
quinta-feira, 7 de maio de 2009
UMA GOTA DE ÁGUA

terça-feira, 5 de maio de 2009
PONTO DIFERENCIAL
segunda-feira, 4 de maio de 2009
De ti, oh! amada

sábado, 2 de maio de 2009
toda a incoerência, toda esta sombra de princípios, que existe
na consciência dos homens, na mente da Igreja, nas falácias dos
conselheiros nas mãos das grandes fortunas de Itália,
nas mãos do mundo?!...
E eu aqui, aqui preso nas masmorras dum cardeal tirano
que empreendeu perseguir-me pelas estradas e cidades da Europa
e prender-me para seu gozo e prazer, como se fosse um assassino
- antes o fosse! – ter-me à sua disposição para que renegasse
a minha fé e a minha consciência, os bens mais preciosos de que
disponho
faço uso e sigo, para dar-me e aos que me escutam, - esta infinidade!-
consciente de que poderei nela errar, mas que sinto estar certo
quando a explico, a uso, a faço entender e reconhecer
nesse Deus – que me espera -, como unidade infinita
na conciliação dos contrários, como causa imanente do Mundo.
Amore mio, aqui te segredo a minha paixão, a minha última palavra
o sentido da vida e da eternidade, essa conjunção que me torna
presente
e conquistador do eterno, na mente dos homens, na consciência
dos povos
na imensidão do futuro, que sempre foi o que procurei
nesta minha vida, errante, brusca, dilecta, mas apaixonada:
por ti, por mim, por esse Deus – a Sua causa e Destino – omnipotente!
Guarda-me e segreda-me, como se te lembrasses dum velho
que te segredou as últimas palavras e os últimos pensamentos.
Guarda-me, como eu te levarei, no último grito, entre o fogo da
fogueira que me consumirá o corpo, o sangue, o cérebro
mas nunca as ideias que deixei e consegui fazer vingar.
Guarda-me e segreda-me… o teu louvor e a tua lágrima.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Ali estávamos nós, no rubro em que os tendões se desgastavam
quarta-feira, 29 de abril de 2009
O velho moinho transformado
O velho moinho transformado
acolhia-nos com a pedra mó no lugar do sagrado, bem fixa
como a estrela polar que nos encaminhava as mãos.
O corpo. O instinto.
Deixamos para trás o mar
na longa onda que nos recebeu em pleno
como se o voo da gaivota, que entretanto passara
anunciasse o clamor dos deuses na era plena...
Então, eles escreveram para que se anunciasse:
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
terça-feira, 28 de abril de 2009
Da louca paixão do corpo
Mais do que a verdade dos sentidos
é o que corre pela mão do vento que nos cerca
inundando os vales que as mãos procuram
e os nossos desejos ferem de ânsia.
Impossível dizer que a indiferença está em nós
quando um olhar surge. Possível e certo
é marcarmos o segundo com a presença do corpo
invadir o grande vale com as mãos abertas
desfolhar as margens com o orgulho do menir
sem que nos lembremos que a terra
é o lugar em que descansamos o nosso sentido.
Mais do que a verdade da vida
é a lonjura do corpo em que nos afogamos
e bebemos o delírio, o instinto e a indiferença.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
domingo, 26 de abril de 2009
sexta-feira, 24 de abril de 2009
O RASTO DO POEMA
o sentido das luzes a apagarem-se dos candeeiros
a grande mancha da cidade a aparecer visível
e a minha grande alegria ao sentir-me vivo.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Qualquer realidade é como uma andorinha à procura do beiral da Primavera
domingo, 19 de abril de 2009
Lugares de todos os lugares
tudo o que contigo aprendi nessa infância aberta
entre a fugidia maravilha dos dias jovens e o anguloso destino
dos dias preparados por sábias mãos, o encontrei nessa terra albicastra
que me foi lugar de nascimento, sedução e lembrança.
Contigo vivi o cheiro do azeite das ladainhas a iluminarem santinhos
postados em nichos e pequenos altares, aqueles a quem expressavas a tua fé
romana, outrotanto pagã, entre deuses e demónios que te perseguiam e enlutavam
principalmente quando acendias ou incensavas cadinhos de intenções
naquelas noites em que a substância dos dias e o enredo dos homens
faziam oráculos todos esses que se comemoravam para lá de todas as datas.
Sabes tia,
também jamais esqueci que essa linha recta invisível, mas seguríssima
que enfileira Monsanto com Idanha-a-Velha passando por S. Pedro de Vir-a-Corça
por essa ermida escondida entre penhas e silêncios, feita de mistérios e segredos
se tornasse um dos lugares sagrados que as pedras guardam e a terra cala
ou se lembrasse como princípio e fim de um rito que se prolongou
até que os homens se apercebecem de que não é com o furor da guerra
nem com os enganos da paz, que tudo se esquece ou apaga
mas sim pelas frases que se murmuram e prolongam pelos dias
— de todos os dias, até aos dias das pedras e das estrelas —
em que as evidências se colocam e se decifram tão distintamente
como qualquer documento deixado em papel, madeira ou pedra.
Sabes tia,
o meu poder, aquele que baptizaste e sagraste com a tua mão
não foi tirado do vento nem dos olhos dos homens: veio do ciclo da terra
dessa mesma que me ungiu como equinócio e solstício
de verões e invernos que se prolongaram e juntaram, como as marés
— esse vaivém contínuo de movimentos de horas e dias.
De ti, tia, guardo o encantamento do segundo e do lugar
da tua mão e do teu riso, também dos teus gestos e memórias
para que saibas, já que não precisas de me lembrar, porque o descobri
que a soma da realidade da vida, desta terra que pisámos e guardámos
é a existência: a eterna lembrança feita, na visão da sombra e da luz.
José Manuel Capêlo,
sábado, 18 de abril de 2009
COBARDIA
Apetece-me gritar o teu nome
para que todos o oiçam
e fugir depois...
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Primavera

José Manuel Capêlo, publicado no romance de Sabina Ricagni, Heróico Fogo da Primavera, Zéfiro, 2008
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Fogo
Deitem-me à sombra do loureiro
para que descanse nos sonhos eternos
junto à pedra tumular que ganhei aos celtas
gravada que fizeram a sua suástica
de braços redondos, seculares e idênticos
Deixa que me sepultem entre os dois
Para que me lembrem nas cinzas
Em que me quiseram desfeito.
Lembra-me no silêncio
para que o meu sorriso seja o mesmo
sempre, sempre igual ao que te repeti
ao longo de todos estes dias, estes anos
igual à força duradoura de um amor eterno.
José Manuel Capêlo, publicado no romance de Sabina Ricagni, Heróico Fogo da Primavera, Zéfiro, 2008
quarta-feira, 15 de abril de 2009
terça-feira, 14 de abril de 2009
ENTREGA
Regularizo ......molemente ........o passo
finjo que brinco .............com os olhos
destapo ........a tampa ........do universo
e ........entrego-te
de bandeja ........os meus dentes.
Faz deles .......o que quiseres .......menos
colocá-los ........ na tua ........ boca.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
domingo, 5 de abril de 2009
Infinito em transparência
pintura de Thomas Gainsboroughsexta-feira, 3 de abril de 2009
Com a paz nos olhos cheios
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Oh! minha Ilha-Verde da paixão
Oh! minha Ilha-Verde da paixão
como a nossa Verdade não se esconde, nem se encobre
não tapa o que o sol descobriu para nosso perfeito defeito e conforto.
Este, o grande mistério-verdade que a terra nos proporciona;
porque sabendo-nos, sabe-se!
Sem hipocrisias, sem fingimentos, sem adulterações
na pequena fábrica do nosso aconchego e enlevo.
.
Como razão de muitos dias
segredas-me o teu querer e a tua paixão, à mesa do tempo
por entre o deslumbramento das lágrimas
na amadurecida ausência das perguntas
no transbordante recolhimento das respostas
na impenitência que te faz perfeita
.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
MONTESEGURO
para o Lud
Tiraram-me de cima as vestes de esmeraldas
enquanto adormecia.
Uma Dalila no tempo
cortou-me os cabelos
e ao som de marchas
fui parar a um cemitério sem ciprestes
enquanto homens juntavam piras
no centro do castelo
para imolarem outros-tantos
que se juntavam nas masmorras.
Perdera-se o vaso
mas ganhara-se o reino dos céus
enquanto a fortaleza permanecia calada
- lá no alto-
transponível por uma só entrada.
Movimentavam-se aí as sombras dos albigenses.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
terça-feira, 31 de março de 2009
Destino
segunda-feira, 30 de março de 2009
A paixão de amar
A origem da Via Lactea, de Tintorettodomingo, 29 de março de 2009
Tempo de regresso
com que sonhaste o regresso do infante adormecido
por entre as vagas que se levantam do mar imenso
ou no seio da floresta, em verde aberto.
Escuta amada, o murmúrio dos ecos
no levantar das folhas de encontro à brisa
ou a visão do sol, que se dilui na claridade da noite
lugar secretíssimo que ninguém descobre
e onde só nós estamos.
Que sei eu dizer-te, que já não saibas ou penses
- mesmo que o meu sorriso se ilumine de sombras -
se só tu decifras a lonjura da terra e o rebordo do mar?
Que sei eu provar-te que não me tivesses dito
senão esta natureza que se criou em-mim
mas que veio de ti, sem que jamais o soubesses?!...
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
sexta-feira, 27 de março de 2009
José
José,
deixa que a tua fraqueza encolha os ombros
que os dias se levantem azuis e acabem em chuva
que a tua alma parta sozinha e viaje sempre
que o teu grito seja o eco no próprio vazio.
Dentro de ti, lá bem no fundo, és tu...
Ninguém te conhece. Os olhos são cegos
as mãos imensas, o frio ímpio, o calor tórrido
e todos têm Pátria e todos têm gente
só o frio que o teu olhar sente
é mais quente
......................que todo o sol no mundo.
José,
vai, descobre por ti mesmo cada erva na planície
cada toca de coelho bravo, todo o ninho de ave
toda a fogueira a arder no finito distante
toda a chuva e todo o vento
todo o enigma do poema - que é o teu!
Quem te pode falar as palavras e os risos
o choro, as emoções, os arrependimentos, os gestos
as miragens, os quadros, o poema?
Todos estão fartos, e cansados, e tu, vives
no mundo que te ignora ou te condena
sem mesmo que ele-dele tenha pena
embandeirado em crena
............................um arco desfeiteado.
José,
escreve o teu poema e deixa que o mundo continue
porque nunca houve um quadro acabado
sem que uma mão o pintasse!
Não tenhas remorso desta vida, deste tempo curto
destas horas fartas de rugas, de mãos cheias de vício
onde o sol se põe - como em todos os lugares-
porque a promissora morte, a morte inesperada e decente
não é ingénua, nem solitária, nem consente
que toda a mente
......................a leve para longe de si.
José,
assim, nunca estarás só ou insatisfeito
nesta lenta
........... e triste
................. caminhada
.................... dos dias...
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
quarta-feira, 25 de março de 2009
LONGOS BRANCOS BRAÇOS

terça-feira, 24 de março de 2009
LUZES... COPOS

segunda-feira, 23 de março de 2009
Como se não bastasse
pintura de Amadeo Modiglianio clamor invadiu o lugar e dei por mim a segredar-te:
Então, vendo que éramos dois
os deuses calaram e resguardaram-se no seu lugar.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
domingo, 22 de março de 2009
Quem correu comigo ao longo do rio e se transformou em mar?

sábado, 21 de março de 2009
Vieste igual, porque vieste tu
pintura de Georges Seurat Vieste igual, porque vieste tu
infinita face em que o suor escorre e o sorriso se anima
lugar de encontro onde a luz tem som
sinal vindo do claro-escuro onde tudo se destrinça e se esfria
-porque infinito é o eco da alma! -
malha sagrada onde se tece o Império, o Segredo
o velo temporal da Humana criatura, sílaba enunciada do silêncio.
As horas ficaram, porque eram!
Ruas intemporais de tantos passos dados
seguindo os caminhos habituais
os lugares destinados, as cadeiras à espera.
Sobre nós, corria o prédio de três andares
forma onde se esbatia o nosso ímpeto e o fulgor do suor
realidades de noites que se evadiam na ternura das dunas
ali à frente, com o mar em refúgio de ondas
perdida mancha duma palavra constante e vibrátil.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
sexta-feira, 20 de março de 2009
ADORMECER
quinta-feira, 19 de março de 2009
de então...até agora
Como vai longe a minha infância
mascarada do gelo da serra
onde nasci, entre a vertente da Estrela
e o leito do Tejo, ainda fraco.
O crepitar das fagulhas de inverno
e o suor escorredio do verão
o amor e fala suaves de minha mãe
o chorar rabugento e vivo de minha irmã
o saltitar para a rua empoeirada
e a soante tareia por chegar tarde...
Tudo isto, em tempo de férias...
Mais longe, entre o fronteiro e o alto
do casario lisboeta, entre esse mesmo rio
e as pradarias verdes ribatejanas
onde cresci nos primeiros passos duma juventude
quase despreocupada, entre
a voz suave e o amor de minha mãe
as partidas de minha irmã, a tomar forma
o saltar p'ra praceta arranjada
postada mesmo enfrente
e a soante tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aulas...
Ainda mais longe, entre terra e terra
da vizinha Espanha e do antepassado Marrocos
na plena seiva uivante da minha adolescência
na forma gritante, do quero e posso, do
aqui mando porque me crio e defendo
nas cartas demandantes de aflição material
e da fome no estômago de dias sem comer
no amor e escrita suaves de minha mãe
do eco de desaprovação de minha irmã
do voltar para casa com ar empoeirado
a reprimenda e o sopapo por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aventura...
Quando agora, já mais próximo
entre o mesmo casario e o mesmo rio
com a força dos anos ainda forte
pai duma filha que nasceu chorando
primeira da minha composição-macha
seiva do meu grito breve e fecundo
do eco uivante de todo o meu ser
sem amor e palavras suaves de minha mãe morta
duma irmã que perdi na separação dos bens
com o corpo ainda quente daquela que muito amei
e que nunca mais me daria a reprimenda
o sopapo, a tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de angústia...
Quando ainda mais próximo
entre a partida e o regresso de cada voo
que é o meu trabalho e o meu sustento
senti a força do mundo e amei a mulher
na forma que é, na força que tem
voltei a viver e a sorrir e a chorar!...
Então, sim, então escrevi tudo o que é meu
na forma sincera do todo que me habita.
Escondi também, criando a forma, a expressão
daquilo que não sou e nem serei...
Tudo isto em tempo de meia-felicidade...
Quando e ainda mais próximo
mais uma filha tive nascida na britânica ilha
de carne lusa e carne inglesa
que não chorou nascendo, nem corou gritando...
Quando mais outra veio do mesmo modo
do mesmo corpo, do outro corpo e do mesmo sítio
em dia único de nome de rosa encoberta...
Assim, que reste o tempo de vida
olhando da minha infância a terra serrana
e o coito da grande urbe em movimento
- palco de gente movediça
crepúsculo de deuses e feras
minadas de ideias que saem e não nascem -
assim, que reste o tempo
entre o casario e o rio enquanto viver...
Tudo isto em tempo de rotina...
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
quarta-feira, 18 de março de 2009
os cafés não podem morrer!
Não podem ser transformados em bancos
em vazadouros públicos, em memórias desarticuladas
em banquetes de opíparas magias
em casas de curta duração.
Onde estão os meus cafés perdidos
no meio do meu orgulho
da minha fronte de amigo vizinho
criador de palavras e de imagens
de puro amor às ideias?
Não, não, os cafés não podem morrer!...
Não deixem desaparecer as mesas
as bicas, os bagaços, os cinzeiros
a nossa alegria ou tristeza
de falarmos de cadeira para cadeira
em que cada conversa é uma ideia
em que cada ideia é uma geração
em que cada geração é a própria história.
Não, não, os cafés não podem morrer!...
Não pode morrer o que mais sagrado é
para todo aquele que ama a vida
a liberdade, a alegria de se saber
quem é e não é
e que o leva ao mundo maravilhoso
do ar empolado de fumo dos cigarros.
Como poderá morrer um café da avenida
dum parque, duma rua, dum largo
duma praça onde voam pombos, passam pessoas
caminham turistas e correm ladrões
que por serem ligeiros, se espaçam nas massas
das multidões desatentas e confusas?!...
Não, não, os cafés não podem morrer!...
Vivam os cafés abertos, os cafés-concertos
os cafés-botequins, os cafés Martinho (d'Arcada)
os cafés Gelo, os cafés do Chiado
(Brasileira, Benard, Tavares, Grandela)
as ruas a subirem, as ruas a descerem
os olhos falando, as mãos pedindo
a eterna bica e o quente bagaço ...
Vivam quem os inventou!
Nada, nada os poderá transformar
desaparecendo do nosso conforto
do nosso sentir de clepsidras
de graníticos lepidópteros
fantasiantes mancebos surrealistas
fantásticos plagiantes presencistas.
Não, não, os cafés não podem morrer!...
E se o fizerem
acabe-se Lisboa !!!!!!!!!!!!!!!!!
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
segunda-feira, 16 de março de 2009
há tanta gente... tão pouca gente
sábado, 14 de março de 2009
O desejado
sexta-feira, 13 de março de 2009
Há um sonho dentro do teu olhar azul
ghirlandata, de Dante Gabriel Rossettiquinta-feira, 12 de março de 2009
cresce em-mim a cidade
do vento. depois, em uníssono
vagueiam os passos na procura direita da posição
que é aquela que os homens tomam quando se espantam
ao se encontrarem direitos, de se verem em pé
de continuarem vivos.
os homens vivos?!...
os homens com as cabeças levantadas, ainda?!...
os homens com estas personalidades que os tornam
distantes de tudo e de si-mesmos
como sombras resguardadas no canto da primavera?!...
cresce em-mim a cidade deste País tão belo
e de homens que andam sem saberem para onde vão!
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989
quarta-feira, 11 de março de 2009
pelo outro lado da terra
Boreas, de John William Waterhouseterça-feira, 10 de março de 2009
ter herdado tudo, de nada e de ninguém
ter herdado tudo
de nada e de ninguém.
luzes do meu universo cheio
onde estão as sombras do meu vazio pleno
as linhas do meu horizonte fácil
as rodas da minha máquina perpétua?
fumo sem cessar os cigarros da minha arteroesclerose ímpia
bebo sem me importar o álcool da minha cirrose sem dentes
fornico sem me caber a sida dos meus testículos inchados
grito a plenos pulmões a dose da minha over-dose inicial
rabujo contra os defeitos das minhas crianças apanhadas na mão
mastigo o doce que o empregado da confeitaria me pôs entre os dentes
pergunto ao Esteves, o da Tabacaria, se já mudou a tabuleta dos anos
imagino o poeta a embebedar-se com as sombras da noite
o pintor a esquizofrenizar-se com as luzes das cores
o aviador suspenso do seu balão estático
o motorista da caranguejola sem cheiro e sem buzinas.
enfrento o mar e pergunto pelo tubarão devorador da última perna
da mulher que enfrentou o marido e se cobriu de lágrimas
do último crime da rua do galeto que se repetirá daqui a dez anos
igualmente, pontualmente, como a luz que acendo sobre a minha cabeça
nessa variação que a terra dá e o tremor faz abanar?!...
ter herdado tudo
de nada e de ninguém
como ser único, solitário e temente.
por hoje basta de vultos e de efemérides
que as linhas do meu horizonte facilitam
e as rodas da minha máquina perpetuam.
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989
segunda-feira, 9 de março de 2009
Como é louca esta velha terra de bravos, virgens
painel esquerdo da Tentação de Santo Antão, de Hieronymus Bosch Como é louca esta velha terra de bravos, virgens
putas, cobardes, imbecis, para-génios
duendes, pigmeus, velhos, apátridas, traidores
e ninfas vestidas com paramentos de noviças.
Como é louca esta velha terra tresandando a enxofre
e a histórias de pecados e delírios, riquezas e misérias
despovoadas nas barracas de cobre ou erguidas em amoreiras
de super-luxo. Gritam-se os contrastes, mas que fazemos
para os desfazer? Gritamos o belo, mas que fazemos
para que o não seja, para que a luz não se baste à sombra?
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
domingo, 8 de março de 2009
Infinidade, sempre ...

sábado, 7 de março de 2009
Passo ...
sexta-feira, 6 de março de 2009
DEIXA QUE DURE O TEMPO
No teu olhar há um sonho
que sonhei múltiplas vezes.
No teu olhar, um regaço
em que me acobardei sem sentido.
Deixa que os dias sigam e os ponteiros se movam.
Deixa que dure o tempo.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
quinta-feira, 5 de março de 2009
Parapeito
quarta-feira, 4 de março de 2009
VAMOS SONHAR...DORMINDO
Vamos sonhar naquelas águas calmas
que descem em cascatas de vida
por aquele desfiladeiro de verde ! ...
Vamos sonhar o nosso sonho
para que ele se abra em flores de lilás
ou em música de Tchaikovsky
para nos amarmos melhor.
Vamos chamar os nossos sonhos de amor
numa tarde de chuva, para que se elevem
e nos deixem pensar no dia
amanhã chegado e sem pressas.
Vamos dormir meu amor
para que eu olhe nos teus olhos
a certeza de que amar, não é só
a forma de te sentir viva e minha.
Vamos sonhar o nosso sonho!
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
sábado, 28 de fevereiro de 2009
DA TUA BOCA
Rapariga com brinco de pérola, de Johannes VermeerOlhei um ponto perdido não sei onde em que distância
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Suprema intensão
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Ruas imensas dum certo desespero
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Vaga visigótica
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Ode infinita

ser em ti vagaroso como o rio que nos cerca
compreender que a vergonha não és tu nem eu
nem tão pouco o castanho das madeiras
mas as angulosas cabeças de chapéus de feltros.
Imagina-te anzolada à minha dimensão metafísica
à ignorância colectiva que é aparentemente um fracasso
ao espaço hesitante do subproduto
à vergonha honesta de que vale mais importar
do que mingar tumularmente de fome.
Oh! Pátria, nada me impede de pensar
que, também tu, possas ser sempre eu
lastimável, acabrunhado, indeciso
recuando ante todo o vulto sentado
lembrando o meu passado sem história
no presente movimentoso e aparente.
Pensa que não vim de ti, mas me absorveste
gélida, tórrida, transparente, inofensiva
mãe, prolixa e diminuída, de achados
de líricos que se comprazem à modulação do canto
e se rasgam em lágrimas à hora do Natal.
Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
e saber que também a tens.
Não saber nada e dizeres que me cale
mantenha o mesmo passo e o mesmo olhar
suba aos edifícios e desça aos esgotos
analise os olhos e aguarde em sereníssima contemplação.
Acho que dizer - acabe! - não basta
já que o lento movimento das nuvens
nunca simbolizou temporal
nem as persianas a fecharem-se
significa que crianças adormecem.
Lento, é todo este movimento
diagonal
indulgente
formidável
cómico
com todas as suas arenas modificadas
de estranhas larguezas
lembrando chaminés
e o mais que se entrega num leito almofadado.
É tempo de dizer que nunca me tive
(nunca te tive)
nunca passeei com a tua estranha monotonia
a tua calma aparente
simbólica
consciência de feitos inacabados
horas de partida
de chegada
choros de faces sofredoras
mãos cobardes.
Desci aonde podia
aonde nunca ninguém me obrigou
onde sabia nascer um cavalo
com cara de menino
pestanas de escorpião
mãos de foca
silencioso e sem vertigens.
A partir desse momento meti na cabeça
que a estrada continuava
seguindo, uniforme, as cadeias de montanhas
delicadíssimas plantas lupanares
tropeçando nos regatos e nas cascatas.
Para cima
haviam as pontes estruturais, magníficas
não sei de que ano, de que tempo.
Só sei que lá estavam
como tu
Oh! Pátria
manifesto profundo das minhas palavras.
E eu que nunca fui um rei
no meu planeta?!...
Nunca tive palavras
nem gestos
nem o medo dos infelizes
dos que procuram
acobardando-se no pouco que comem
olhando simbolicamente
pois foram para isso que nasceram!?...
Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
e sentir-te vagarosa como eu.
Que estranho destino o contemplar paredes
a olhar sés que não percebo
monumentos, pontes, estradas, rios, florestas
céus, antenas, murais, risos, imagens, curvas
como o pensamento que me alaga
me conduz e me deixa sem que nada perceba.
Como um grande vento, Oh! Pátria
o teu rosto aparece-me no espelho
salpicado de mil cabelos, mil olhos
a loucura enorme de gestos, de palavras
de desenhos e pinturas, de poemas
de frases loucas de sentidos sem sentido
máquinas e poses, grandes telas de sorrisos
fáceis manobras de testemunhos e estímulos.
Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
que é toda
e é nenhuma!
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982


































