sábado, 22 de agosto de 2009

O que não merecemos!


pintura de Paris Bordone

Longe, tu e eu,
perdidos nos quilómetros que nos separam
por migalhas de tempo,
no olhar do relógio, que são horas
e que se perdem, a olhar os minutos.

Longe, tu e eu
que não merecemos, porque não esquecemos
que o tempo foi nosso
e que passou sem que déssemos tempo,
ao tempo, para nos vir buscar.

Longe, tu e eu
amantes do belo e de nós
que não nos possuímos há dias
e, que nos são tão longos e brutais
que não os merecemos.

Longe, tu e eu
um do outro!

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Tangencial

Os amantes, de Pablo Picasso
A meus pais

Oh! como a noite é mãe dos eternos vazios
alvéolos cheios de nós .....da nossa língua..... do nosso
desejo a confundir-se com as colunas erguidas
no largo enfrente em que adormecem mendigos
poetas ...pintores... compositores do ocaso e do medonho
flagelos da sociedade que não os atina ....suporta
como uma grande fechadura de chave única.
.
Que se rebentem os cadeados ....as portas senhores
que se rebentem as amarras do condicional
da estrutura que aflige e impede e desmoraliza.
Os grandes sopros vieram do pensamento.
Acabe-se.... rebente-se.... estoire-se com o raio da política
que é o arcanjo de fogo de céus fechados.

Amemo-nos com o que temos e somos.
Vem Encamdala..... vamos destruir todos os sonhos
dormir nos laços da noite .....nas camas de ferro
nos prédios de aço e cimento ....nas escadas de madeira
nos buracos das vigias ....nas anteparas dos falsos camarotes
e esqueçamos as vozes vindas do alto pedestal
rígido.... frio ....cómico ....vicioso ....vociferante
plagiante.... anómalo.... irritante ....beato.... sacrílego.

Que tudo se esqueça ....que tudo passe.... que tudo
contorne as tangentes do planeta e os ângulos
e os vícios e as paredes que nos quiseram impor
e o mal que está por detrás do bem
e o que está pela frente de nós-mesmos
e o que há e o que não existe
e o que poderá haver no verde.... no negro ....no vermelho
no espelho dos nossos olhos de mãos abertas
nas costas de todos os que caminham à nossa frente.

Amemo-nos Encamdala e gritemos que o
céu
somos nós!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ETERNIDADE E SENTIDO

Nascimento da terra, de Emília Matos e Silva

Fizeste com os teus lábios um arco grande
no meu peito. As tuas mãos tornearam-no
com a tua boca a procurar o meu gesto
e este a perder-se na noite almofadada dos lençóis.
O mínimo sussurro era o vento que saía de nós
apanhados no grande bloco de cimento armado
ferindo-nos no mais louco enternecer
com os fluxos da luz a saírem do écran
mais sumido tapado pelas gotas de suor
que em cascatas de vida vinham correr
das testas mais suaves deste mundo.

Ah! não, como não se esplêndido era o fumo
seco a entrar pelos nossos olhos pelos
nossos poros pelo vítreo semi-cerrado do
nosso olhar? ! Eras tu e eu..... únicos
debaixo do mundo que adormecia com uma calma
estonteante com a facilidade de quem
não tem nada para dar nada para amar
nada para beliscar a curiosidade e o sentido
da uma e meia da manhã já quando a noite
parecia ser igual parecia ser idêntica
fria vazia despida de corpos e de amor.
Porém, lá estava a luz vermelha o cabo
do telefone a chamada fácil a gritar pela
noite fora a voz longa e cansada o travar
brusco do carro a caminhada em penumbra correria.
Era o abraço e a noite das mil noites sonhadas
há longos anos de muitos anos como se
a eternidade fosse a palavra mais próxima
a mais projectada igualdade nas duas mãos gémeas.

Grita meu amor, pois o sol entrou com o sono
e a luz veio com a madrugada do outro dia
desse dia em que as nuvens passaram por baixo
do castelo de sonhos que fizemos na noite de
todos os sentidos únicos selvagens e possíveis.
Diz que o fim nunca está próximo nem presente
que não está aqui nem ali em parte alguma
e que os nossos pés são passadas de cavalos brancos
a correrem loucamente na areia das infinitas praias
com as ondas a salpicarem-nos não de espuma
mas de vento esse vento batido entre o horizonte
o nosso olhar a nossa língua e os nossos gestos.

Ah! os nossos corpos como brilham!... Chamam-se
estrelas, sabes? Deixa que pegue a tua mão e a
traga aos meus lábios que a sinta e a veja
que a adormeça no meio dos meus cabelos e a solte
à procura de mim de ti da palavra que escrevemos.
Vem, Encamdala meu barro coberto do meu suor
sem nunca te esqueceres que fizeste com
os teus lábios um arco grande no meu peito!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Fundo indicado diferentemente


pintura de Vilhelm Hammershoi

Acho que não
que nunca esse tempo foi tempo
de cicatrizes
de borboletas na mão
de berlindes nas algibeiras
de ruas que nunca seguiam
nem de passos que tivessem pressa.

O que também acho
é que bem podia ter sido diferente
distinguível como
um outro caminho
um outro gesto
um outro ar
uma outra forma que pudesse
parecer-se diferente.

Só que
(e a realidade é uma)
eu teria gostado de ter as minhas mãos
em sítios impossíveis
em falas impossíveis
em risos impossíveis
em olhos impossíveis
tão impossíveis como o impossível
de que tudo isso acontecesse.

No fundo
nem seria sonho
porque os sonhos não se sonham assim
(eu também não sei como é que os sonhos se sonham ...)
nem sonhar assim seria sonhar
nem sonhar seria o mais indicado
para a condição de fundo.

Mas o que eu posso dizer de certeza
é que com possíveis e impossíveis
com cicatrizes borboletas berlindes
ruas passos caminhos realidades sonhos
a mão segue sempre a mesma linha
e o tracejado risca-se
de encontro ao descomunal penhasco
que se nos posta à entrada.

Na feia noite de Janeiro
entre o dia ido que foi ontem
e o dia a ser que será amanhã
há o dia de estar que é o de hoje
igual ao de muitos séculos
igual ao de muitas semanas
igual ao muito igual que se desconhece
mas sempre primeiro e único
quando os outros se sucederem.

No fundo até pode ser
que a realidade seja
só e apenas
o parecer-se diferente
como sonho menos indicado
para a condição de fundo.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

domingo, 26 de julho de 2009

Quem nos substitui?

pormenor do Nascimento de Vénus, de Sandro Botticelli

As outras noites, dispenso-as.

Mas, vem esta noite viver comigo
vamos desfraldar nas estrelas
as nossas mãos abertas
os nossos beijos secos
os nossos pés ressequidos
por caminhadas sem lei,
que tomamos, porque necessitamos.

Quem nos pode substituir?

Já não procuramos bandeiras
nem cargas de cavalaria
nem citaras à bandoleira
nem ondas para construir nuvens
nem ossos para edificar museus.
Temos nuvens num sol encoberto
- sempre o mau tempo -
tempo no mar, tempo no ar, tempo no campo
onde os chacais correm assustando as galinhas
os cães que procuram dormir acordados
os homens que descansam de barriga vazia...

Mas, vem esta noite viver comigo
que pode ser a última
que pode ser nunca
que também pode ser o princípio do nosso encontro
numa guarita vazia, sem cheiro
onde se batem fantasmas
de baionetas caladas fumegando ácidos.

Oh ! vem, vem meus doces olhos
de jardins-de infâncias-de mãos-hábeis
vem gritar a música que se rodopia cá dentro
que nos é comum e única
que adoramos e beijamos
porque ainda a pudemos ouvir.
E, quando acabarmos a noite
sonharemos então que nos tivemos
de mãos dadas, beijos feitos, pés únicos.

Boa noite meu amor. Vamos sonhar...

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

terça-feira, 21 de julho de 2009

Os outros dias

Paisagem com pássaros amarelos, de Paul Klee


Felizes vão os dias de sossego
na vida calma de horas certas...
Nada em mim é visão de cego
antes, claridades de portas abertas.

Corriam livres esses dias marcados;
eram plenas, essas horas sagradas
buscavam os dedos os lugares fechados
sentiam as mãos as formas onduladas.

Como eram bons esses dias de ontem
que não esquecem no tempo de hoje.
Revivam-se, porque todos se sentem
porque nada se perde, nada foge.

Adeus meus dias passados
meus bons tempos de fortuna;
escrevo agora meus breves fados
p'ros lançar, depois, na laguna!

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Traz-me...

Criação do Sol, Lua e Planetas, Miguel Angelo


Traz-me o mundo
que eu te darei a terra
não o acaso, o ser imundo
que nele anda, prolifera.

Traz-me flores
pétalas mal acesas
lírios debruados d'amores
e não ondas de incertezas.

Traz-me o tudo
o mar sem fim que aqui é
dá-me o teu corpo nudo
para riscar céus e maré.

Traz-me o meu egoísmo
e o reparo de quando me olhas
porque em mim, vês abismo
e não a flor que desfolhas.

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Além do nada só tu!


Danae, de Henri Fantin-Latour

No meio daquele corpo tinha o meu
rasgando-o em beijos de desfolhada;
a hora, não era tempo, não era nada
nem a noite se estendia pelo céu,
nem o sol despontava com a madrugada.

Os lírios lá estavam nos canteiros
bailando na nova luz qu'aparecia;
no meu sono despregado do dia
não via a caminhada dos obreiros
nem o rosto sereno que ao meu lado, dormia.

Oh! quanta luz, quanto desejo
de te ter, mulher!
O teu olhar é um beijo
que o meu corpo só quer.

José Manuel Capelo, Miragem, Editora Montanha, 1978

terça-feira, 7 de julho de 2009

Ser

pintura de Vilhelm Hammershoi


A razão de ser como sou
deve-se ao facto
de não ser como deveria ser!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sábado, 4 de julho de 2009

Rosas nos peitos dos homens

Ansiedade, de Edvard Munch


Ela tinha no rosto as cavas fundas das rosas
e no peito o segredo imenso dos deuses

Passeava-se no espaço perdido de várias dimensões
acompanhando o grito com as mãos..... varrendo
o silêncio pesado de véu de viúva

Da sua boca destaparam-se filhos..... vários
estranhamente doentes estranhamente em silêncio
estranhamente estranhos de si-mesmos
véus encobertos que nunca se destapam
nem descobrem nem fogem nem lutam
a lembrarem as cavas fundas rosas
no peito imenso dos deuses..... estranhamente em silêncio

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sábado, 27 de junho de 2009

No dia em que …

A jangada da Medusa, de Théodore Géricault


Será que o mar cresce nesse dia?
Tudo vai da lua, da sombra
da montanha, do rio, do luar…
Tudo nasce do nada como eu nasci:
Homem! Mas… que tive para dar?

Será que a sombra me vem cobrir?
Desce comigo a calma do morto
o sangue enegrecido, o corpo a mirrar
o silêncio sempre pronto
para me digerir e olvidar.

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Poema do quarto vazio


Bailarina II, de Joan Miro


Quarto vazio, mas não vazio no meu quarto
estou só, sigo desperto, um acordar farto
repulsa de ter nascido, a olhar o nada
nada, que só diz: ninguém de nada.

É mau falarmos sós, dizer nada a ninguém
olhar pausado num espelho nu: de quem?
Visita de tristeza esta, que faço a mim mesmo
sem saber o que dizer, falar solto, grito a esmo.

Pobre capêlo meu, que sustento na cabeça,
professor de orgia, pensamento, peça
e peça a quem pedir, ninguém me ajuda
aplauso do anfitrião de boca muda.

Então noite, minha harpia amiga,
minha brava companheira mendiga,
voz das trevas e horrores e soluços, que dizes?
Triste quadro este, de directrizes.

Ainda ontem quis pintar um quadro...acabado,
um retoque aqui, uma pincelada ao lado,
olho na mira, mira desfeita, cruz axial
e acabei por traçar uma diagonal.

Ficou belo! Digno de um Picasso...
Noite, noite, como me maço!...
Para quem hei-de eu falar
tão triste, tão triste o meu acordar!?...

Julgas-me louco? Não penso, nem calculo,
matemática dum zero ou nulo,
biologia dum homem de quarto
adeus do homem que sou e que parto.
..................................Já não me farto!

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

sábado, 20 de junho de 2009

TU ESTÁS TÃO VELHA !...


Visita, de Jacopo Pontormo


Tu estás velha
tão velha
como os monumentos cicatrizados no meu rosto
velha
como a luz pálida que se apaga no dia
velha
como os dias que morreram sempre iguais
velha
como os quadros que fazíamos em noites por acabar
velha
como as ruas a que nos chegávamos
velha
como todos os abortos que nunca nasceram.
Tu estás velha
tão velha
como no retrato que vi casualmente numa revista
como este tempo que passou e não foi muito
sem te ter e sem te ver...
Velha
tão velha
que já nem te distingo.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Quem me dera poder voar

pintura de Gustave Courbet


Que falem de mim os gestos, amor
que falem de mim os gestos deste entardecer e da noite
longo silêncio, estranha penumbra a mascarar-se
com a manhã que nasce só.
Era mais belo misturar-me com o sorriso
dessa tua alma cheia de alma
flor única que beijo e transporto nos dedos
que me fizeram à tua imagem
como um pequeno deus transformado em homem.
.
E nada se compara ao teu sorriso
a esse teu sorriso como linha de horizonte
fumo duma ave elíptica a passar pelo arredondado da terra
sulcando o veio do mar
abrindo as fontes das serras e os eixos das plantas
e os olhares dos homens e o geométrico dos telhados
e as grandes quilhas suspensas e o mar a não ter fim
e o fim a não ter mar ou o teu sorriso ou o teu destino.
Quem me dera ser pena ou asa ou algo muito parecido
como um grande manto de nuvens ou a plena claridade
duma madrugada a despontar nos meus olhos.
Ah! quem me dera poder voar no meio dos teus olhos
queimar-me nas chamas que irrompem do seio dos teus lábios
fustigar-me com o suor que sai em cascatas de vida
em flores de lilás de entre os teus dedos
e adormecer no sonho infinito no meio do teu abraço.
.
Não pretendia mais. Tudo o resto poderia nascer igual
com salpicos de todas as formas e olhares
com os gestos idênticos de quem estende as mãos
quem oferece o corpo, quem dá a boca.
As manhãs, que viessem floridas, estivais, outonais
primaveris, frígidas. Não me importava. Nada me importava.
Mas que viesses tu, unicamente tu
com o sorriso nas mãos e a alma nos olhos.
Depois, que aparecesse a Natureza e o seu manto.
.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Ode Mística

Golconde, de René Magritte


Aparentemente nada resulta.
O que resulta é não resultarmos de nós-mesmos
os mesmos que resultaram de outros séculos
com a mesma força que resultaram antepassados
linhas directas que deram eixo
às formas que hoje somos.

Paralelamente e com os sinais dos tempos
as formas foram aparecendo
tornando-se seculares
idênticas
sem que o sorriso se alterasse
com a maneira mecânica com que os cigarros
são feitos hoje.
Nada há a dizer quanto ao sexo
que nos deu a mão e outro sexo.
Nada há a dizer quanto à beleza
com que o nosso nascimento foi materializado.
Nada há a dizer quanto à forma
com que as andorinhas criam ninhos
por vésperas da Primavera.

Hoje sou uma badalada rudimentar
das várias horas que se erguem sem destino
um frio achado em mim-próprio
encolhedor de ombros ante a maior miséria que se viu
ante a miséria de encolher os ombros
ante os ombros encolhidos de miséria.
Estou farto de ser idêntico!

Idêntica era a voz que se me baralhava cá dentro
que me emolcionava o sangue
que me fazia vomitar de cobardia
e a que não sabia responder.
Idênticos eram os meus gestos falhos
os meus risos de pobre diabo
a minha identicamente paralela razão de não ser
as buscas contínuas de destino
os amores perdidos no vão duma escada qualquer
ou nos degraus de uma catedral de sinos ocos
observando o sacro prior
humedecendo os virginais fulgores
de uma beatíssima rata de sacristia.

Ironicamente
na casualidade que me confere
sempre passei por mais uma ou outra pessoa
todas iguais
aparentemente
mas com o defeito do senão
de se quererem assemelhar uma às outras.
Sensatamente fugi
e recolhi-me aos bocejos dum pintor de jardim
acarinhando as flores
como se fossem ondas fluviais
pássaros
como se fossem livros a desfolhar
céus
como se fossem marchas fúnebres
ou figuras
como se fossem raios a curvarem-se.


Do alto deste pequeno inferno
deste púlpito sem ornamentos
de frontal escadaria
sempre pude olhar a Deus
este Deus que me existe cá dentro
que sinto
mas que não vejo.
Este Deus que é a minha Fé
razão obscura e temida
como a tela dum filme de horror.
Deste Deus a quem rezo sem rezar
a quem me dirijo sem me dirigir
e a quem peço um menos de súplica.

Sim
este Deus que tudo encobre e tudo destapa
que é a forma do meu sorrir e do meu beijo
que é a luz deste poema
e é a sombra desta ideia.
Este Deus que deu manha aos homens
e celibato aos padres
já que são eles a cumprirem o mandamento
obediente e de castidade.

Sim
eu sempre tive o meu Deus encoberto em mim
sempre O tive com as lágrimas que escorriam verdadeiras
que escorriam e me inundavam as mãos
suadas de as segurar
esse Deus que era o meu segredo
das grandes noites de reflexo
das grandes noites de magia oculta
das grandes noites de sossego e paz.

Mas se vim do homem como ter Deus?
Não seria preferia ter barcos e aviões?
Ou mesmo várias mulheres ou vários homens?
Ou mesmo as ideias umas conta as outras?

Sei lá o que estou para aqui a dizer...
Sei lá porque falo deste mistério
que constantemente me envolve
e me deixa descansado quando nele penso!?...
Sei que quando me deitar deixo de pensar Nele
deixo de me dizer que Ele existe
que Ele não é mais do que o meu Eu a confundir-se
a minha sensação de medo e de culpa
a minha razão porque hoje estou vivo
e amanhã desapareço sem deixar rasto.

Mas se assim for
que o seja. Nada é mais natural
nem mais verdadeiro nem mais evidente.
O mundo
- que não pode ser as mãos de uma criança -
rida como um carnaval de indiferença
mascarado e fugidio
ambíguo e sem conseguir ser irónico.
E por isso as minhas mãos choram suadas
suam de choro
e põem-se em forma imprópria de oração.

Nos cemitérios os restos de meus pais
de meus avós
dos avós de meus avós
da geração antepassada que me ungiu
reclama em voz de sepulcro a minha voz.
E dou-a!
Possivelmente
muito possivelmente será para eles que falo
que enuncio um poema
que desdobro as palavras e firo razões.
Será muito possivelmente que grito
o meu grito de mártir e de diabo
se mártires são os santos
- em que não acredito -
e diabos os vermes que me irão comer.
Mas não.
Para isso há o fogo para que nada resulte
para que tudo desapareça
para que o monte de cinzas seja o lugar
onde os homens escolheram descansar.

No fundo és tu meu ser humano
disfarçado
fundo que nasce e não se completa
olhos de madrugada a cantarem razões
sorrisos de vésperas a anunciarem que as sombras crescem
e se diluem no morno dos nossos sentidos
que passam perdurantes de nós.mesmos
e se embalam no sonho-sexo duma noite por achar.
Assim somos nós
eu e tu
comungantes deste delírio que nos acode
desta presença que não é presença
desta fúria matizada e breve
que são os nossos corpos por se achar.

Mas entre uma noite e a madrugada
há o silêncio desta vez.
Há a maneira dos teus lábios a serem presença
e o encontro das tuas mãos nas minhas.
Por tudo e uma razão
nasceste na manhã em que Deus feriu o mundo
no momento em que o pássaro sentiu o tronco
em que o homem balbuciou o queixume do teu sorriso
em que a forma ganhou a íris do teu sexo.

No fundo
nada mais tinha a dizer.
Era tudo breve
breve
breve como o dissilábico da tua voz
infante
ínfima
única
a reproduzir
que o mundo só acaba nos lençóis.

E o que é o sonho
senão uma noite que se faz?
E o que é a manhã
senão um dia consumado?

Entre ti e mim
agora
há o silêncio que nos busca.
E não será que o buscar
é a forma que achamos própria?
Calemos o silêncio.
Calemos o fulgor que nos arde.
Calemos a própria voz e busquemos a luz
num reflexo de luz frouxa.

Ah! como buscar não perdoa!
E as tuas mãos na tua face
têm o querer duma ave de rapina
o gesto duma acção momentânea
e a busca de te encontrarem comigo
numa cama de pau e esteira.

Fugindo
tenho a nuvem do meu cigarro
diluído
fumegante
atroz sinal de que o tempo se completa
que perdura através do tempo
e que o mesmo tempo
é um sinal que não corresponde.
O tempo é um engano.
O nosso nascimento outro-tanto.
Mas também tenho que dizer que a minha almofada
é tão pesada quanto o meu cansaço
quanto os meus olhos que se abrem pesados
pela manhã e fogem para a água
com medo de secarem.
Por isso desperto e enfrento a luz.
Por isso observo os olhos dos que passam inutilmente
dos que agarram com as mãos as esquinas das ruas
lançam um sorriso e escondem lágrimas.
Pode bem ser que sejam eles os que verdadeiramente amam
os que passam em busca do modo e encontram o tempo perdido
os que por um pedaço de pão pensam ter a barriga cheia
ou que por não terem barriga julgam-se com o corpo fresco.
Pode bem ser que sejam eles os poetas e eu o antipoeta.
Pode bem ser que lhes pertença a rua ou as badaladas das horas.
Pode bem ser que leiam os livros que eu não leio.
Pode bem ser que não seja eu quem eles olham.
No fundo
olhar é distinguir uma aparência que se não distingue
uma imagem que por ser viva também é falsa
um corpo que por lá estar não se percebe.
No fundo talvez lá bem no fundo eu seja quem não julgo ser.
Talvez que eu seja a aparência inaparente
ou uma forma movediça que tem pés e mãos
ou o resultado duma catástrofe de leito.

Certo que a manhã vem brincar com a alma
vem arder onde haja um reflexo
uma mão uma janela um assomo de sombra
um riso infantil duma criança feliz.
Mas será que uma criança é feliz?
Perdoa criança
mas eu não quero chamar-te infeliz
eu não quero que me venhas dizer que a sombra te atingiu
nem que o pássaro caiu do beiral com a minha pedrada.
Não! Eu não quero dizer nada disso
mas somente perguntar-te se és feliz?

Acredito que a felicidade seja algo muito importante
pois mais do que ninguém tu deves merecê-la.
Mas à medida que fores crescendo
encontrarás pelo caminho a outra face do espelho
aquela-mesmo em que olharás e te verás diferente
enganada desiludida baralhada
sem vontade para nunca mais creres em felicidade
que foi feita pelo homem com a mesma argúcia
com que criou outros nomes e outros gestos:
a guerra como o exemplo mais intimo nele.

Mas um dia decidi pintar o mundo.
Estiquei o braço
levantei o dedo polegar
fechei uma das vistas
e tive a impressão de que as silhuetas
não eram tão nítidas quanto o horizonte.
Por isso voltei a repetir os gestos.
Aparentemente a diferença não era nenhuma
a não ser um ligeiro contorno que se adivinhava
numa frente paralela ao risco do horizonte.
Atentei bem com os dois olhos abertos.
Sim, não havia dúvida: era o mar! ...

Mar
explosão branca de carroceis em redor de monstros
sem vizinhança que lhes possam destruir a imagem...
Paralelipipedos de estradas inteiras
de volta ao mundo na razão de vinte e quatro horas...
Sobejos fossilizados que se mantiveram na razão de anos
como imagem directa duma luz preelítica ...
Acordar de muitos sonhos que se distinguiram nos tufões
e se martirizaram nas grandes tragédias de fundo ...
Mar
onde tenho eu o teu espaço?
Essa imensidão sinistra que me embala e me cativa
sabendo eu que és um assassino em potência!?
Forçosamente que terei um destino bem diferente do teu
um acordar com as suas distâncias e paredes
algumas árvores em redor e o silêncio
dos pássaros nas manhãs arejadas e dissipadas nas névoas
que não teimam em ficar...
Mar
de relíquias feitas em dias de longas horas
com o pranto das aves a mergulharem baixo
os penedos a saírem dos promontórios esguios
a minha paciência a não ter limites
e tu cada vez mais distante
mais distante
tão distante que nunca te vi nem senti
nem chorei pela perda das tuas marés.
Mar
hoje tenho um infinito que não desvendo
nem te abro no guardanapo de todos os dias
de todas as noites de todas as mazelas que me fizeste.
Quero-te grande
assim como estás
grande como a grande cordilheira que passa
por debaixo do meu olhar
olhos de luz afogada e mão branca
branca de mim vermelha de tudo
até de sangue que não pára de escorrer.
Mar
não quebres o meu silêncio e não o escondas no teu.
Não brinques com o meu sorriso e não o transportes
na fuga da tua raiva esverdeada.
O que eu quero não o tens.
Amanhece o dia e a luz solta-se de encontro à minha mão
que se estende pela cidade de rua sem almas.
O que eu quero não o encontro em lado nenhum.
Vem com o silêncio e afasta-se com o desconhecido.

Talvez amanhã o sol mude de posição
as mãos se ergam e os gritos estoirem
as ruas se encham e a cidade viva
para que o tempo marque o virar da História.
O resto
virá da Terra em palavras e livros...

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 1 de junho de 2009

HÁ CÉU AZUL NUM TRAÇO VERMELHO

pintura de Vincent Willem van Gogh
para a Maria Guinot



Há estradas que circundam o nosso sorriso
mares que circumnevegam os nossos beijos
montanhas que nos gritam como aves
pedras que rolam como mãos
o grande anfiteatro a parecer pequeno
e onde julgamos não caberem os nossos olhos

Só que a estrada é mais comprida que a nossa fala

As velhas persianas ... ao fecharem-se ... estalam
de secas ... gripam dos gonzos ... rodam nos eixos
com o barulho característico de quem se esforça

As mãos abertas buscam os contrafortes das vozes
as silhuetas das faces em ginástica apressada
mímica transfugada para as paredes do acaso
onde se escondem as sobrancelhas cerradas
dos palhaços tristes

Mas vêm as pancadas na madeira aberta

Molham-se os lábios com a saliva da Hora
o cabelo com o barulho do ar
a nossa alma com o nosso medo

Mas do céu azul há sempre um traço vermelho
a gritar o nosso desprezo ... a nossa fúria ... a nossa ânsia
os mares da nossa fé ... de inocentes martirizados
canetas de água-tinta ... a comporem epopeias
enfrente do rochedo enorme ... informe ... sedento

Mas é do meio das nossas mãos que brota o suor

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Os teus trinta anos


pintura de Gustav Klimt


São trinta anos!
É um pedaço de tempo feito
de modo preenchido,
um sorriso, um olhar, jeito
do dia passado-ido...

É a busca na luta, assim
o medo de ser e não ser,
diálogo que não tem fim
daqui estar e doer.

É pedir um pouco mais, sem razão
entre dois acenos de boca,
mascarar com uma só mão
o que na outra está oca.

Ruíram impérios, ideias
mil sinos de sons ufanos.
De noites de luas cheias
ainda só vão trinta anos.

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

sábado, 23 de maio de 2009

Quiseram-me

pintura de Edmund Dulac

Quiseram-me rei, nasci menino
sinal errado daquilo que sou
acento firme daquilo que fui
pedaço de corpo do que serei.

Quiseram-me mago, nasci pedinte
criatura de vida, de mãos de semente
olhar vivo de brilho infeliz
praga viva em existência desfeita.

Quiseram crente, nasci agnóstico
pedido impossível para quem não vê
lugar no futuro para quem crê
incógnita de que existo e de que fico.

Quiseram-me tudo e, afinal sou nada
imagem para esquecer, nome para apagar
tempo perdido sem nada ficar
excepto ossos, para a árvore ramada!...

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

quarta-feira, 20 de maio de 2009

PELA PROCISSÃO

pormenor da descida da cruz, de Fra Angelico


A horrível miséria das chagas
a passar com o andor do santo
pelas horas premiadas.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sábado, 16 de maio de 2009

As longas horas de encontro

Jovem Cicero lendo, de Vincenzo Foppa

Longamente... a noite
a fácil luz de todos os delírios
de todos estes medos que guardo desde a infância
essa, que só me soube a trevas e a embuste
a memórias fáceis e desatirculadas
a longas horas de encontro comigo, a sós comigo
com os meus vultos e os meus delírios
a minha imaginação fácil e desempoeirada
acontecida em longas horas de sono vivo e feliz.

Quem me soube ver quando me procurava
nas imensas manhãs de um qualquer dia sem dia?
Quem me soube entender quando me perguntava
de onde - ou de que lado - vinha a luz
quando se distinguia a sombra incontrolável das trevas?
Quem me soube responder a esse passado
que, de tão recente
tinha a visão da minha orfandade
vista por tantos
e pouco, ou nada, entendida por poucos mais ?

Foi brevemente longo o meu desespero
a minha ânsia descontrolada
o lado outro, que não era meu, porque o não tinha
e não sabia a quem pedir!?...

Quem fez de mim o que sou hoje?
Quem se lembrou de me lembrar?


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

quarta-feira, 13 de maio de 2009

À noite, na cidade


Spike, de Emília Matos e Silva

para o Putchi


A cidade dorme de preguiça. Plena, convencida, farta. Na rua passeiam-se os donos com os seus cães de estimação, enfeite mais para se amar uma casa, do que para mostrar ao vizinho o leão que se tem. Um deles, ladra a bom ladrar. É pequeno, negro, absolutamente vivo, orelhas esticadas sobre o focinho aligeirado, olhar inteligente, gesto rápido. Tem uma mancha branca, lindíssima, à flor do peito. O dono passeia-se com ele na mesma lentidão com que a cidade se espreguiça. Olho-os, e a minha paciência passa à frente com a faiscante certeza de quem tem tempo... e aguarda.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Mágico fogo da inocência

Desenho de mãos, de Leonardo da Vinci


Deixei o sonho
-essa língua de fogo que me ata ao ser
ou ao instante que pesamos-
quando acordo com o sorriso
do mágico da cena e privilégio.

E que sonhos deixo passar
por entre os dedos da fortuna
- invios como o éter ou como o arvoredo
no seu imenso lago de aves e vinganças-
sem que me sinta inocente... e confuso?

Não procuro os sonhos
Os sonhos... sonham-me!

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon. 2000

sexta-feira, 8 de maio de 2009

ESTA MANHÃ QUE NÃO CONSIGO



Alegoria com Vénus e o Tempo, de Giovanni Battista Tiepolo


para o José do Carmo Francisco

Era longa a noite do poema
tão longa como o sibilino eco vagueando
na cálice espuma duma onda vaga.

E eu perdi-me a olhar os dedos
a frágil brancura que sempre me confundiu
ao procurar no infinito
a ponta de todo este mistério

Lá estava a manhã com o resto das horas
o ponteiro pontual que me fere a cabeça
me encosta o sono ao acordar repentino
se enfeita de muitas, múltiplas alegrias
e regresso ao acto consentido e bento.

Só que eu não espero, não posso esperar
não posso aguardar que os dias se repitam
e consigo, me voltem a trazer o mesmo
na secura das lágrimas que não participei.

Estou farto e seco.
Comigo se alonga a noite que diviso
as estrelas penduradas e o rasto do cometa.

Fica só a longa noite do poema
tão longa como o sibilino eco vagueando
pela memória dos homens que ficaram...

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

quinta-feira, 7 de maio de 2009

UMA GOTA DE ÁGUA


Chuva, de Gustave Caillebotte


De ti sempre esperei a serena chuva
aquela frágil gota de água
que me tocava a ponta do nariz.
Talvez que viesse com a luz
ou com a ponta do cigarro
ou com a tua agonia aparente.
Mas de ti sempre esperei
essa pequena gota de água.

Normalmente pensava
que ao meu redor existiam as tuas fantasias
ou pelo menos
entregavas nas minhas mãos
as tuas intenções.
A gota de água era um símbolo
um movimento novo
que juntavas ao teu sorriso
e que fazias acompanhar
do mais belo gesto.

Normalmente era verdade.
Só que no meio do entusiasmo
me vieste com loucas manhãs
com gritos de menina mimada
com falas de falsa donzela
com arrepios próprios do Inverno.
Aí, pedi que me desses de novo
a chuva serena
a frágil gota de água
para que me pudesse saciar.
Então, estendeste as mãos
e pediste que eu me fosse!...


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

terça-feira, 5 de maio de 2009

PONTO DIFERENCIAL

pintura de Paul Klee

para a Isabel Laginhas


Dói muito mais a dor no nosso corpo
do que dói na dor o corpo nosso!

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 4 de maio de 2009

De ti, oh! amada


Vénus adormecida, de Giorgione


De ti, oh! amada,
do murmúrio sonoro da noite, recebi do teu corpo
a imensa paz do teu busto, o prazer determinado do teu olhar
o nervosismo mágico das tuas mãos sôfregas
as palavras dos outros, como ecos de erros aos nossos ouvidos.
Se não havia silêncio, havia, pelo menos
o som da minha luz nos teus olhos.
Nervoso, nervoso de mais, isso bastou a que ali não ficasse.
Despedi-me um tanto apressado
como quem não sabe o que fazer ou por onde começar
quando tudo se precipita ou antecipa à nossa frente.
Apeteceu-me pegar-te pelo braço
e arrancar-te do meio daquele espaço sem realidade
sem qualquer valor ou forma, sem sentido nenhum.
Faria algum entendimento estarmos ali, nós que ali não estávamos?
Porém, e na verdade, que direito me assistia, que direito tinha
se ouvi de-mim (ou no poema da tua voz!)
que a litania era estar sozinho
estar com a minha correria desenfreada e vaga!?...


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

sábado, 2 de maio de 2009

cabeça de homem, de Fra Angelico

Amore mio, com o se te pudesse explicar, em breves palavras
toda a incoerência, toda esta sombra de princípios, que existe
na consciência dos homens, na mente da Igreja, nas falácias dos
conselheiros nas mãos das grandes fortunas de Itália,
nas mãos do mundo?!...
E eu aqui, aqui preso nas masmorras dum cardeal tirano
que empreendeu perseguir-me pelas estradas e cidades da Europa
e prender-me para seu gozo e prazer, como se fosse um assassino
- antes o fosse! – ter-me à sua disposição para que renegasse
a minha fé e a minha consciência, os bens mais preciosos de que
disponho
faço uso e sigo, para dar-me e aos que me escutam, - esta infinidade!-
consciente de que poderei nela errar, mas que sinto estar certo
quando a explico, a uso, a faço entender e reconhecer
nesse Deus – que me espera -, como unidade infinita
na conciliação dos contrários, como causa imanente do Mundo.

Amore mio, aqui te segredo a minha paixão, a minha última palavra
o sentido da vida e da eternidade, essa conjunção que me torna
presente
e conquistador do eterno, na mente dos homens, na consciência
dos povos
na imensidão do futuro, que sempre foi o que procurei
nesta minha vida, errante, brusca, dilecta, mas apaixonada:
por ti, por mim, por esse Deus – a Sua causa e Destino – omnipotente!

Guarda-me e segreda-me, como se te lembrasses dum velho
que te segredou as últimas palavras e os últimos pensamentos.
Guarda-me, como eu te levarei, no último grito, entre o fogo da
fogueira que me consumirá o corpo, o sangue, o cérebro
mas nunca as ideias que deixei e consegui fazer vingar.

Guarda-me e segreda-me… o teu louvor e a tua lágrima.
.
José Manuel Capêlo, no romance sobre Giordano Bruno « Heróico Fogo da Primavera » de Sabina Ricagni, Zéfiro, 2008

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Ali estávamos nós, no rubro em que os tendões se desgastavam

A escola do amor, de Correggio

Ali estávamos nós, no rubro em que os tendões se desgastavam
em que as surpresas se animavam no canto da pele
em que a luz se limitava no pequeno sinal que saía da aparelhagem
a enunciar distância. Era nas nossas cinturas
que se armadilhavam as mãos, enquanto dormíamos.
Era nos nossos peitos que se surpreendiam as bocas
enquanto respirávamos. Era nos nossos sexos que estremecia a onda
que nos empurrava um contra o outro
aninhados em brilho de gestos, enquanto vivíamos. Sorrindo.
E enquanto tudo isto se enunciava, era a nossa língua
a carne onde habitavam as vésperas das folhagens.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O velho moinho transformado

Cavalos de Néptuno, de Walter Crane

O velho moinho transformado
acolhia-nos com a pedra mó no lugar do sagrado, bem fixa
como a estrela polar que nos encaminhava as mãos.
O corpo. O instinto.
Deixamos para trás o mar
na longa onda que nos recebeu em pleno
como se o voo da gaivota, que entretanto passara
anunciasse o clamor dos deuses na era plena...

Então, eles escreveram para que se anunciasse:

Aqui,
junto ao grande mar-oceano
em que navegámos as nossas ânsias, medos, desejos
calados ficámos, falando somente, e em uníssono, no oiço-te e ouço-me
em que contemplámos os teus olhos ligeiros, brilhantes, únicos.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

terça-feira, 28 de abril de 2009

Da louca paixão do corpo

Amor sagrado e profano, de Ticiano

Mais do que a verdade dos sentidos
é o que corre pela mão do vento que nos cerca
inundando os vales que as mãos procuram
e os nossos desejos ferem de ânsia.

Impossível dizer que a indiferença está em nós
quando um olhar surge. Possível e certo
é marcarmos o segundo com a presença do corpo
invadir o grande vale com as mãos abertas

desfolhar as margens com o orgulho do menir
sem que nos lembremos que a terra
é o lugar em que descansamos o nosso sentido.

Mais do que a verdade da vida
é a lonjura do corpo em que nos afogamos
e bebemos o delírio, o instinto e a indiferença.

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

domingo, 26 de abril de 2009

A CINTURA DAS LÁGRIMAS

desenho de Parmigianino
para o Henrique Madeira


Ainda
a cintura das lágrimas
nos olhos escondidos ..... mas brancos
pelas luzes sombreadas
que arrefecem a alma.....no frio da praça.
.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O RASTO DO POEMA

Manhã, de Camille Pissarro

Viera com a madrugada o rasto do poema
o sentido das luzes a apagarem-se dos candeeiros
a grande mancha da cidade a aparecer visível
e a minha grande alegria ao sentir-me vivo.
.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Janela

pintura de Jan Vermeer
para a Ema Brandão


Gostava de ter tido um olhar.
Porventura um sorriso
mesmo que não fosse
(e só)
para agradar ao espelho.


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Qualquer realidade é como uma andorinha à procura do beiral da Primavera

pintura de Albrecht Dürer


Nada (mais) resta a não ser o tempo fazedor de passagens fáceis, jardins públicos, mãos abertas, olhos nos olhos dos que comem pão amassado pela dureza das árvores, pelo contorno dos lábios, pela facilidade da voz. E há o sol, imenso roteiro de peregrinações, ruas paralelas, alianças nos dedos, tapetes de relva verde e o ocaso dos bancos dispostos ao acaso. E o mar de ondas vertigens, pássaros salgados, gestos de espuma e rosto de rochas esfíngicas, esculturas marsupiais de ventre para fora a lembrarem sombras apanhadas ao vento. E há ainda, o rosto que se espanta de encontro ao soluço do dia, de encontro à mentira da boca, de encontro ao silêncio do gesto que encobre a alma. Nada resta, a não ser, sonhos! Há passagens no céu que o demonstram, frutos na terra que os habitam, palavras que os espreitam sem lhes tocar, como se toda e qualquer realidade conseguisse apanhar um sonho na palma da esperança, vã. Qualquer realidade é uma andorinha à procura do beiral da primavera, quando as folhas se erguem ao vento, ou quando, o mar se recolhe mansamente à queda areia. No sítio da primavera, há sempre uma árvore levantada no meio da impossível vegetação. As rochas suam com refluxos de espuma e o grito que se ouve, é menos sonoro porque se não distingue na folhagem do vento. Nem no entercalado do casario. Juntam-se os (i)mortais, enquanto homens: nados, voltados de barriga para o lado, completamente cheios, no grão da publicitária esperança.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

domingo, 19 de abril de 2009

Lugares de todos os lugares

baptismo de Cristo, de Pietro Perugino
.
a minha tia-madrinha Isabel Capêlo Gonçalves


Sabes tia,
tudo o que contigo aprendi nessa infância aberta
entre a fugidia maravilha dos dias jovens e o anguloso destino
dos dias preparados por sábias mãos, o encontrei nessa terra albicastra
que me foi lugar de nascimento, sedução e lembrança.
Contigo vivi o cheiro do azeite das ladainhas a iluminarem santinhos
postados em nichos e pequenos altares, aqueles a quem expressavas a tua fé
romana, outrotanto pagã, entre deuses e demónios que te perseguiam e enlutavam
principalmente quando acendias ou incensavas cadinhos de intenções
naquelas noites em que a substância dos dias e o enredo dos homens
faziam oráculos todos esses que se comemoravam para lá de todas as datas.

Sabes tia,
também jamais esqueci que essa linha recta invisível, mas seguríssima
que enfileira Monsanto com Idanha-a-Velha passando por S. Pedro de Vir-a-Corça
por essa ermida escondida entre penhas e silêncios, feita de mistérios e segredos
se tornasse um dos lugares sagrados que as pedras guardam e a terra cala
ou se lembrasse como princípio e fim de um rito que se prolongou
até que os homens se apercebecem de que não é com o furor da guerra
nem com os enganos da paz, que tudo se esquece ou apaga
mas sim pelas frases que se murmuram e prolongam pelos dias
— de todos os dias, até aos dias das pedras e das estrelas —
em que as evidências se colocam e se decifram tão distintamente
como qualquer documento deixado em papel, madeira ou pedra.

Sabes tia,
o meu poder, aquele que baptizaste e sagraste com a tua mão
não foi tirado do vento nem dos olhos dos homens: veio do ciclo da terra
dessa mesma que me ungiu como equinócio e solstício
de verões e invernos que se prolongaram e juntaram, como as marés
— esse vaivém contínuo de movimentos de horas e dias.
De ti, tia, guardo o encantamento do segundo e do lugar
da tua mão e do teu riso, também dos teus gestos e memórias
para que saibas, já que não precisas de me lembrar, porque o descobri
que a soma da realidade da vida, desta terra que pisámos e guardámos
é a existência: a eterna lembrança feita, na visão da sombra e da luz.

José Manuel Capêlo,


Lisboa, 24 de Outubro de 2002

sábado, 18 de abril de 2009

COBARDIA

pintura de Amadeo Modigliani


Apetece-me gritar o teu nome
para que todos o oiçam
e fugir depois...


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Primavera


Vénus Verticordia, de Dante Gabriel Rossetti

A laranjeira que me ofereceste
é a mais bela árvore do meu jardim.
Enquanto que as outras desaparecem ou vão secando
a tua cresce e expande-se com os seus frutos
a sua seiva nova, a majestade intacta.
Poder dizer-te que começou a Primavera!...
Mas que sentido tem isso tudo
quando a lembrança do tempo é lembrança anterior
a tudo o que se vem afirmando...naturalmente
como naturais são os nossos olhos ou as nossas palavras
o rigor que com que dizemos: amanhã é um dia eterno
e não estou cá para o ver. Disse-o em Paris
quando Paris era a capital cultural do Mundo.
Repeti-o em Londres quando Londres se começava a libertar
da oligarquia da igreja católica e se tornava a Meca dos protestos
dos novos ensinamentos, das novas descobertas marítimas.
Mas para que te digo eu isto tudo
quando sei que a laranjeira que me deste
é a mais bela árvore do meu jardim.

José Manuel Capêlo, publicado no romance de Sabina Ricagni, Heróico Fogo da Primavera, Zéfiro, 2008

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Fogo

Casamento do Céu com o Inferno, de William Blake


Deitem-me à sombra do loureiro
para que descanse nos sonhos eternos
junto à pedra tumular que ganhei aos celtas
gravada que fizeram a sua suástica
de braços redondos, seculares e idênticos
Deixa que me sepultem entre os dois
Para que me lembrem nas cinzas
Em que me quiseram desfeito.
Lembra-me no silêncio
para que o meu sorriso seja o mesmo
sempre, sempre igual ao que te repeti
ao longo de todos estes dias, estes anos
igual à força duradoura de um amor eterno.

José Manuel Capêlo, publicado no romance de Sabina Ricagni, Heróico Fogo da Primavera, Zéfiro, 2008

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Promontório

pintura de Eugène Boudin

Como um sinal do vento, o promontório ergue-se pesado de encontro ao grande mar-oceano. As casas aglomeram-se no amontoado da vila e a grande fé é correr de encontro ao mundo que se esconde para lá da invisível luz.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

terça-feira, 14 de abril de 2009

ENTREGA

Homem com mulher nua, de Pablo Picasso



Regularizo ......molemente ........o passo
finjo que brinco .............com os olhos
destapo ........a tampa ........do universo
e ........entrego-te
de bandeja ........os meus dentes.

Faz deles .......o que quiseres .......menos
colocá-los ........ na tua ........ boca.



José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

domingo, 5 de abril de 2009

Infinito em transparência

pintura de Thomas Gainsborough

para Iris May Walker

Tudo o que existe, pode existir para lá do que os olhos vêem. Nada na terra é igual; nem as mãos que a construem para lá do que é. Um rio enche-nos de infinito sossego. O mar de brusca solidão. O céu de infinita melancolia. Os homens de irremediável pavor. Tudo se mistura com a delicadeza das folhas em estranhíssimo bailado por entre o intrincado dos ramos. É folhagem e o manto da floresta. Mas tu, que és mãe, neste universo sedento e alheio, podes imaginar o que sinto ao olhar o cansaço dos olhos, o peso das mãos, o movimento das folhas que o vento levanta. Tu que és mãe, podes saber que te sinto um imenso rio, um infinito em transparência.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Com a paz nos olhos cheios

Inspiração do poeta, de Nicolas Poussin

Com a paz nos olhos cheios, olho a noite. Que me importa que ela me não olhe, se eu a olho? O grande manto fascina-me e amedronta-me, como situação paralela e singular que não consigo desfazer. Há em mim, perturbação, arrepio encalorado e estranhíssimo, como se uma fagulha de imenso frio, me varresse e me penetrasse com a ligeireza de um estilete. Os olhos enchem-se de grande mistério, do que está para lá da razão normal e concebível, tentativa impossível de descortinar o que se sente, mas que se lhe não pode dar forma. É como um grito saído do peito dum morto. Como um som gritado de dentro da terra por animais mumificados. É estranho e fantástico porque acontece com frequência e não com a raridade que lhe faz a excepção.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Oh! minha Ilha-Verde da paixão

Rochedos em L'Estaque, de Paul Cezanne

Oh! minha Ilha-Verde da paixão

como a nossa Verdade não se esconde, nem se encobre
não tapa o que o sol descobriu para nosso perfeito defeito e conforto.
Este, o grande mistério-verdade que a terra nos proporciona;
porque sabendo-nos, sabe-se!
Sem hipocrisias, sem fingimentos, sem adulterações
na pequena fábrica do nosso aconchego e enlevo.
.
Como razão de muitos dias
segredas-me o teu querer e a tua paixão, à mesa do tempo
por entre o deslumbramento das lágrimas
na amadurecida ausência das perguntas
no transbordante recolhimento das respostas
na impenitência que te faz perfeita
.
- luz única da Luz!
.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

quarta-feira, 1 de abril de 2009

MONTESEGURO

pintura de Jean Fouquet


para o Lud

Tiraram-me de cima as vestes de esmeraldas
enquanto adormecia.
Uma Dalila no tempo
cortou-me os cabelos
e ao som de marchas
fui parar a um cemitério sem ciprestes
enquanto homens juntavam piras
no centro do castelo
para imolarem outros-tantos
que se juntavam nas masmorras.
Perdera-se o vaso
mas ganhara-se o reino dos céus
enquanto a fortaleza permanecia calada
- lá no alto-
transponível por uma só entrada.
Movimentavam-se aí as sombras dos albigenses.


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

terça-feira, 31 de março de 2009

Destino

pintura deFrédéric Bazille
para o Pedro Oom,
.
no seu túmulo de pérolas
e jade e riso cicatrizado
Deixar nos meus olhos a saudade de ficar
e seguir no tempo sem vontade de lá estar.
.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 30 de março de 2009

A paixão de amar

A origem da Via Lactea, de Tintoretto

Deixaste-me, amor, no dizer que sente
esta minha alma castigada e gasta.
Do tempo, que foi longo e foi presente
bastou que a mão se levantasse casta
.
no esplendor deste desejo inocente.
Mas quê, se tudo o que se anima, basta
por si, em imagem diluída e carente
ante o calor que nos consome e arrasta...
.
A tentação do tempo é modo fugidio
como a maresia que vem e vai
na ondulação do espraiado mar.
.
Eu, que tenho em-mim este ardor frio
nunca me lembro se da minha alma sai
o amor ferido ou a paixão de amar.
.
.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas , Aríon, 2000

domingo, 29 de março de 2009

Tempo de regresso

pintura de Eugene Boudin
.
Fica-te o silêncio, as longas noites e o vento
com que sonhaste o regresso do infante adormecido
por entre as vagas que se levantam do mar imenso
ou no seio da floresta, em verde aberto.

Escuta amada, o murmúrio dos ecos
no levantar das folhas de encontro à brisa
ou a visão do sol, que se dilui na claridade da noite
lugar secretíssimo que ninguém descobre
e onde só nós estamos.

Que sei eu dizer-te, que já não saibas ou penses
- mesmo que o meu sorriso se ilumine de sombras -
se só tu decifras a lonjura da terra e o rebordo do mar?

Que sei eu provar-te que não me tivesses dito
senão esta natureza que se criou em-mim
mas que veio de ti, sem que jamais o soubesses?!...


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

sexta-feira, 27 de março de 2009

José

Melancolia de Paul Serusier


José,
deixa que a tua fraqueza encolha os ombros
que os dias se levantem azuis e acabem em chuva
que a tua alma parta sozinha e viaje sempre
que o teu grito seja o eco no próprio vazio.
Dentro de ti, lá bem no fundo, és tu...
Ninguém te conhece. Os olhos são cegos
as mãos imensas, o frio ímpio, o calor tórrido
e todos têm Pátria e todos têm gente
só o frio que o teu olhar sente
é mais quente
......................que todo o sol no mundo.

José,
vai, descobre por ti mesmo cada erva na planície
cada toca de coelho bravo, todo o ninho de ave
toda a fogueira a arder no finito distante
toda a chuva e todo o vento
todo o enigma do poema - que é o teu!
Quem te pode falar as palavras e os risos
o choro, as emoções, os arrependimentos, os gestos
as miragens, os quadros, o poema?
Todos estão fartos, e cansados, e tu, vives
no mundo que te ignora ou te condena
sem mesmo que ele-dele tenha pena
embandeirado em crena
............................um arco desfeiteado.


José,
escreve o teu poema e deixa que o mundo continue
porque nunca houve um quadro acabado
sem que uma mão o pintasse!
Não tenhas remorso desta vida, deste tempo curto
destas horas fartas de rugas, de mãos cheias de vício
onde o sol se põe - como em todos os lugares-
porque a promissora morte, a morte inesperada e decente
não é ingénua, nem solitária, nem consente
que toda a mente
......................a leve para longe de si.


José,
assim, nunca estarás só ou insatisfeito
nesta lenta
........... e triste
................. caminhada
.................... dos dias...


José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

quarta-feira, 25 de março de 2009

LONGOS BRANCOS BRAÇOS


pintura de Pierre Puvis de Chavannes

Olhei na estranha montanha meu amor
que os dias não passavam iguais
que o reflexo do sol tinha a imagem da água
que a pobreza do mundo compreendia a imagem do céu
que ontem fora um dia longo
que hoje fora um dia sem qualquer dia
que amanhã irá ser um dia curto

Olhei na estranha montanha meu amor
os cavalos empinarem-se de riso
os archotes iluminarem a luz
a água vir dar de beber à sede e ao suor
as árvores baixarem-se na sombra seca
os teus longos brancos braços virem-se estreitar
de encontro ao amanhã que não virá

Olhei na estranha montanha meu amor
o meu gesto a cruzar-se no tronco
dum candeeiro sem lâmpada

Era o largo em que circulava o fumo do meu cigarro


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

terça-feira, 24 de março de 2009

LUZES... COPOS


Le buveur, de Paul Cezanne

Deixem-me as luzes adormecidas no eco
as garrafas apanhadas no copo
e... serei eu!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983