quarta-feira, 27 de maio de 2009

Os teus trinta anos


pintura de Gustav Klimt


São trinta anos!
É um pedaço de tempo feito
de modo preenchido,
um sorriso, um olhar, jeito
do dia passado-ido...

É a busca na luta, assim
o medo de ser e não ser,
diálogo que não tem fim
daqui estar e doer.

É pedir um pouco mais, sem razão
entre dois acenos de boca,
mascarar com uma só mão
o que na outra está oca.

Ruíram impérios, ideias
mil sinos de sons ufanos.
De noites de luas cheias
ainda só vão trinta anos.

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

sábado, 23 de maio de 2009

Quiseram-me

pintura de Edmund Dulac

Quiseram-me rei, nasci menino
sinal errado daquilo que sou
acento firme daquilo que fui
pedaço de corpo do que serei.

Quiseram-me mago, nasci pedinte
criatura de vida, de mãos de semente
olhar vivo de brilho infeliz
praga viva em existência desfeita.

Quiseram crente, nasci agnóstico
pedido impossível para quem não vê
lugar no futuro para quem crê
incógnita de que existo e de que fico.

Quiseram-me tudo e, afinal sou nada
imagem para esquecer, nome para apagar
tempo perdido sem nada ficar
excepto ossos, para a árvore ramada!...

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

quarta-feira, 20 de maio de 2009

PELA PROCISSÃO

pormenor da descida da cruz, de Fra Angelico


A horrível miséria das chagas
a passar com o andor do santo
pelas horas premiadas.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sábado, 16 de maio de 2009

As longas horas de encontro

Jovem Cicero lendo, de Vincenzo Foppa

Longamente... a noite
a fácil luz de todos os delírios
de todos estes medos que guardo desde a infância
essa, que só me soube a trevas e a embuste
a memórias fáceis e desatirculadas
a longas horas de encontro comigo, a sós comigo
com os meus vultos e os meus delírios
a minha imaginação fácil e desempoeirada
acontecida em longas horas de sono vivo e feliz.

Quem me soube ver quando me procurava
nas imensas manhãs de um qualquer dia sem dia?
Quem me soube entender quando me perguntava
de onde - ou de que lado - vinha a luz
quando se distinguia a sombra incontrolável das trevas?
Quem me soube responder a esse passado
que, de tão recente
tinha a visão da minha orfandade
vista por tantos
e pouco, ou nada, entendida por poucos mais ?

Foi brevemente longo o meu desespero
a minha ânsia descontrolada
o lado outro, que não era meu, porque o não tinha
e não sabia a quem pedir!?...

Quem fez de mim o que sou hoje?
Quem se lembrou de me lembrar?


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

quarta-feira, 13 de maio de 2009

À noite, na cidade


Spike, de Emília Matos e Silva

para o Putchi


A cidade dorme de preguiça. Plena, convencida, farta. Na rua passeiam-se os donos com os seus cães de estimação, enfeite mais para se amar uma casa, do que para mostrar ao vizinho o leão que se tem. Um deles, ladra a bom ladrar. É pequeno, negro, absolutamente vivo, orelhas esticadas sobre o focinho aligeirado, olhar inteligente, gesto rápido. Tem uma mancha branca, lindíssima, à flor do peito. O dono passeia-se com ele na mesma lentidão com que a cidade se espreguiça. Olho-os, e a minha paciência passa à frente com a faiscante certeza de quem tem tempo... e aguarda.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Mágico fogo da inocência

Desenho de mãos, de Leonardo da Vinci


Deixei o sonho
-essa língua de fogo que me ata ao ser
ou ao instante que pesamos-
quando acordo com o sorriso
do mágico da cena e privilégio.

E que sonhos deixo passar
por entre os dedos da fortuna
- invios como o éter ou como o arvoredo
no seu imenso lago de aves e vinganças-
sem que me sinta inocente... e confuso?

Não procuro os sonhos
Os sonhos... sonham-me!

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon. 2000

sexta-feira, 8 de maio de 2009

ESTA MANHÃ QUE NÃO CONSIGO



Alegoria com Vénus e o Tempo, de Giovanni Battista Tiepolo


para o José do Carmo Francisco

Era longa a noite do poema
tão longa como o sibilino eco vagueando
na cálice espuma duma onda vaga.

E eu perdi-me a olhar os dedos
a frágil brancura que sempre me confundiu
ao procurar no infinito
a ponta de todo este mistério

Lá estava a manhã com o resto das horas
o ponteiro pontual que me fere a cabeça
me encosta o sono ao acordar repentino
se enfeita de muitas, múltiplas alegrias
e regresso ao acto consentido e bento.

Só que eu não espero, não posso esperar
não posso aguardar que os dias se repitam
e consigo, me voltem a trazer o mesmo
na secura das lágrimas que não participei.

Estou farto e seco.
Comigo se alonga a noite que diviso
as estrelas penduradas e o rasto do cometa.

Fica só a longa noite do poema
tão longa como o sibilino eco vagueando
pela memória dos homens que ficaram...

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

quinta-feira, 7 de maio de 2009

UMA GOTA DE ÁGUA


Chuva, de Gustave Caillebotte


De ti sempre esperei a serena chuva
aquela frágil gota de água
que me tocava a ponta do nariz.
Talvez que viesse com a luz
ou com a ponta do cigarro
ou com a tua agonia aparente.
Mas de ti sempre esperei
essa pequena gota de água.

Normalmente pensava
que ao meu redor existiam as tuas fantasias
ou pelo menos
entregavas nas minhas mãos
as tuas intenções.
A gota de água era um símbolo
um movimento novo
que juntavas ao teu sorriso
e que fazias acompanhar
do mais belo gesto.

Normalmente era verdade.
Só que no meio do entusiasmo
me vieste com loucas manhãs
com gritos de menina mimada
com falas de falsa donzela
com arrepios próprios do Inverno.
Aí, pedi que me desses de novo
a chuva serena
a frágil gota de água
para que me pudesse saciar.
Então, estendeste as mãos
e pediste que eu me fosse!...


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

terça-feira, 5 de maio de 2009

PONTO DIFERENCIAL

pintura de Paul Klee

para a Isabel Laginhas


Dói muito mais a dor no nosso corpo
do que dói na dor o corpo nosso!

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 4 de maio de 2009

De ti, oh! amada


Vénus adormecida, de Giorgione


De ti, oh! amada,
do murmúrio sonoro da noite, recebi do teu corpo
a imensa paz do teu busto, o prazer determinado do teu olhar
o nervosismo mágico das tuas mãos sôfregas
as palavras dos outros, como ecos de erros aos nossos ouvidos.
Se não havia silêncio, havia, pelo menos
o som da minha luz nos teus olhos.
Nervoso, nervoso de mais, isso bastou a que ali não ficasse.
Despedi-me um tanto apressado
como quem não sabe o que fazer ou por onde começar
quando tudo se precipita ou antecipa à nossa frente.
Apeteceu-me pegar-te pelo braço
e arrancar-te do meio daquele espaço sem realidade
sem qualquer valor ou forma, sem sentido nenhum.
Faria algum entendimento estarmos ali, nós que ali não estávamos?
Porém, e na verdade, que direito me assistia, que direito tinha
se ouvi de-mim (ou no poema da tua voz!)
que a litania era estar sozinho
estar com a minha correria desenfreada e vaga!?...


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

sábado, 2 de maio de 2009

cabeça de homem, de Fra Angelico

Amore mio, com o se te pudesse explicar, em breves palavras
toda a incoerência, toda esta sombra de princípios, que existe
na consciência dos homens, na mente da Igreja, nas falácias dos
conselheiros nas mãos das grandes fortunas de Itália,
nas mãos do mundo?!...
E eu aqui, aqui preso nas masmorras dum cardeal tirano
que empreendeu perseguir-me pelas estradas e cidades da Europa
e prender-me para seu gozo e prazer, como se fosse um assassino
- antes o fosse! – ter-me à sua disposição para que renegasse
a minha fé e a minha consciência, os bens mais preciosos de que
disponho
faço uso e sigo, para dar-me e aos que me escutam, - esta infinidade!-
consciente de que poderei nela errar, mas que sinto estar certo
quando a explico, a uso, a faço entender e reconhecer
nesse Deus – que me espera -, como unidade infinita
na conciliação dos contrários, como causa imanente do Mundo.

Amore mio, aqui te segredo a minha paixão, a minha última palavra
o sentido da vida e da eternidade, essa conjunção que me torna
presente
e conquistador do eterno, na mente dos homens, na consciência
dos povos
na imensidão do futuro, que sempre foi o que procurei
nesta minha vida, errante, brusca, dilecta, mas apaixonada:
por ti, por mim, por esse Deus – a Sua causa e Destino – omnipotente!

Guarda-me e segreda-me, como se te lembrasses dum velho
que te segredou as últimas palavras e os últimos pensamentos.
Guarda-me, como eu te levarei, no último grito, entre o fogo da
fogueira que me consumirá o corpo, o sangue, o cérebro
mas nunca as ideias que deixei e consegui fazer vingar.

Guarda-me e segreda-me… o teu louvor e a tua lágrima.
.
José Manuel Capêlo, no romance sobre Giordano Bruno « Heróico Fogo da Primavera » de Sabina Ricagni, Zéfiro, 2008

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Ali estávamos nós, no rubro em que os tendões se desgastavam

A escola do amor, de Correggio

Ali estávamos nós, no rubro em que os tendões se desgastavam
em que as surpresas se animavam no canto da pele
em que a luz se limitava no pequeno sinal que saía da aparelhagem
a enunciar distância. Era nas nossas cinturas
que se armadilhavam as mãos, enquanto dormíamos.
Era nos nossos peitos que se surpreendiam as bocas
enquanto respirávamos. Era nos nossos sexos que estremecia a onda
que nos empurrava um contra o outro
aninhados em brilho de gestos, enquanto vivíamos. Sorrindo.
E enquanto tudo isto se enunciava, era a nossa língua
a carne onde habitavam as vésperas das folhagens.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O velho moinho transformado

Cavalos de Néptuno, de Walter Crane

O velho moinho transformado
acolhia-nos com a pedra mó no lugar do sagrado, bem fixa
como a estrela polar que nos encaminhava as mãos.
O corpo. O instinto.
Deixamos para trás o mar
na longa onda que nos recebeu em pleno
como se o voo da gaivota, que entretanto passara
anunciasse o clamor dos deuses na era plena...

Então, eles escreveram para que se anunciasse:

Aqui,
junto ao grande mar-oceano
em que navegámos as nossas ânsias, medos, desejos
calados ficámos, falando somente, e em uníssono, no oiço-te e ouço-me
em que contemplámos os teus olhos ligeiros, brilhantes, únicos.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

terça-feira, 28 de abril de 2009

Da louca paixão do corpo

Amor sagrado e profano, de Ticiano

Mais do que a verdade dos sentidos
é o que corre pela mão do vento que nos cerca
inundando os vales que as mãos procuram
e os nossos desejos ferem de ânsia.

Impossível dizer que a indiferença está em nós
quando um olhar surge. Possível e certo
é marcarmos o segundo com a presença do corpo
invadir o grande vale com as mãos abertas

desfolhar as margens com o orgulho do menir
sem que nos lembremos que a terra
é o lugar em que descansamos o nosso sentido.

Mais do que a verdade da vida
é a lonjura do corpo em que nos afogamos
e bebemos o delírio, o instinto e a indiferença.

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

domingo, 26 de abril de 2009

A CINTURA DAS LÁGRIMAS

desenho de Parmigianino
para o Henrique Madeira


Ainda
a cintura das lágrimas
nos olhos escondidos ..... mas brancos
pelas luzes sombreadas
que arrefecem a alma.....no frio da praça.
.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O RASTO DO POEMA

Manhã, de Camille Pissarro

Viera com a madrugada o rasto do poema
o sentido das luzes a apagarem-se dos candeeiros
a grande mancha da cidade a aparecer visível
e a minha grande alegria ao sentir-me vivo.
.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Janela

pintura de Jan Vermeer
para a Ema Brandão


Gostava de ter tido um olhar.
Porventura um sorriso
mesmo que não fosse
(e só)
para agradar ao espelho.


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Qualquer realidade é como uma andorinha à procura do beiral da Primavera

pintura de Albrecht Dürer


Nada (mais) resta a não ser o tempo fazedor de passagens fáceis, jardins públicos, mãos abertas, olhos nos olhos dos que comem pão amassado pela dureza das árvores, pelo contorno dos lábios, pela facilidade da voz. E há o sol, imenso roteiro de peregrinações, ruas paralelas, alianças nos dedos, tapetes de relva verde e o ocaso dos bancos dispostos ao acaso. E o mar de ondas vertigens, pássaros salgados, gestos de espuma e rosto de rochas esfíngicas, esculturas marsupiais de ventre para fora a lembrarem sombras apanhadas ao vento. E há ainda, o rosto que se espanta de encontro ao soluço do dia, de encontro à mentira da boca, de encontro ao silêncio do gesto que encobre a alma. Nada resta, a não ser, sonhos! Há passagens no céu que o demonstram, frutos na terra que os habitam, palavras que os espreitam sem lhes tocar, como se toda e qualquer realidade conseguisse apanhar um sonho na palma da esperança, vã. Qualquer realidade é uma andorinha à procura do beiral da primavera, quando as folhas se erguem ao vento, ou quando, o mar se recolhe mansamente à queda areia. No sítio da primavera, há sempre uma árvore levantada no meio da impossível vegetação. As rochas suam com refluxos de espuma e o grito que se ouve, é menos sonoro porque se não distingue na folhagem do vento. Nem no entercalado do casario. Juntam-se os (i)mortais, enquanto homens: nados, voltados de barriga para o lado, completamente cheios, no grão da publicitária esperança.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

domingo, 19 de abril de 2009

Lugares de todos os lugares

baptismo de Cristo, de Pietro Perugino
.
a minha tia-madrinha Isabel Capêlo Gonçalves


Sabes tia,
tudo o que contigo aprendi nessa infância aberta
entre a fugidia maravilha dos dias jovens e o anguloso destino
dos dias preparados por sábias mãos, o encontrei nessa terra albicastra
que me foi lugar de nascimento, sedução e lembrança.
Contigo vivi o cheiro do azeite das ladainhas a iluminarem santinhos
postados em nichos e pequenos altares, aqueles a quem expressavas a tua fé
romana, outrotanto pagã, entre deuses e demónios que te perseguiam e enlutavam
principalmente quando acendias ou incensavas cadinhos de intenções
naquelas noites em que a substância dos dias e o enredo dos homens
faziam oráculos todos esses que se comemoravam para lá de todas as datas.

Sabes tia,
também jamais esqueci que essa linha recta invisível, mas seguríssima
que enfileira Monsanto com Idanha-a-Velha passando por S. Pedro de Vir-a-Corça
por essa ermida escondida entre penhas e silêncios, feita de mistérios e segredos
se tornasse um dos lugares sagrados que as pedras guardam e a terra cala
ou se lembrasse como princípio e fim de um rito que se prolongou
até que os homens se apercebecem de que não é com o furor da guerra
nem com os enganos da paz, que tudo se esquece ou apaga
mas sim pelas frases que se murmuram e prolongam pelos dias
— de todos os dias, até aos dias das pedras e das estrelas —
em que as evidências se colocam e se decifram tão distintamente
como qualquer documento deixado em papel, madeira ou pedra.

Sabes tia,
o meu poder, aquele que baptizaste e sagraste com a tua mão
não foi tirado do vento nem dos olhos dos homens: veio do ciclo da terra
dessa mesma que me ungiu como equinócio e solstício
de verões e invernos que se prolongaram e juntaram, como as marés
— esse vaivém contínuo de movimentos de horas e dias.
De ti, tia, guardo o encantamento do segundo e do lugar
da tua mão e do teu riso, também dos teus gestos e memórias
para que saibas, já que não precisas de me lembrar, porque o descobri
que a soma da realidade da vida, desta terra que pisámos e guardámos
é a existência: a eterna lembrança feita, na visão da sombra e da luz.

José Manuel Capêlo,


Lisboa, 24 de Outubro de 2002

sábado, 18 de abril de 2009

COBARDIA

pintura de Amadeo Modigliani


Apetece-me gritar o teu nome
para que todos o oiçam
e fugir depois...


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Primavera


Vénus Verticordia, de Dante Gabriel Rossetti

A laranjeira que me ofereceste
é a mais bela árvore do meu jardim.
Enquanto que as outras desaparecem ou vão secando
a tua cresce e expande-se com os seus frutos
a sua seiva nova, a majestade intacta.
Poder dizer-te que começou a Primavera!...
Mas que sentido tem isso tudo
quando a lembrança do tempo é lembrança anterior
a tudo o que se vem afirmando...naturalmente
como naturais são os nossos olhos ou as nossas palavras
o rigor que com que dizemos: amanhã é um dia eterno
e não estou cá para o ver. Disse-o em Paris
quando Paris era a capital cultural do Mundo.
Repeti-o em Londres quando Londres se começava a libertar
da oligarquia da igreja católica e se tornava a Meca dos protestos
dos novos ensinamentos, das novas descobertas marítimas.
Mas para que te digo eu isto tudo
quando sei que a laranjeira que me deste
é a mais bela árvore do meu jardim.

José Manuel Capêlo, publicado no romance de Sabina Ricagni, Heróico Fogo da Primavera, Zéfiro, 2008

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Fogo

Casamento do Céu com o Inferno, de William Blake


Deitem-me à sombra do loureiro
para que descanse nos sonhos eternos
junto à pedra tumular que ganhei aos celtas
gravada que fizeram a sua suástica
de braços redondos, seculares e idênticos
Deixa que me sepultem entre os dois
Para que me lembrem nas cinzas
Em que me quiseram desfeito.
Lembra-me no silêncio
para que o meu sorriso seja o mesmo
sempre, sempre igual ao que te repeti
ao longo de todos estes dias, estes anos
igual à força duradoura de um amor eterno.

José Manuel Capêlo, publicado no romance de Sabina Ricagni, Heróico Fogo da Primavera, Zéfiro, 2008

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Promontório

pintura de Eugène Boudin

Como um sinal do vento, o promontório ergue-se pesado de encontro ao grande mar-oceano. As casas aglomeram-se no amontoado da vila e a grande fé é correr de encontro ao mundo que se esconde para lá da invisível luz.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

terça-feira, 14 de abril de 2009

ENTREGA

Homem com mulher nua, de Pablo Picasso



Regularizo ......molemente ........o passo
finjo que brinco .............com os olhos
destapo ........a tampa ........do universo
e ........entrego-te
de bandeja ........os meus dentes.

Faz deles .......o que quiseres .......menos
colocá-los ........ na tua ........ boca.



José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

domingo, 5 de abril de 2009

Infinito em transparência

pintura de Thomas Gainsborough

para Iris May Walker

Tudo o que existe, pode existir para lá do que os olhos vêem. Nada na terra é igual; nem as mãos que a construem para lá do que é. Um rio enche-nos de infinito sossego. O mar de brusca solidão. O céu de infinita melancolia. Os homens de irremediável pavor. Tudo se mistura com a delicadeza das folhas em estranhíssimo bailado por entre o intrincado dos ramos. É folhagem e o manto da floresta. Mas tu, que és mãe, neste universo sedento e alheio, podes imaginar o que sinto ao olhar o cansaço dos olhos, o peso das mãos, o movimento das folhas que o vento levanta. Tu que és mãe, podes saber que te sinto um imenso rio, um infinito em transparência.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Com a paz nos olhos cheios

Inspiração do poeta, de Nicolas Poussin

Com a paz nos olhos cheios, olho a noite. Que me importa que ela me não olhe, se eu a olho? O grande manto fascina-me e amedronta-me, como situação paralela e singular que não consigo desfazer. Há em mim, perturbação, arrepio encalorado e estranhíssimo, como se uma fagulha de imenso frio, me varresse e me penetrasse com a ligeireza de um estilete. Os olhos enchem-se de grande mistério, do que está para lá da razão normal e concebível, tentativa impossível de descortinar o que se sente, mas que se lhe não pode dar forma. É como um grito saído do peito dum morto. Como um som gritado de dentro da terra por animais mumificados. É estranho e fantástico porque acontece com frequência e não com a raridade que lhe faz a excepção.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Oh! minha Ilha-Verde da paixão

Rochedos em L'Estaque, de Paul Cezanne

Oh! minha Ilha-Verde da paixão

como a nossa Verdade não se esconde, nem se encobre
não tapa o que o sol descobriu para nosso perfeito defeito e conforto.
Este, o grande mistério-verdade que a terra nos proporciona;
porque sabendo-nos, sabe-se!
Sem hipocrisias, sem fingimentos, sem adulterações
na pequena fábrica do nosso aconchego e enlevo.
.
Como razão de muitos dias
segredas-me o teu querer e a tua paixão, à mesa do tempo
por entre o deslumbramento das lágrimas
na amadurecida ausência das perguntas
no transbordante recolhimento das respostas
na impenitência que te faz perfeita
.
- luz única da Luz!
.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

quarta-feira, 1 de abril de 2009

MONTESEGURO

pintura de Jean Fouquet


para o Lud

Tiraram-me de cima as vestes de esmeraldas
enquanto adormecia.
Uma Dalila no tempo
cortou-me os cabelos
e ao som de marchas
fui parar a um cemitério sem ciprestes
enquanto homens juntavam piras
no centro do castelo
para imolarem outros-tantos
que se juntavam nas masmorras.
Perdera-se o vaso
mas ganhara-se o reino dos céus
enquanto a fortaleza permanecia calada
- lá no alto-
transponível por uma só entrada.
Movimentavam-se aí as sombras dos albigenses.


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

terça-feira, 31 de março de 2009

Destino

pintura deFrédéric Bazille
para o Pedro Oom,
.
no seu túmulo de pérolas
e jade e riso cicatrizado
Deixar nos meus olhos a saudade de ficar
e seguir no tempo sem vontade de lá estar.
.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 30 de março de 2009

A paixão de amar

A origem da Via Lactea, de Tintoretto

Deixaste-me, amor, no dizer que sente
esta minha alma castigada e gasta.
Do tempo, que foi longo e foi presente
bastou que a mão se levantasse casta
.
no esplendor deste desejo inocente.
Mas quê, se tudo o que se anima, basta
por si, em imagem diluída e carente
ante o calor que nos consome e arrasta...
.
A tentação do tempo é modo fugidio
como a maresia que vem e vai
na ondulação do espraiado mar.
.
Eu, que tenho em-mim este ardor frio
nunca me lembro se da minha alma sai
o amor ferido ou a paixão de amar.
.
.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas , Aríon, 2000

domingo, 29 de março de 2009

Tempo de regresso

pintura de Eugene Boudin
.
Fica-te o silêncio, as longas noites e o vento
com que sonhaste o regresso do infante adormecido
por entre as vagas que se levantam do mar imenso
ou no seio da floresta, em verde aberto.

Escuta amada, o murmúrio dos ecos
no levantar das folhas de encontro à brisa
ou a visão do sol, que se dilui na claridade da noite
lugar secretíssimo que ninguém descobre
e onde só nós estamos.

Que sei eu dizer-te, que já não saibas ou penses
- mesmo que o meu sorriso se ilumine de sombras -
se só tu decifras a lonjura da terra e o rebordo do mar?

Que sei eu provar-te que não me tivesses dito
senão esta natureza que se criou em-mim
mas que veio de ti, sem que jamais o soubesses?!...


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

sexta-feira, 27 de março de 2009

José

Melancolia de Paul Serusier


José,
deixa que a tua fraqueza encolha os ombros
que os dias se levantem azuis e acabem em chuva
que a tua alma parta sozinha e viaje sempre
que o teu grito seja o eco no próprio vazio.
Dentro de ti, lá bem no fundo, és tu...
Ninguém te conhece. Os olhos são cegos
as mãos imensas, o frio ímpio, o calor tórrido
e todos têm Pátria e todos têm gente
só o frio que o teu olhar sente
é mais quente
......................que todo o sol no mundo.

José,
vai, descobre por ti mesmo cada erva na planície
cada toca de coelho bravo, todo o ninho de ave
toda a fogueira a arder no finito distante
toda a chuva e todo o vento
todo o enigma do poema - que é o teu!
Quem te pode falar as palavras e os risos
o choro, as emoções, os arrependimentos, os gestos
as miragens, os quadros, o poema?
Todos estão fartos, e cansados, e tu, vives
no mundo que te ignora ou te condena
sem mesmo que ele-dele tenha pena
embandeirado em crena
............................um arco desfeiteado.


José,
escreve o teu poema e deixa que o mundo continue
porque nunca houve um quadro acabado
sem que uma mão o pintasse!
Não tenhas remorso desta vida, deste tempo curto
destas horas fartas de rugas, de mãos cheias de vício
onde o sol se põe - como em todos os lugares-
porque a promissora morte, a morte inesperada e decente
não é ingénua, nem solitária, nem consente
que toda a mente
......................a leve para longe de si.


José,
assim, nunca estarás só ou insatisfeito
nesta lenta
........... e triste
................. caminhada
.................... dos dias...


José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

quarta-feira, 25 de março de 2009

LONGOS BRANCOS BRAÇOS


pintura de Pierre Puvis de Chavannes

Olhei na estranha montanha meu amor
que os dias não passavam iguais
que o reflexo do sol tinha a imagem da água
que a pobreza do mundo compreendia a imagem do céu
que ontem fora um dia longo
que hoje fora um dia sem qualquer dia
que amanhã irá ser um dia curto

Olhei na estranha montanha meu amor
os cavalos empinarem-se de riso
os archotes iluminarem a luz
a água vir dar de beber à sede e ao suor
as árvores baixarem-se na sombra seca
os teus longos brancos braços virem-se estreitar
de encontro ao amanhã que não virá

Olhei na estranha montanha meu amor
o meu gesto a cruzar-se no tronco
dum candeeiro sem lâmpada

Era o largo em que circulava o fumo do meu cigarro


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

terça-feira, 24 de março de 2009

LUZES... COPOS


Le buveur, de Paul Cezanne

Deixem-me as luzes adormecidas no eco
as garrafas apanhadas no copo
e... serei eu!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 23 de março de 2009

Como se não bastasse

pintura de Amadeo Modigliani

Como se não bastasse
como se do vento sibilassem nuvens perpétuas
o clamor invadiu o lugar e dei por mim a segredar-te:

Os teus olhos eram azuis e bastavam-me, como o recanto ligeiro
em que abraço os teus ombros, o teu sorriso, a tua boca.
Inunda-me de ti, para que ofereça à terra o lugar perfeito
em que durmo o meu sono (ir)real. Deixa que te traga o silêncio
como me deixas o corpo, em contornos de mágico azul
e louco delírio. Corro-te as pernas com as mãos suadas
com a boca pronta, com o arco a pedir a flor do teu chamamento.
Breve, perfeito. Teu!... E é de ti, oh! amada - ermida do meu silêncio
oráculo do meu olhar, lugar do meu recolhimento, tempo da minha
espera - que ofereço em bênção, o calor do meu corpo
a forma (im)perfeita(?) que me espera e se te oferece.
Que me saibas guardar, como eu a ti, neste final do tempo
lugar da primavera em que crescem todas as estações.

Então, vendo que éramos dois
os deuses calaram e resguardaram-se no seu lugar.

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

domingo, 22 de março de 2009

Quem correu comigo ao longo do rio e se transformou em mar?


pintura de Claude Lorrain

Quem correu comigo ao longo do rio
e se transformou em mar?

Quem comigo veio na longa sombra descendo as escadas
aquelas longas e incomensuráveis escadas
que seguem do abismo até ao abismo e nos transportam
numa lentidão sôfrega, ao mar em frente
ao mar do silêncio e da calma, da aflição e do instinto
sem que nos possamos deter?

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

sábado, 21 de março de 2009

Vieste igual, porque vieste tu

pintura de Georges Seurat


Vieste igual, porque vieste tu
estrela de sílabas onde se contempla a boca
infinita face em que o suor escorre e o sorriso se anima
lugar de encontro onde a luz tem som
sinal vindo do claro-escuro onde tudo se destrinça e se esfria
-porque infinito é o eco da alma! -
malha sagrada onde se tece o Império, o Segredo
o velo temporal da Humana criatura, sílaba enunciada do silêncio.
As horas ficaram, porque eram!
Ruas intemporais de tantos passos dados
seguindo os caminhos habituais
os lugares destinados, as cadeiras à espera.

Sobre nós, corria o prédio de três andares
forma onde se esbatia o nosso ímpeto e o fulgor do suor
realidades de noites que se evadiam na ternura das dunas
ali à frente, com o mar em refúgio de ondas
perdida mancha duma palavra constante e vibrátil.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

sexta-feira, 20 de março de 2009

ADORMECER

Miranda, de John William Waterhouse


Deixem-me a noite carregada de suspiros
adormecer a lua. A manhã virá
e com ela, o tempo imperfeito.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

quinta-feira, 19 de março de 2009

de então...até agora

A leitora da sina de Michelangelo da Caravaggio



Como vai longe a minha infância
mascarada do gelo da serra
onde nasci, entre a vertente da Estrela
e o leito do Tejo, ainda fraco.
O crepitar das fagulhas de inverno
e o suor escorredio do verão
o amor e fala suaves de minha mãe
o chorar rabugento e vivo de minha irmã
o saltitar para a rua empoeirada
e a soante tareia por chegar tarde...
Tudo isto, em tempo de férias...

Mais longe, entre o fronteiro e o alto
do casario lisboeta, entre esse mesmo rio
e as pradarias verdes ribatejanas
onde cresci nos primeiros passos duma juventude
quase despreocupada, entre
a voz suave e o amor de minha mãe
as partidas de minha irmã, a tomar forma
o saltar p'ra praceta arranjada
postada mesmo enfrente
e a soante tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aulas...


Ainda mais longe, entre terra e terra
da vizinha Espanha e do antepassado Marrocos
na plena seiva uivante da minha adolescência
na forma gritante, do quero e posso, do
aqui mando porque me crio e defendo
nas cartas demandantes de aflição material
e da fome no estômago de dias sem comer
no amor e escrita suaves de minha mãe
do eco de desaprovação de minha irmã
do voltar para casa com ar empoeirado
a reprimenda e o sopapo por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aventura...


Quando agora, já mais próximo
entre o mesmo casario e o mesmo rio
com a força dos anos ainda forte
pai duma filha que nasceu chorando
primeira da minha composição-macha
seiva do meu grito breve e fecundo
do eco uivante de todo o meu ser
sem amor e palavras suaves de minha mãe morta
duma irmã que perdi na separação dos bens
com o corpo ainda quente daquela que muito amei
e que nunca mais me daria a reprimenda
o sopapo, a tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de angústia...


Quando ainda mais próximo
entre a partida e o regresso de cada voo
que é o meu trabalho e o meu sustento
senti a força do mundo e amei a mulher
na forma que é, na força que tem
voltei a viver e a sorrir e a chorar!...
Então, sim, então escrevi tudo o que é meu
na forma sincera do todo que me habita.
Escondi também, criando a forma, a expressão
daquilo que não sou e nem serei...
Tudo isto em tempo de meia-felicidade...


Quando e ainda mais próximo
mais uma filha tive nascida na britânica ilha
de carne lusa e carne inglesa
que não chorou nascendo, nem corou gritando...
Quando mais outra veio do mesmo modo
do mesmo corpo, do outro corpo e do mesmo sítio
em dia único de nome de rosa encoberta...
Assim, que reste o tempo de vida
olhando da minha infância a terra serrana
e o coito da grande urbe em movimento
- palco de gente movediça
crepúsculo de deuses e feras
minadas de ideias que saem e não nascem -
assim, que reste o tempo
entre o casario e o rio enquanto viver...
Tudo isto em tempo de rotina...



José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

quarta-feira, 18 de março de 2009

os cafés não podem morrer!

pintura de Jean Béraud


Não, não, os cafés não podem morrer! ...
Não podem ser transformados em bancos
em vazadouros públicos, em memórias desarticuladas
em banquetes de opíparas magias
em casas de curta duração.

Onde estão os meus cafés perdidos
no meio do meu orgulho
da minha fronte de amigo vizinho
criador de palavras e de imagens
de puro amor às ideias?

Não, não, os cafés não podem morrer!...

Não deixem desaparecer as mesas
as bicas, os bagaços, os cinzeiros
a nossa alegria ou tristeza
de falarmos de cadeira para cadeira
em que cada conversa é uma ideia
em que cada ideia é uma geração
em que cada geração é a própria história.

Não, não, os cafés não podem morrer!...

Não pode morrer o que mais sagrado é
para todo aquele que ama a vida
a liberdade, a alegria de se saber
quem é e não é
e que o leva ao mundo maravilhoso
do ar empolado de fumo dos cigarros.

Como poderá morrer um café da avenida
dum parque, duma rua, dum largo
duma praça onde voam pombos, passam pessoas
caminham turistas e correm ladrões
que por serem ligeiros, se espaçam nas massas
das multidões desatentas e confusas?!...

Não, não, os cafés não podem morrer!...

Vivam os cafés abertos, os cafés-concertos
os cafés-botequins, os cafés Martinho (d'Arcada)
os cafés Gelo, os cafés do Chiado
(Brasileira, Benard, Tavares, Grandela)
as ruas a subirem, as ruas a descerem
os olhos falando, as mãos pedindo
a eterna bica e o quente bagaço ...

Vivam quem os inventou!
Nada, nada os poderá transformar
desaparecendo do nosso conforto
do nosso sentir de clepsidras
de graníticos lepidópteros
fantasiantes mancebos surrealistas
fantásticos plagiantes presencistas.

Não, não, os cafés não podem morrer!...

E se o fizerem
acabe-se Lisboa !!!!!!!!!!!!!!!!!

José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

segunda-feira, 16 de março de 2009

há tanta gente... tão pouca gente

cena de Carnaval, de Francisco de Goya

Há tanta gente...
Uma enorme quantidade de gente!
E dessa gente...tão pouca gente.
Que me interessam livros ou poemas
se os deitei fora?
Que me interessam gestos e palavras
se ficaram pendurados à porta?...

Deixem-me bater as palmas
para chamar os sonhos
se é que os sonhos vêm com as palmas.
Deixem-me querer meter
no sorriso do louco
que me apareceu pela janela... a chorar.

Há tanta gente...
E eu, sem vontade de chorar!
Ah! quanta vontade
quanto dizer que sim
chamar os sonhos, sem bater as palmas
meter-me no sorriso do louco
que me apareceu pela janela a chorar.

Há tanta gente...
Uma enorme quantidade de gente!
E dessa gente... tão pouca gente.
Tenho sorrisos atrás de mim
palavras, com sentido, um pouco mais à frente
dedos que se estendem e procuram copos
que o vinho semi enche.

Tenho olhos que me olham, sem me verem
se bem que pensem que o façam.
São olhos que só me olham
e não me sentem!

Ah! quanta vontade
quanto dizer que sim
que venham todos e chamem os sonhos
sem baterem palmas
sem serem livros e gestos
poemas pendurados à porta
e, meter-me no sorriso do homem
que me apareceu, pela frente
a olhar
sem me ver...

José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

sábado, 14 de março de 2009

O desejado

desenho de Hans Holbein the Younger

Nada é mais frágil do que o gesto tornado movimento e as ideias em forma de loucuras. Sempre pensei que nos oceanos como formas de grandes delírios, nos rostos dos homens olhando-os absortos, vagos, tementes, heróicos, em cima das falésias, infalivelmente irresistíveis perante o desconhecido que se encontra para lá do que é minimamente visível. Por isso, na sua loucura fácil - que é forma própria de temeridade - montaram corcéis de madeira e vaguearam-nos, cobrindo as cristas com apagados pedidos e cingidos corações. Entre o escorbuto e o tubarão, a distância era uma vaga mais forte, sinal de deuses escondidos e atentos, risonhos ou sérios, perante a odisseia dos protegidos. Nunca ninguém imaginaria que tal acontecesse e, muito menos, que tal conseguissem. O maior pecado, a maior honra, é o que o faziam com aquela cega fé de quem sabe que alguma coisa se encontrará para lá da distância, infinito horizonte que é curto e vário. O resto, na conquista da terra, é a imagem do encoberto a vacilar constantemente, nas mentes dos que ainda acreditam que o nevoeiro é o único meio de nos fazerem chegar o desejado do Quinto Império.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

sexta-feira, 13 de março de 2009

Há um sonho dentro do teu olhar azul

ghirlandata, de Dante Gabriel Rossetti

Mais do que o horizonte lento e suspenso, há um sonho dentro do teu olhar azul, que sonho múltiplas vezes. Espécie de onda a entrar em qualquer infinito, a varrer-me a lembrança, a possuir-me as mãos, como se todo o azul fosse terra e mar nos teus olhos.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

quinta-feira, 12 de março de 2009

cresce em-mim a cidade

S. Vicente, de Emília Matos e Silva
.
cresce em-mim a cidade, com o sol queimando as arestas
do vento. depois, em uníssono
vagueiam os passos na procura direita da posição
que é aquela que os homens tomam quando se espantam
ao se encontrarem direitos, de se verem em pé
de continuarem vivos.

os homens vivos?!...
os homens com as cabeças levantadas, ainda?!...
os homens com estas personalidades que os tornam
distantes de tudo e de si-mesmos
como sombras resguardadas no canto da primavera?!...

cresce em-mim a cidade deste País tão belo
e de homens que andam sem saberem para onde vão!


José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

quarta-feira, 11 de março de 2009

pelo outro lado da terra

Boreas, de John William Waterhouse

pelas portas azuis que Nokin me abriu, enquanto a fala me chegava pelo outro lado da terra, pude olhar-te no interior dos teus olhos verdes, do teu rosto franco, do teu cabelo negro. as mãos caíam-te suspensas ao longo do corpo e na boca entreaberta havia o manto branco do teu sorriso, alinhado por entre o vale estendido do vermelho dos teus lábios. vieste-me acordar enquanto a manhã durava nos acordes sibilinos da cidade a despertar, com o gaguejar do bocejo nas gargantas de mil almas.
estendeste-me as mãos. acariciaste as minhas entre o delgado suave das tuas e o finíssimo risco amarelo, transparente e próximo veio erguer-se entre o meu sono e o teu acordar.
nada mais havia senão o eco a transportar-se ante o sol que se erguia nessa esplêndida visão que a manhã traz e o momento transporta. ficamos nós, apenas os dois suspensos ante o ruído que se levantava lá fora e o manifesto silêncio que se transportava no nosso quarto. ruídos paralelos duma noite que nos fora leviana. dormiras acordada no meu sono de intensa bebedeira de azul, que Nokin me abriu, enquanto bocejava e me estendia pelo outro lado da terra. tinha partido sem ti e quedara-me imenso no peso das paredes brancamente encobertas pelos quadros que se faziam de figuras suspensas, imensamente grandes enormemente móveis. agora que acordei, vieste-me buscar, transportando-me nessas tuas mãos de suavíssimo movimento.
.
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

terça-feira, 10 de março de 2009

ter herdado tudo, de nada e de ninguém

Vestigios atávicos depois da chuva, de Salvador Dali


ter herdado tudo
de nada e de ninguém.
luzes do meu universo cheio
onde estão as sombras do meu vazio pleno
as linhas do meu horizonte fácil
as rodas da minha máquina perpétua?

fumo sem cessar os cigarros da minha arteroesclerose ímpia
bebo sem me importar o álcool da minha cirrose sem dentes
fornico sem me caber a sida dos meus testículos inchados
grito a plenos pulmões a dose da minha over-dose inicial
rabujo contra os defeitos das minhas crianças apanhadas na mão
mastigo o doce que o empregado da confeitaria me pôs entre os dentes
pergunto ao Esteves, o da Tabacaria, se já mudou a tabuleta dos anos
imagino o poeta a embebedar-se com as sombras da noite
o pintor a esquizofrenizar-se com as luzes das cores
o aviador suspenso do seu balão estático
o motorista da caranguejola sem cheiro e sem buzinas.

enfrento o mar e pergunto pelo tubarão devorador da última perna
da mulher que enfrentou o marido e se cobriu de lágrimas
do último crime da rua do galeto que se repetirá daqui a dez anos
igualmente, pontualmente, como a luz que acendo sobre a minha cabeça
nessa variação que a terra dá e o tremor faz abanar?!...

ter herdado tudo
de nada e de ninguém
como ser único, solitário e temente.

por hoje basta de vultos e de efemérides
que as linhas do meu horizonte facilitam
e as rodas da minha máquina perpetuam.

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

segunda-feira, 9 de março de 2009

Como é louca esta velha terra de bravos, virgens



painel esquerdo da Tentação de Santo Antão, de Hieronymus Bosch


Como é louca esta velha terra de bravos, virgens
putas, cobardes, imbecis, para-génios
duendes, pigmeus, velhos, apátridas, traidores
e ninfas vestidas com paramentos de noviças.
Como é louca esta velha terra tresandando a enxofre
e a histórias de pecados e delírios, riquezas e misérias
despovoadas nas barracas de cobre ou erguidas em amoreiras
de super-luxo. Gritam-se os contrastes, mas que fazemos
para os desfazer? Gritamos o belo, mas que fazemos
para que o não seja, para que a luz não se baste à sombra?

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

domingo, 8 de março de 2009

Infinidade, sempre ...


litografia de M.C.Escher

Há sombras que os dias não apagam
ou risos que as bocas dissimulem
há gestos que são traços vagos
ou fumos que não são fumos de cigarros

Há mar que o mar não esconde
ou árvores cujas sombras não aquecem
há lágrimas nos olhos das imagens
ou imagens nas lágrimas das pessoas

Há rasto na luz dum candeeiro
ou margem num rio a acabar seco
há a infinidade que nunca se aproxima
ou o sempre que não tem nome

Há sombras mar rasto
ou risos árvores margem
há gestos lágrimas infinidade
ou fumos imagens sempre

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danubio, 1983

sábado, 7 de março de 2009

Passo ...

Auto retrato de Anthony van Dyck


Com semblante de mistério
tudo à minha volta gravita
faço cara, passo sério
olho o azul do etéreo
e fujo à voz que me grita.


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sexta-feira, 6 de março de 2009

DEIXA QUE DURE O TEMPO

Danae, de Ticiano


No teu olhar há um sonho
que sonhei múltiplas vezes.
No teu olhar, um regaço
em que me acobardei sem sentido.

Deixa que os dias sigam e os ponteiros se movam.
Deixa que dure o tempo.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983