
estrela de sílabas onde se contempla a boca
infinita face em que o suor escorre e o sorriso se anima
lugar de encontro onde a luz tem som
sinal vindo do claro-escuro onde tudo se destrinça e se esfria
-porque infinito é o eco da alma! -
malha sagrada onde se tece o Império, o Segredo
o velo temporal da Humana criatura, sílaba enunciada do silêncio.
As horas ficaram, porque eram!
Ruas intemporais de tantos passos dados
seguindo os caminhos habituais
os lugares destinados, as cadeiras à espera.

Sobre nós, corria o prédio de três andares
forma onde se esbatia o nosso ímpeto e o fulgor do suor
realidades de noites que se evadiam na ternura das dunas
ali à frente, com o mar em refúgio de ondas
perdida mancha duma palavra constante e vibrátil.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

sexta-feira, 20 de março de 2009

ADORMECER

Miranda, de John William Waterhouse


Deixem-me a noite carregada de suspiros
adormecer a lua. A manhã virá
e com ela, o tempo imperfeito.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

quinta-feira, 19 de março de 2009

de então...até agora

A leitora da sina de Michelangelo da Caravaggio



Como vai longe a minha infância
mascarada do gelo da serra
onde nasci, entre a vertente da Estrela
e o leito do Tejo, ainda fraco.
O crepitar das fagulhas de inverno
e o suor escorredio do verão
o amor e fala suaves de minha mãe
o chorar rabugento e vivo de minha irmã
o saltitar para a rua empoeirada
e a soante tareia por chegar tarde...
Tudo isto, em tempo de férias...

Mais longe, entre o fronteiro e o alto
do casario lisboeta, entre esse mesmo rio
e as pradarias verdes ribatejanas
onde cresci nos primeiros passos duma juventude
quase despreocupada, entre
a voz suave e o amor de minha mãe
as partidas de minha irmã, a tomar forma
o saltar p'ra praceta arranjada
postada mesmo enfrente
e a soante tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aulas...


Ainda mais longe, entre terra e terra
da vizinha Espanha e do antepassado Marrocos
na plena seiva uivante da minha adolescência
na forma gritante, do quero e posso, do
aqui mando porque me crio e defendo
nas cartas demandantes de aflição material
e da fome no estômago de dias sem comer
no amor e escrita suaves de minha mãe
do eco de desaprovação de minha irmã
do voltar para casa com ar empoeirado
a reprimenda e o sopapo por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aventura...


Quando agora, já mais próximo
entre o mesmo casario e o mesmo rio
com a força dos anos ainda forte
pai duma filha que nasceu chorando
primeira da minha composição-macha
seiva do meu grito breve e fecundo
do eco uivante de todo o meu ser
sem amor e palavras suaves de minha mãe morta
duma irmã que perdi na separação dos bens
com o corpo ainda quente daquela que muito amei
e que nunca mais me daria a reprimenda
o sopapo, a tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de angústia...


Quando ainda mais próximo
entre a partida e o regresso de cada voo
que é o meu trabalho e o meu sustento
senti a força do mundo e amei a mulher
na forma que é, na força que tem
voltei a viver e a sorrir e a chorar!...
Então, sim, então escrevi tudo o que é meu
na forma sincera do todo que me habita.
Escondi também, criando a forma, a expressão
daquilo que não sou e nem serei...
Tudo isto em tempo de meia-felicidade...


Quando e ainda mais próximo
mais uma filha tive nascida na britânica ilha
de carne lusa e carne inglesa
que não chorou nascendo, nem corou gritando...
Quando mais outra veio do mesmo modo
do mesmo corpo, do outro corpo e do mesmo sítio
em dia único de nome de rosa encoberta...
Assim, que reste o tempo de vida
olhando da minha infância a terra serrana
e o coito da grande urbe em movimento
- palco de gente movediça
crepúsculo de deuses e feras
minadas de ideias que saem e não nascem -
assim, que reste o tempo
entre o casario e o rio enquanto viver...
Tudo isto em tempo de rotina...



José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

quarta-feira, 18 de março de 2009

os cafés não podem morrer!

pintura de Jean Béraud


Não, não, os cafés não podem morrer! ...
Não podem ser transformados em bancos
em vazadouros públicos, em memórias desarticuladas
em banquetes de opíparas magias
em casas de curta duração.

Onde estão os meus cafés perdidos
no meio do meu orgulho
da minha fronte de amigo vizinho
criador de palavras e de imagens
de puro amor às ideias?

Não, não, os cafés não podem morrer!...

Não deixem desaparecer as mesas
as bicas, os bagaços, os cinzeiros
a nossa alegria ou tristeza
de falarmos de cadeira para cadeira
em que cada conversa é uma ideia
em que cada ideia é uma geração
em que cada geração é a própria história.

Não, não, os cafés não podem morrer!...

Não pode morrer o que mais sagrado é
para todo aquele que ama a vida
a liberdade, a alegria de se saber
quem é e não é
e que o leva ao mundo maravilhoso
do ar empolado de fumo dos cigarros.

Como poderá morrer um café da avenida
dum parque, duma rua, dum largo
duma praça onde voam pombos, passam pessoas
caminham turistas e correm ladrões
que por serem ligeiros, se espaçam nas massas
das multidões desatentas e confusas?!...

Não, não, os cafés não podem morrer!...

Vivam os cafés abertos, os cafés-concertos
os cafés-botequins, os cafés Martinho (d'Arcada)
os cafés Gelo, os cafés do Chiado
(Brasileira, Benard, Tavares, Grandela)
as ruas a subirem, as ruas a descerem
os olhos falando, as mãos pedindo
a eterna bica e o quente bagaço ...

Vivam quem os inventou!
Nada, nada os poderá transformar
desaparecendo do nosso conforto
do nosso sentir de clepsidras
de graníticos lepidópteros
fantasiantes mancebos surrealistas
fantásticos plagiantes presencistas.

Não, não, os cafés não podem morrer!...

E se o fizerem
acabe-se Lisboa !!!!!!!!!!!!!!!!!

José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

segunda-feira, 16 de março de 2009

há tanta gente... tão pouca gente

cena de Carnaval, de Francisco de Goya

Há tanta gente...
Uma enorme quantidade de gente!
E dessa gente...tão pouca gente.
Que me interessam livros ou poemas
se os deitei fora?
Que me interessam gestos e palavras
se ficaram pendurados à porta?...

Deixem-me bater as palmas
para chamar os sonhos
se é que os sonhos vêm com as palmas.
Deixem-me querer meter
no sorriso do louco
que me apareceu pela janela... a chorar.

Há tanta gente...
E eu, sem vontade de chorar!
Ah! quanta vontade
quanto dizer que sim
chamar os sonhos, sem bater as palmas
meter-me no sorriso do louco
que me apareceu pela janela a chorar.

Há tanta gente...
Uma enorme quantidade de gente!
E dessa gente... tão pouca gente.
Tenho sorrisos atrás de mim
palavras, com sentido, um pouco mais à frente
dedos que se estendem e procuram copos
que o vinho semi enche.

Tenho olhos que me olham, sem me verem
se bem que pensem que o façam.
São olhos que só me olham
e não me sentem!

Ah! quanta vontade
quanto dizer que sim
que venham todos e chamem os sonhos
sem baterem palmas
sem serem livros e gestos
poemas pendurados à porta
e, meter-me no sorriso do homem
que me apareceu, pela frente
a olhar
sem me ver...

José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

sábado, 14 de março de 2009

O desejado

desenho de Hans Holbein the Younger

Nada é mais frágil do que o gesto tornado movimento e as ideias em forma de loucuras. Sempre pensei que nos oceanos como formas de grandes delírios, nos rostos dos homens olhando-os absortos, vagos, tementes, heróicos, em cima das falésias, infalivelmente irresistíveis perante o desconhecido que se encontra para lá do que é minimamente visível. Por isso, na sua loucura fácil - que é forma própria de temeridade - montaram corcéis de madeira e vaguearam-nos, cobrindo as cristas com apagados pedidos e cingidos corações. Entre o escorbuto e o tubarão, a distância era uma vaga mais forte, sinal de deuses escondidos e atentos, risonhos ou sérios, perante a odisseia dos protegidos. Nunca ninguém imaginaria que tal acontecesse e, muito menos, que tal conseguissem. O maior pecado, a maior honra, é o que o faziam com aquela cega fé de quem sabe que alguma coisa se encontrará para lá da distância, infinito horizonte que é curto e vário. O resto, na conquista da terra, é a imagem do encoberto a vacilar constantemente, nas mentes dos que ainda acreditam que o nevoeiro é o único meio de nos fazerem chegar o desejado do Quinto Império.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

sexta-feira, 13 de março de 2009

Há um sonho dentro do teu olhar azul

ghirlandata, de Dante Gabriel Rossetti

Mais do que o horizonte lento e suspenso, há um sonho dentro do teu olhar azul, que sonho múltiplas vezes. Espécie de onda a entrar em qualquer infinito, a varrer-me a lembrança, a possuir-me as mãos, como se todo o azul fosse terra e mar nos teus olhos.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

quinta-feira, 12 de março de 2009

cresce em-mim a cidade

S. Vicente, de Emília Matos e Silva
.
cresce em-mim a cidade, com o sol queimando as arestas
do vento. depois, em uníssono
vagueiam os passos na procura direita da posição
que é aquela que os homens tomam quando se espantam
ao se encontrarem direitos, de se verem em pé
de continuarem vivos.

os homens vivos?!...
os homens com as cabeças levantadas, ainda?!...
os homens com estas personalidades que os tornam
distantes de tudo e de si-mesmos
como sombras resguardadas no canto da primavera?!...

cresce em-mim a cidade deste País tão belo
e de homens que andam sem saberem para onde vão!


José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

quarta-feira, 11 de março de 2009

pelo outro lado da terra

Boreas, de John William Waterhouse

pelas portas azuis que Nokin me abriu, enquanto a fala me chegava pelo outro lado da terra, pude olhar-te no interior dos teus olhos verdes, do teu rosto franco, do teu cabelo negro. as mãos caíam-te suspensas ao longo do corpo e na boca entreaberta havia o manto branco do teu sorriso, alinhado por entre o vale estendido do vermelho dos teus lábios. vieste-me acordar enquanto a manhã durava nos acordes sibilinos da cidade a despertar, com o gaguejar do bocejo nas gargantas de mil almas.
estendeste-me as mãos. acariciaste as minhas entre o delgado suave das tuas e o finíssimo risco amarelo, transparente e próximo veio erguer-se entre o meu sono e o teu acordar.
nada mais havia senão o eco a transportar-se ante o sol que se erguia nessa esplêndida visão que a manhã traz e o momento transporta. ficamos nós, apenas os dois suspensos ante o ruído que se levantava lá fora e o manifesto silêncio que se transportava no nosso quarto. ruídos paralelos duma noite que nos fora leviana. dormiras acordada no meu sono de intensa bebedeira de azul, que Nokin me abriu, enquanto bocejava e me estendia pelo outro lado da terra. tinha partido sem ti e quedara-me imenso no peso das paredes brancamente encobertas pelos quadros que se faziam de figuras suspensas, imensamente grandes enormemente móveis. agora que acordei, vieste-me buscar, transportando-me nessas tuas mãos de suavíssimo movimento.
.
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

terça-feira, 10 de março de 2009

ter herdado tudo, de nada e de ninguém

Vestigios atávicos depois da chuva, de Salvador Dali


ter herdado tudo
de nada e de ninguém.
luzes do meu universo cheio
onde estão as sombras do meu vazio pleno
as linhas do meu horizonte fácil
as rodas da minha máquina perpétua?

fumo sem cessar os cigarros da minha arteroesclerose ímpia
bebo sem me importar o álcool da minha cirrose sem dentes
fornico sem me caber a sida dos meus testículos inchados
grito a plenos pulmões a dose da minha over-dose inicial
rabujo contra os defeitos das minhas crianças apanhadas na mão
mastigo o doce que o empregado da confeitaria me pôs entre os dentes
pergunto ao Esteves, o da Tabacaria, se já mudou a tabuleta dos anos
imagino o poeta a embebedar-se com as sombras da noite
o pintor a esquizofrenizar-se com as luzes das cores
o aviador suspenso do seu balão estático
o motorista da caranguejola sem cheiro e sem buzinas.

enfrento o mar e pergunto pelo tubarão devorador da última perna
da mulher que enfrentou o marido e se cobriu de lágrimas
do último crime da rua do galeto que se repetirá daqui a dez anos
igualmente, pontualmente, como a luz que acendo sobre a minha cabeça
nessa variação que a terra dá e o tremor faz abanar?!...

ter herdado tudo
de nada e de ninguém
como ser único, solitário e temente.

por hoje basta de vultos e de efemérides
que as linhas do meu horizonte facilitam
e as rodas da minha máquina perpetuam.

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

segunda-feira, 9 de março de 2009

Como é louca esta velha terra de bravos, virgens



painel esquerdo da Tentação de Santo Antão, de Hieronymus Bosch


Como é louca esta velha terra de bravos, virgens
putas, cobardes, imbecis, para-génios
duendes, pigmeus, velhos, apátridas, traidores
e ninfas vestidas com paramentos de noviças.
Como é louca esta velha terra tresandando a enxofre
e a histórias de pecados e delírios, riquezas e misérias
despovoadas nas barracas de cobre ou erguidas em amoreiras
de super-luxo. Gritam-se os contrastes, mas que fazemos
para os desfazer? Gritamos o belo, mas que fazemos
para que o não seja, para que a luz não se baste à sombra?

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

domingo, 8 de março de 2009

Infinidade, sempre ...


litografia de M.C.Escher

Há sombras que os dias não apagam
ou risos que as bocas dissimulem
há gestos que são traços vagos
ou fumos que não são fumos de cigarros

Há mar que o mar não esconde
ou árvores cujas sombras não aquecem
há lágrimas nos olhos das imagens
ou imagens nas lágrimas das pessoas

Há rasto na luz dum candeeiro
ou margem num rio a acabar seco
há a infinidade que nunca se aproxima
ou o sempre que não tem nome

Há sombras mar rasto
ou risos árvores margem
há gestos lágrimas infinidade
ou fumos imagens sempre

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danubio, 1983

sábado, 7 de março de 2009

Passo ...

Auto retrato de Anthony van Dyck


Com semblante de mistério
tudo à minha volta gravita
faço cara, passo sério
olho o azul do etéreo
e fujo à voz que me grita.


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sexta-feira, 6 de março de 2009

DEIXA QUE DURE O TEMPO

Danae, de Ticiano


No teu olhar há um sonho
que sonhei múltiplas vezes.
No teu olhar, um regaço
em que me acobardei sem sentido.

Deixa que os dias sigam e os ponteiros se movam.
Deixa que dure o tempo.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

quinta-feira, 5 de março de 2009

Parapeito

pintura de Rene Magritte


No princípio da tarde as nuvens vieram com o sol
dizer adeus aos telhados
Os pombos voaram em círculo
acompanhando as roupas estendidas às janelas
os jardins com crianças dentro
esfarrapando as roupas engomadas

Do alto da minha janela debruçado no parapeito
correspondi ao adeus
cruzei os braços e apontei o infinito
que era a distância que me separava
do resto do mundo

Elas passaram e levaram o meu adeus

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

quarta-feira, 4 de março de 2009

VAMOS SONHAR...DORMINDO

pintura de Degas
à Lynne
Vamos dormir meu amor ...
Vamos sonhar naquelas águas calmas
que descem em cascatas de vida
por aquele desfiladeiro de verde ! ...

Vamos sonhar o nosso sonho
para que ele se abra em flores de lilás
ou em música de Tchaikovsky
para nos amarmos melhor.

Vamos chamar os nossos sonhos de amor
numa tarde de chuva, para que se elevem
e nos deixem pensar no dia
amanhã chegado e sem pressas.

Vamos dormir meu amor
para que eu olhe nos teus olhos
a certeza de que amar, não é só
a forma de te sentir viva e minha.

Vamos sonhar o nosso sonho!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sábado, 28 de fevereiro de 2009

DA TUA BOCA

Rapariga com brinco de pérola, de Johannes Vermeer


Da tua boca ergueram-se os olhos da minha infância
Da tua boca saiu o meu gesto antigo
Da tua boca chegaram-me os tempos de rebeldia
Da tua boca ensaiei os primeiros contornos
Da tua boca escutei as primeiras vozes
Da tua boca caíram os dias e levantaram-se as noites
Da tua boca correram imagens que já esquecera
Da tua boca inundou-se-me o gesto
Da tua boca cresceu o meu sorriso
.
Olhei um ponto perdido não sei onde em que distância
e fui feliz para casa onde sabia encontrar a tua boca
.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Suprema intensão

pintura de Paul Klee

Nada sem forma. A rua larga, albicastra, a forma esguia duma face em perfil, um sorriso num copo cheio de mim. Meu pai ... Quando sou eu? Talvez, um dia, quando o mar se chegar mais próximo. Quando a terra deixar de vacilar, ou quando a natureza se mostrar na sua plena grandeza, sem os desvarios dos homens. Quando Deus e o Diabo quiserem, sem que me modifique ou esqueça, sem deixar de pensar que por aqui passei, menir antepassado, narrativa em pedra, silhueta apontada à imensidão árida. Quando me procurarem e encontrarem na porção de tudo e nada!...

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Ruas imensas dum certo desespero

pintura de Joseph Mallord William Turner

Pelas tardes em que o sol começa a afogar-se no mar, que vejo por entre o ruído rústico das casas, tenho a impressão de que levantar-me me custa. Sinto que as pessoas me apertam os ombros com as mãos como a quererem dizer-me: «estamos aqui!», únicos, na pele de todos os selvagens vivos, canetas esfomeadas, línguas sedentas, ruas imensas dum certo desespero. Mas quem não estará a mais serei eu, que (só) me passeio na luz e na sombra, sem o minímo de remorso ou qualquer peso nos ombros. Sem ter que dizer que o mundo falseia as palavras, porventura, os gestos, nos lábios das testemunhas falsas. Quem não é falso, sou eu, que amo todas as luzes e todas as sombras, todas as madrugadas e silêncios, como se não houvessem mais sóis a iluminarem as faces que se arredondam neste muro de paredes que nos celam. Sem que oiçam as nossas vozes.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Vaga visigótica

pintura de Jean-François Millet


Enquanto o promontório se alonga na espuma branca das ondas verdes... Enquanto a tua casa se suspende nas falésias abruptas da terra selvagem... Repito no eco deste cachimbo aceso, as palavras que me segredas, ao pressentires o horizonte: « Aqui nasce a terra que me fez encontrar-te, pedra angular, sagrada, inóspita. Revive em ti, o meu segredo. Enquanto guardares a voz dos nossos avós visigodos, terás a alma da consciência. Quê de lusitanos?... Esses, tinham desaparecido há muito dos montes baldios da estrelar montanha. Hermínios, lhes chamavam...»

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Ode infinita


pintura de Carlos Reis

Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
ser em ti vagaroso como o rio que nos cerca
compreender que a vergonha não és tu nem eu
nem tão pouco o castanho das madeiras
mas as angulosas cabeças de chapéus de feltros.

Imagina-te anzolada à minha dimensão metafísica
à ignorância colectiva que é aparentemente um fracasso
ao espaço hesitante do subproduto
à vergonha honesta de que vale mais importar
do que mingar tumularmente de fome.

Oh! Pátria, nada me impede de pensar
que, também tu, possas ser sempre eu
lastimável, acabrunhado, indeciso
recuando ante todo o vulto sentado
lembrando o meu passado sem história
no presente movimentoso e aparente.

Pensa que não vim de ti, mas me absorveste
gélida, tórrida, transparente, inofensiva
mãe, prolixa e diminuída, de achados
de líricos que se comprazem à modulação do canto
e se rasgam em lágrimas à hora do Natal.

Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
e saber que também a tens.
Não saber nada e dizeres que me cale
mantenha o mesmo passo e o mesmo olhar
suba aos edifícios e desça aos esgotos
analise os olhos e aguarde em sereníssima contemplação.

Acho que dizer - acabe! - não basta
já que o lento movimento das nuvens
nunca simbolizou temporal
nem as persianas a fecharem-se
significa que crianças adormecem.

Lento, é todo este movimento
diagonal
indulgente
formidável
cómico
com todas as suas arenas modificadas
de estranhas larguezas
lembrando chaminés
e o mais que se entrega num leito almofadado.

É tempo de dizer que nunca me tive
(nunca te tive)
nunca passeei com a tua estranha monotonia
a tua calma aparente
simbólica
consciência de feitos inacabados
horas de partida
de chegada
choros de faces sofredoras
mãos cobardes.

Desci aonde podia
aonde nunca ninguém me obrigou
onde sabia nascer um cavalo
com cara de menino
pestanas de escorpião
mãos de foca
silencioso e sem vertigens.

A partir desse momento meti na cabeça
que a estrada continuava
seguindo, uniforme, as cadeias de montanhas
delicadíssimas plantas lupanares
tropeçando nos regatos e nas cascatas.

Para cima
haviam as pontes estruturais, magníficas
não sei de que ano, de que tempo.
Só sei que lá estavam
como tu
Oh! Pátria
manifesto profundo das minhas palavras.

E eu que nunca fui um rei
no meu planeta?!...
Nunca tive palavras
nem gestos
nem o medo dos infelizes
dos que procuram
acobardando-se no pouco que comem
olhando simbolicamente
pois foram para isso que nasceram!?...

Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
e sentir-te vagarosa como eu.
Que estranho destino o contemplar paredes
a olhar sés que não percebo
monumentos, pontes, estradas, rios, florestas
céus, antenas, murais, risos, imagens, curvas
como o pensamento que me alaga
me conduz e me deixa sem que nada perceba.

Como um grande vento, Oh! Pátria
o teu rosto aparece-me no espelho
salpicado de mil cabelos, mil olhos
a loucura enorme de gestos, de palavras
de desenhos e pinturas, de poemas
de frases loucas de sentidos sem sentido
máquinas e poses, grandes telas de sorrisos
fáceis manobras de testemunhos e estímulos.

Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
que é toda
e é nenhuma!


José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

deo-la-deu-oh-linda

pintura de Pierre-Auguste Renoir



eras pequenina nos teus cabelos longos
enquanto a cidade esvoaçava ao redor do teu corpo.
fugias com as mãos ao encontro da fonte
enquanto, ao lado, o rio corria manso
.
marginando o cais paralelo e acimentado.
da tua saia apertada, apertava-se o recorte da perna
o friso branco que te enchia o andar.
levemente suspensos, na blusa desapertada
.
os teus seios plenos, pequenos, teus
como montanhas iguais ao terreno da lua.
era a cidade, na tua imensidão morena
cabelos longos, formas brancas, corpo esguio e pequeno.

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

amanhã saberei o segredo que há em-mim

pintura de Georgia O'Keeffe
para o Alberto Pimenta
meu amigo e Poeta do mundo


amanhã saberei o segredo que há em-mim

de resto, o sol, que despontou por cima das plantas do meu jardim suspenso deste andar de cinco pisos de altura, abriu-me o olhar enquanto espreguiçava as mãos, abria a boca, esticava o corpo e rodeava os pensamentos pelo som do eco.
era frio e vento nesse algures da distância que os dias trazem e as horas levam, com as mãos presas ao esticado do corpo, gabardina enrolada à volta de-mim, impotência de bolsos vazios, a fome a rondar os meus olhos cheios. e vêm as queixas de todos os que não se têm que queixar, das súplicas que fingiram alheamento, da lembrança dos que procuraram inventar desculpas e nos rasgos de intenção dos que raramente apareceram.

amanhã saberei o segredo que há em-mim

basta que espere com os ossos feitos pó ou que algum amigo sorria, me abrace e diga: Vem daí! saberei, então, que as mãos não escreveram em vão, que as ideias não morreram por si-mesmas, que a luz do fundo era tão igual como a luz do princípio. saberei olhar para mim e ler-me nos livros fabricados, nas palavras dos outros que me lembram e algo são.

amanhã saberei o segredo se me aguardar


José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

As árvores eram silhuetas breves

pintura de Henri Manguin


Todas as árvores têm o som da planície e a minha cama é o eco de pau e esteira em que múltiplas vezes meu pai sonhou para dentro de minha mãe. Era a África fácil e longínqua dentro dos olhos das florestas, mata de animais bravios e homens esguios, velozes, antílopes. Eu, tinha uns calções pequenos, muito pequenos a lembrarem a minha infância. E tu, meu amigo negro, de imenso arco-íris por dentro?


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Hora segunda

pintura de Wassily Kandinsky


A minha realidade não é falar de mim, como quem fala duma coisa que se ama. Mas quem melhor para falar de mim, do que eu? Quem melhor para descrever o que sinto, senão estas palavras que me atrapalham e ferem, me subjugam e são vivas? O esplêndido é o espelho? Pois que o seja, já que o olho e ele se me inclina.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Idade que se compõe, quando no silêncio e no fresco da noite

Blossoms in the Night, de Paul Klee


Idade que se compõe, quando no silêncio e no fresco da noite
cumprindo o ritual antigo, nos baptizamos de céu claro e sem nuvens
com as estrelas penduradas num chamamento breve e perfeito.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Na forma e no sentido sempre me marginalizei

Filosofo em meditação, de Rembrandt van Rijn


Na forma e no sentido sempre me marginalizei
sempre procurei projectar-me de encontro à lição
de que sabia ir gostar aprender. Porque, e a verdade é
não consegui aprender o que nunca gostei.
Nunca confundi a forma da obrigação
da satisfação ou do prazer de gostar.
Os discursos, cada um em-si, sempre manifestaram
uma linguagem e um sentir diferentes.
Mas tudo isto não impede as travessias do deserto, muitas e várias
em que as sagradas alianças nada valem ou a nada levam. Daí...

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Tudo é meu, porque vem de-ti

Gioconda, de Leonardo da Vinci

Tudo é meu, porque vem de-ti
oh! amada,
minha Ilha-Verde da paixão!

Como o giocondo sorriso em que se eterniza o tempo
o lugar da casa onde se penitencia a palavra e se entrega o amor
esse modo abrasivo que é a união da paixão e do sexo.
.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Daí, as horas ficarem límpidas, como um enigma;

face da Paz, de Pablo Picasso


.......................................................Daí,
as horas ficarem límpidas, como um enigma;
um grande corpo inteiro onde acontece a voz inicial;
a memória de pequenos nadas; a alegria que se vê
sente e alonga como razão essencial da luz.

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Que importa (sim que importa!?...)

retrato de mulher, de Raphael Sanzio


Que importa (sim que importa!?...)
o que os homens intentam modificar
- num planeamento nervoso e adulterado
força mais do seu orgulho ferido
do que propriamente da desgraça acontecida -
se as consequências em nada alteram o que está traçado
o que está marcado, o que será para sempre nosso?
A minha vida será a tua
mesmo que lhe queiram dar destinos e rumos diferentes.
Ninguém se aperceberá que a escolha foi voluntariamente nossa?
Que partiu de-mim para ti e de-ti para mim?
Que uma semana juntos valeu mais do que dezassete
ou vinte anos de acontecido matrimónio?
Ah! como a desgraçada frustração humana
é tão própria dos que a personalidade não dotou
ou em que a inteligência não permite destrinçar em pleno
pois só o desforço se manifesta importante.
Mas é a esses, que gritamos a nossa vontade e a nossa verdade.
E creiam, os bastardos, que não temos medo. Nem vingança.
Temos sim, o destemor dos que se apaixonam
dos que se amam verdadeiramente
dos que são livres por si-mesmos.
Essa paixão, esse amor, essa verdade
essa doação da Natureza temo-la nós, só-nós
a quem a Terra ungiu de amantes plenos e naturais.
Isto é: amadores sagrados do que têm... amando.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Hoje há o chegar

pintura de Jean-Baptiste Camille Corot


Hoje há o chegar. Quantas ruínas
derramei em leis perfeitas? Quantas luzes
dei a olhos cegos? Quanto retorno ao nada
retirei de-mim?

Oh! aquela imensa poeira repetida
oculta fronte de dedos ágeis
existência de só existirem coisas
para lá de sabermos mistérios...

Já hoje é o chegar
esplêndido e definitivo
Hora certa do equilíbrio da nudez
segurança do sol para lá das horas
das máscaras
das vozes fáceis e gastas.

Oh! como a melancolia é grande
e o meu tempo pouco. Ou nada. Ou sempre.

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Deixaram a terra produzir os seus efeitos

Ofélia, de John Everett Millais


Deixaram a terra produzir os seus efeitos
e que efeitos foram, sobre a luz solar!?

A alma grande dos rios soergueu-se das margens
em cânticos de verde e rochas arredondadas
com o mistério das paixões por entre os canaviais
a estrada de Marte em frente, o fluxo de Vénus ao largo
e a gruta estreita de negro aparecida.

Receberam, como sempre recebem no meio das mãos
o teu corpo arrefecido, de olhos fechados e mãos postas
adormecido num sonho vagaroso e grande.
A alma dos teus poetas inundou-se-te no sorriso
que punhas na boca pequena, vermelha e cheia
sorriso acontecido ontem, ante-ontem e sempre
já que fora teu. Breve e triste...

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Os homens, os homens, eternamente os homens

Músicos, de Caravaggio


Os homens, os homens, eternamente os homens
reflectidos nos espelhos das águas, nos labirintos
da espessa terra, composições de sombras de exércitos ávidos
de suicídios lentos, de solidões gritadas nas paredes
paredes de tantos lugares, de tantos prédios, de tantos museus.
Venham homens, venham com os vossos poderes suster as lágrimas

e a solidão e o desvario e a morte lenta dos oceanos
porque mais fácil - muito mais fácil -
é imaginar que conseguir
muito mais fácil do que iludir o gosto e o sangue.
Venham, porque sentirão o gesto torcer o emaranhado
ouvirão os ecos crescerem, variados, nas montanhas próximas
saberão dos rios que secam em tanto deserto.

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

há canções ao longe

pintura de Paul Gauguin


regresso à luz das estrelas com a brisa a soprar por detrás. caminho vagamente, como se não sentisse os pés tocarem o chão, momento único, distante, fértil de sensações e embaraços, grito a sair-me e a afundar-se-me na garganta, numa apoteose de multidões em aplausos de ante-estreia num coliseu de olhares. sobra-me o vento num silvo de companhia. puxo um cigarro do maço que tirara do bolso das calças soltas, coloco-o entre os lábios e faço-lhe sentir a frescura do ar em movimento ligeiro, mas prolongado. nada se me esquece. tudo se me aviva.

saboreio o silêncio da liberdade no caminho sem ninguém. sem qualquer pessoa, quero dizer. a noite é fácil e segura. respondem-me os ecos fáceis dos reflexos da sombra, nesse contraste que entusiasma, faz parar e dá para prosseguir. e sigo com as pernas que têm movimento. flexões de luzes percorrem os meus gestos e recriam-se no meu olhar. há canções ao longe na voz de um cantor de duas vozes. avanço e medito a liberdade que vou conquistando passo-a-passo.

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

os caminhantes sem destino

Bordeaux Branco, de Juan Gris

chuva e noite no quadro efémero do dia, que é final e sono. mergulham as mentes no silêncio feito e a aragem que sopra, alivia a cidade do peso do ruído e da espiral das vozes. caminhantes sem destino são os passos, que se abrem nas ruas estreitas e largas. uns, com a verdade que os leva em frente. outros, com a brecha que o álcool derrama no sangue quente. cambaleiam, riem, perdem-se na visão toldada que os olhos recebem, distinguindo-se unicamente, porque tocam em si-mesmos pelas paredes dos prédios verdadeiros, nos andares trôpegos e cruzados, nos risos abertos, nas mãos pesadas e que julgam leves. são estes, os companheiros da noite que vemos distintos, secularmente enunciados nos estribilhos da história, nas páginas amarelentas dos grandes romances, nas figurações dos pesadelos miúdos. e quando cresce a noite, a chuva derrama-se ininterruptamente sobre os espaços descobertos que a sombra fecha.

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sobra a cidade com os seus mistérios

Port-de-Cassis, de Charles Camoin

Luzes num tempo solto, a varrerem a aragem dos castelos postos no alto.
Mãos que se levantam na procura dos astros que não saem do firmamento.
Casas alinhadas no contorno do mar com cabelos à espera que o vento chegue.
Risos na noite de ninguém, que é o silêncio das estradas por onde corre a paciência dos que não têm sono.
Bocas abertas à espera da fome, que é o que todos esperam e nenhum pede, pois a terra é solta e chega até aos olhos com a coragem de quem existe.
Sobra a cidade com os seus mistérios, as suas luzes, o desencantado movimento, as suas fontes enganadoramente disfarçadas, pedra angular duma igreja que não tem contornos de Sé, quiosques ribeirinhos de matarem gostos, gargantas secas à procura de múltiplos líquidos e o não acabar de certeza que se esgota.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O silêncio

Os picos da Europa, de Carlos de Haes
.
O silêncio, este muro que nos adormece e cerca, é uma luz que se amedronta, abafada pelos gritos dos que mordem as palavras. Nunca poderia pedir o silêncio entre celas que não sinto. Mas há tantos que podem... Olha-me na tua fragilidade exposta, mulher. Espreita-me pelo canto do cinzeiro em que pus todas as minhas esperanças de amanhecer, todos os traços invisuais de credulidade, procura impossível de qualquer alegria breve. Hoje, acredita-me, sou mais do que todos os reis que existem nesta terra de noite. Do que todos os presidentes que se sentam entre cadeirões de veludo. Mais do que a riqueza de todos os ricos juntos. Não te esqueças que o meu sorriso traz a chama da liberdade a acender-se, como fogo do fia de ontem.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

domingo, 1 de fevereiro de 2009

No meu silêncio de escuta e visão

quarto, de Vincent Willem van Gogh

O meu quarto é uma autêntica câmara funerária, excepto no branco que separa o tecto das paredes. Negras se lembrarão como lágrimas a caírem. Vêm de não sei donde e sinto-as como lágrimas em suor. Não são lágrimas de mulher - mas imaginarei como se o fossem! - que escorrem a meio do meu cigarro a incensar-me. Vêm como a vida, que é o apetite da mulher que se quer e, da outra que se rejeita pelo simples facto de nos parecer a mais. Nenhuma mulher é a mais. Procuro o meu cigarro e fumo-o devoradoramente, como se procurasse na noite, um livro para ler... depois do sono. Voou no meio do meu corpo a pedir forma. Olho-me no espelho a pedir imagem. Resguardo-me no silêncio a pedir fala; nas palavras a pedir qualquer silêncio; na forma a pedir segredo; na cama a pedir a paz de um sonho sem trevas; num relógio a pedir as horas que não chegam. Tudo o que quero me sai, mas nada chega, a não ser o silêncio da noite que me passa em habituação. Só que nunca morrerá o poeta nos versos com os seus (de)feitos.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

De murmúrio fiz as esquinas próximas onde ninguém passa

pintura de Lichtenstein

De murmúrio fiz as esquinas próximas onde ninguém passa.
Elas existem em-mim, saem de-mim
percorrem-me em passos lentos e rápidos
seguros, inseguros, fáceis, desencantados, trôpegos
como os dos homens que se levantam dessedentados de álcool
em gritos breves e imensa tontura.

Murmurei as esquinas próximas onde ninguém passa.
Elas existem, porque se erguem em frente de qualquer olhar
passeio, jardim, praça, avenida, ruela.
Existem, porque são o que os olhos querem.
Se as murmuro, é porque elas são o aspecto
que em-mim há para quem me olha.

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Oh! como é triste não termos a alma que gostariamos de ter

detalhe do túmulo de Lorenzo di Medici, Miguel Ângelo


Oh! como é triste não termos a alma que gostaríamos de ter
para reproduzi-la de encontro aos muros da nossa ânsia
aos paredões sombrios do nosso gesto
às forças largas das nossas intenções
à praça grande que guarda as nossas capacidades
e encontrá-la na forma de Alma-Mulher, Alma-Gesto
Alma-Fracasso, Alma-Desejo, Alma-Encoberta na ânsia
de a termos. Alma-Nevoeiro de tanta face descoberta e fácil
como a nudez que nos torna tímidos e breves
para lá da ofuscada torre da nossa babilónica verdade e mentira.

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

É de noite que me visto. E dispo. E consumo.

pintura de Joseph Wright of Derby

É de noite que me visto. E dispo. E consumo.
É de noite que os meus braços sobressaem dos ombros, os meus olhos do rosto e o meu pequeno sorriso do silêncio e da escuta.
É de noite que a música ressoa acutilante e total, evasiva e penetrante, força humana escondida por detrás de cada delírio pleno e perfeito.
É de noite que as silhuetas são marcadamente breves, já que as sombras as identificam e definem.
É de que o choro se aquece e se transfigura; entrega em gelo ou se desprende em neblina.
É de noite que tudo se sublima, se torna mais visível, mais perfeito, mais nítido, como o sono das crianças e as esperas dos velhos. Mesmo a memória, que é vária e nunca acaba.
É de noite que abro os braços e me apaixono.
É de noite que junto seis candelabros com todas as velas acesas, disponho uma infinidade de copos e rego de champagne a minha fantasia, a minha imaginação, a minha cortesia. A minha maneira de receber. Bem ou mal, mas a minha! Deixo a mesa cheia de-mim e do gosto dos outros. Deixo as cadeiras vazias para quem se queira sentar.
..................Nos candelabros, as velas nunca se apagam,
..................nunca se gastam. Na minha casa, à noite,
..................tudo é suicídio, porque a minha memória é
..................um grande abraço envolvente, transportando-
.................-me não sei donde para onde. Apenas fantasia?
É de noite que as sensações se materializam, que podemos enfrentar os outros nos olhos, nas mãos, nas bocas, nos copos. É aí que a navalha aquece o sangue, o grito sai mais nítido, o corpo cai mais pesado, o vento se enrosca mais perto, a junção é mais breve. Mesmo o medo, que sendo a razão de se ser, é a alegria contrária de nos possuirmos. Fantástica a noite de todos os dias! Com todos os seus aspectos!
É de noite que vejo nascer o mar com as suas fronteiras de várias cores, com os seus olhos de várias luzes, com os seus corpos de várias formas, com os seus gritos de vários tamanhos.
É de noite que acordo, logo cedo, quando os barcos dormem no calado rumar das gaivotas, empinando o voo junto ao coração da terra.
É de noite que tudo vive e adormece.
.
José Manuel Capêlo, Odes Submersas, Átrio, 1995

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

a voz que se levanta

alegoria da poesia, de Rafael Sanzio

podias vir com a tua beleza azul
levantar as mãos dos homens
adormecidos e gastos. podias vir
com o gesto da tua face em
sorriso aberto, marcar os olhos
dos homens que te chamam ao longe.
podias vir, e conscientemente proteger
todos os filhos que deste a nascer
por essas esquinas fixadas em cada
ponto da cidade, que sendo tua
é de todos os olhos dos homens
que te seguiam. podias vir, tu-mesma
ou a sombra que escolheste e te
representasse, porque a voz que se levanta
não é a tua, mas a minha!

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989