terça-feira, 20 de outubro de 2009

CONTIGO II

pintura de Paul Klee

inventar o teu nome pelas paredes
desta rua que me caminha todo o dia
e que não sei se é rua se são sedes
no ébrio de tão frágil alegria

inventar o teu nome quando esqueço
que a rua é toda gente e movimento!...
mas pedir-me, não to peço
já que a honra sustém o sentimento

inventar o teu nome até depois
que a própria terra esfrie e arrefeça
este sentir de um de nós dois
que a rua calou, sem que o pareça

José Manuel Capêlo, Enche-se de eco a cidade, Átrio, 1989.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Contigo I

Pintura de Carlo Criveli


contigo sonho o não sonhar-te
o não te ver só a distância
mais próxima que todo o próximo
a imaginar-te
presa à minha mão de medo e ânsia

contigo sonho o não esquecer-te
o seres sempre a mesma voz
imagem que o fio reproduz
a esbater-se
dentro de ti talvez de nós

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio 1989

domingo, 11 de outubro de 2009

Canto Maior

pintura de George Braque

para o Fernando Tavares Rodrigues
.
deixa abrir a dor que não magoa
deixa-a abrir, é só semente.
o canto é maior e nunca mente
mais ainda, se o canto for Lisboa.
.
José Manuel Capêlo, Enche-se de eco a cidade, Átrio, 1989.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

MOSAICO VIVO

pintura de Victor Vasarely


para o Luís Osório


Na noite incógnita os rastos do poema…
As luzes a irem e a virem
por entre o turbilhão do cansaço…
O gosto das madrugadas passageiras encontrando forma
no ninho de antenas verdes, em risos de molduras geométricas
pagamentos diários - sem salários fixos –
enquanto o turbilhão do proxeneta procura na almofada
o licor acre duma noite de insónia compensadora.

Como se não bastasse emoldura-se o cigarro
cospe-se para o meio da rua
onde todos passam e ninguém pára
dado que parar
seria que cuspissem em nós-mesmos
os próprios dos próximos.

Em feliz coincidência
(a consciência em espirais e gritos
umas vezes roucos outras alegres)
a caneta que escreve em círculos
ou semi-círculos de enfeite
obra rara em deuses adormecidos nas estantes…
Pegando num deles
pode-se abraçá-lo ou rasgá-lo
com o mesmo destemor com que se o lê…
Poderá importar pouco
dado que o pouco poderá ser o muito
que nada temos. E tudo isso é mau
como o bom seria olharmo-nos de vez
arranjarmos uma lua de mil aspectos
crescermos no azul e espraiarmo-nos no fundo verde…

Poderíamos eventualmente deixar de ir
à confeitaria para comprar bolos
seguir um caminho paralelo
que não nos levasse a qualquer lado
- como à imensidão dum prado
onde não pastassem cabras -
ou a um rio onde não houvessem pedras
formas esguias da nossa perplexidade incomensuravelmente diminuta.

Afirmaríamos por outro lado que as mãos
eram arredondadas, próprias de desenhos rítmicos
os cigarros fracos, próprios de desenhos concêntricos
as vozes arrefecidas, próprias de desenhos iluminados pela noite
os copos cheios, próprios da boémia desaprendida…

Como se nada ficasse
gastaríamos as mãos nas paredes
os cigarros nas bicicleta as vozes nos bordéis
os copos no fígado
- onde tudo seria guardado, como que num cofre
sem chave, sem segredo, sem guarda –
apenas lembrando que lá
o tínhamos posto…

Ainda assim, a barbacã seguiria os contornos
tal como o rio, as margens
a cidade, o tempo
o meu olhar, a distância
a face da menina, o brinquedo por andar
a bicicleta, o fumo das chaminés
a tua presença, o movimento das tuas ancas
as aves, as antenas verdes
as nuvens, um mar fluvial
os remos, as braçadeiras do poder!

Qualquer função seria a minha a tua
como um interruptor de luz
enche a casa de gemidos
ovais empastados solenes
composição duma partitura inacabada
ópera de falsetes e acrobatas
circo de marianos e margaridas…

Como se tudo fosse um mundo único
bastava-nos levantar as mãos
para pedirmos perdão pela nossa inocência
escalavrada e grosseira
painel de tinta arremessada
ombro encolhido por murro directo
boca aberta gritando surdez
cigarro na mão
a atestar o vício.
Todas as aparências tinham características…
Sonâmbulas e ásperas
mal disfarçadas e rudes…
imaginavas-te diferente
por seres exactamente diferente
de todos nós
nós os que nunca parecemos iguais
A tua voz brincava com o ar
explodia em malícia
afogava a tua vivacidade
repreendia quem se lhe opusesse
e habituara-se a dizer…
- Vamos daqui!
Terias a certeza de seres tu quem mandavas
ordenavas brincavas com os nossos olhares
incrédulos mal postos
na tua figura de rainha anã
irrequieta ágil desempoeirada
nas calosidades que te cercavam os nós dos dedos
todos bem iguais à tua inteligência
irrequieta ágil desempoeirada
como os estridentes dentes
que salientavas
no fácil riso que te envolvia.

Bastava que tudo tivesse a proporção
tão necessária para ser luz
aparecesses longínqua e caminhasses directa
ao ponto de encontro
em que nos situávamos.
Não era preciso mais que uma palavra
um gesto
ou um adeus
para olharmos tudo diferentemente.

Rápido como o vento, só o nosso gesto…
Parede encostada à outra parte do quadro
que nos olha ao comermos bolos
ri ao fazermos caras
entristece-se ao ver-nos seguir sem encontro
só porque não está em nós podermos ganhar…
Na incógnita noite os rastos do poema…
Quem os virá buscar, enquanto ainda forem chama
luz, visão do dia, semente e pensamento?
não importa a que distância…
Mas venham!
Tragam as vossas bandejas de qualquer prata
as vossas mãos de qualquer pele
a vossa imagem de qualquer corpo
o vosso sentido de qualquer fim
as vossas ideias de qualquer ilusão…
Mas venham!
Com a eternidade que não vos obriga
a serenidade que não vos realça
a amizade que não vos impõe
a certeza que é própria de todos
a função que é dita de alguns…
Mas venham!
Tragam o espaço e os planos
as vossas cabeças e as vossas bocas
os pincéis e as paletas
a sombra e a claridade
as mesas e as portas
os museus e os bordéis
as mulheres sérias e as que o não são
as vossas filhas e as vossas empregadas.
Tragam as lembranças e o presente
os sãos e os doentes
os mendigos e os fidalgos
o forcado, o cavaleiro, o matador
todos eles com o touro à cintura
já que a arena é bem grande
e todos têm lugar em pé…
Mas venham!
Venham sem cerimónia, sem requintes
naturalmente
como natural é o céu e a voz encoberta
para lá da montanha.
Lembrem-se que todos têm o seu presente e o seu fim…
Que tudo cresce e tudo passa…
Que as noites são dias que se põem
e as manhãs luzes que se despregam…
Lembrem-se que são mortos os que pensamos
mas que são os vivos, os que nos amam…
Que tudo é igual
desde que não se mostre diferente…
Que uma hora não é igual ao tempo
mas que o tempo é uma hora…
Mas venham!
Tragam cânticos negros e odes triunfais
dispersão e mulheres de luto
o antónio-só clepsidra e as sombras e as vozes
cézanne van gogh picasso modigliani dali
almada amadeo bual lud seixas osório
um exercito de não soldados que lutam pela eternidade.
Mas venham!
Tragam nas mãos
rosas, cravos, manjericos, orquídeas
o que quiserem…
Mas venham!
Já que o mundo é mundo e o homem se acaba…
Já que a mão que acende cigarros, também acende fogos
e toca em botões e propulsiona ogivas
e não pára e não pára e não pára…
Parar, é como não saber! Mas o homem sabe
e sobe e desce e avança e recua
e obstina-se e cria
inventa para lá das memórias
para lá do sentido que possui
para lá da volta que dá ao mundo
para lá da montanha que sobe
para lá do mar em que mergulha
para lá de si para lá de tudo…

Tempo preciso, tempo necessário.
Uma flor que espreita empoleirada no muro…
Tanto silencio, estranho silêncio
a lembrar a sepultura em que estás deitada…
Vem-me com a tua serenidade diária
amiga dos meus tempos incompletos
dos meus gestos irreflectidos
suster o meu corpo de bebida entorpecente…
Traz-me a tua a tua imagem involuntária
que todos os dias espreito
todos os dias rezo na minha oração inacabada
como os olhares das filhas que me pedem
ou o beijo da mulher que me envolve…
Vem, vem dizer-me que não me engano
que não me posso enganar
que sou como o lusíada guerreiro
como o lusíada navegante
como o lusíada involuntário de ser lusíada
involuntário de ser alguém, involuntário de ser lido…
Vem até mim, ventre histórico, ventre de onde vim
ventre da minha saliva e das minhas lágrimas
ventre dos meus planos sempre inclinados
das minhas suposições incompletas
das minhas realidades risonhas, mas dispersas
do fumo que fumo sem fumar
do olhar que me deito e que não sinto
de tudo o que me parece triste mas que é real.
Tanto tempo, tanto dia sem realidade alguma
por detrás do meu silêncio
de olhos a lembrarem olhos
livros a lembrarem estátuas
poemas a lembrarem lágrimas
por ti por ele por nós!...

Que o tempo avance e se complete
mas que venha!
Venha como tu como todos a quem espero
e que não sendo muitos serão os bastantes
os verdadeiros os únicos
aqueles que terão a palavra para explicar
porque foi escrita…

Na incógnita noite os restos do poema…
A precisar de ser tempo
a ter de ser espaço…
Desenho quadro casa grande
cavalo selvagem sem domador…
E se for preciso
redigo o que alguém disse:
- Batam em latas!
Toquem no grande concerto abstracto
mas… batam em latas!
Firam o choro se o houveras lágrimas se caírem
a dor que alguém sinta o luto que possam tomar…
Brinquem com a bola pequena, vermelha e branca.
Atirem-na para as nuvens
para que se possa perder…
Foi o meu brinquedo de ouro rasgado
com que brincava todos os dias
com que saltava a janela do rés-do-chão
e jogava na praceta.
Hoje, tem a cor disforme do passado
a lembrar a incógnita noite
a perseguir os rastos do poema!...

José Manuel Capêlo, Odes submersas, Átrio, 1995.


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Estou farto de possuir florestas


pintura de Georgia O'Keeffe

Sagrado é este luar que à terra desce
este pequeno encanto de muitas nuvens
todo o silêncio que é de espanto
na noite salpicada de várias estrelas.

E eu, só
imensamente só com as palavras
estes ecos que nascem nem sei como
vultos, silhuetas estampadas nas paredes
como contornos apagados pela noite.

Resta-me o espanto da tua face
adormecida nos lençóis de linho
cotovelos apoiados nas paredes
redes envoltas com os teus cabelos
mãos que se erguem do negrume
bafos que acompanho no olhar
sem que o silêncio me diga: Pára!

E sabes que parei? Parei com os livros a abrirem-se
com os livros a fecharem-se
com os livros a nada serem, a não ser
imensas vírgulas no teu silêncio
adormecido pelo álcool de qualquer ascendência
ruas que se fechavam com o teu olhar
passagens de nível a descerem ao grande sacerdote
ao pajem de mãos suadas
pelo grito da guitarra.

E vieram canções embelezadas pelo cheiro
pelo acre-doce de duas rupias emolduradas de oiro
sedentas de mãos que conseguiam ser algumas
as únicas, necessárias para que todo
o ciclo se cumprisse entre mãos.
O resto veio depois, depois das horas
depois do vento
depois de muito suar
nas paredes abertas do teu seio.

Deixa-me agradecer pelo copo de cristal
que me ofereceste no olhar dos anos
no cigarro de múltiplas cicatrizes
no punhal de lânguidas arestas
frisos de sangue marcados pelo meu sangue
como resto que veio depois
de nunca ter passado.
Eu sei que a culpa foi minha
que o medo nasceu do nosso encontro
que o tempo nasceu depois dos filhos e parentes
e que a luz incidiu na minha boca.

Tenho aquela pastilha de agrafos como metafísica.
Vários álbuns encadernados como compêndios
e alguns discos como sequências.
O resto é o empedrado da rua
as pedras a subirem, as mãos a descerem
à procura das conchas que apanho do mar.
As cores... sucedem-se! Tenho pesadelos e confluências.

A floresta desaparece na quantidade de papel que possuo.
Estou farto de possuir florestas.
Que é do meu oxigénio? Que é do meu planeta?
Fui desencantar o meu rosário de vícios
nas pálpebras do teu rosário.
Vieram primas e irmãs, todas feitas de papel
único papel para limpar o cú...mulo
da minha paciência. Cú...bitos
só os ossos e esses emperram por todos os lados.

Quero o Deus que me sossega.
Vem espírito alcoólico até ao meu copo.
O resto são cantigas de meninas e fé.
Várias garrafas se abrem ao meu destino
encharcado de bebedeiras e fé.
Ergam-se os meus punhos e os meus braços.
O resto é o eterno silêncio dos meus lençóis.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Entrevista Intima!

pintura de Salvador Dali


Está vazia a mente. Nada escreve.
O olhar repoisa num ponto infinito
que se alonga, até escurecer a névoa.
Mas penso?... Sim, penso
que nada imagino,
(como se o imaginar,
fosse o tudo que nos aparece!...)
O infinito não custa.
Custa... é, olhar o infinito!
Infinito tão finito como eu,
ponto dum olhar que se alonga,
imagina, aparece, escreve.
Entrevista-me assim, olhos nos olhos,
mão na caneta, ponta no papel
que marca, que traça, que risca.
Missão dum olhar, que é imaginação,
encanto de um corpo, que é só corpo
mente que escreve e se infinitiza,
no custar honesto que aparece.
Infinito num finito como eu,
em entrevista própria...



José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

sábado, 12 de setembro de 2009

Do mundo que é nosso!

pintura de Diego Velázquez


à minha filha Fiona

Gosto de embalar teu sorriso entre meus dedos
acariciar teus cabelos no meu olhar
perguntar se as minhas ideias, são só medos
e se as minhas mãos foram feitas p'ra te amar!?...

Gosto de te levantar, assim, acima
atirar-te de encontro ao ar eterno
ou não fosses parte do meu corpo, minha rima
como outra como tu, sobe, meu olhar terno.

Gosto de buscar nas águas dos rios
entre flores e ramadas que neles caem
como se os teus gritos fossem puros desafios
que nem só do teu corpo crescem ou saem.

Gosto de te ver, de te encontrar onde não estás
olhar a luz, olhar a sombra, um quadro na parede
sermos os dois através de canteiros de lilás
caminhantes num deserto sem ter sede.

Gosto de gritar que és fruto do meu ser,
gosto de dizer que és veia da minha veia,
longo tear dum breve tecer
dum mundo que é nosso e nos rodeia.

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

sábado, 22 de agosto de 2009

O que não merecemos!


pintura de Paris Bordone

Longe, tu e eu,
perdidos nos quilómetros que nos separam
por migalhas de tempo,
no olhar do relógio, que são horas
e que se perdem, a olhar os minutos.

Longe, tu e eu
que não merecemos, porque não esquecemos
que o tempo foi nosso
e que passou sem que déssemos tempo,
ao tempo, para nos vir buscar.

Longe, tu e eu
amantes do belo e de nós
que não nos possuímos há dias
e, que nos são tão longos e brutais
que não os merecemos.

Longe, tu e eu
um do outro!

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Tangencial

Os amantes, de Pablo Picasso
A meus pais

Oh! como a noite é mãe dos eternos vazios
alvéolos cheios de nós .....da nossa língua..... do nosso
desejo a confundir-se com as colunas erguidas
no largo enfrente em que adormecem mendigos
poetas ...pintores... compositores do ocaso e do medonho
flagelos da sociedade que não os atina ....suporta
como uma grande fechadura de chave única.
.
Que se rebentem os cadeados ....as portas senhores
que se rebentem as amarras do condicional
da estrutura que aflige e impede e desmoraliza.
Os grandes sopros vieram do pensamento.
Acabe-se.... rebente-se.... estoire-se com o raio da política
que é o arcanjo de fogo de céus fechados.

Amemo-nos com o que temos e somos.
Vem Encamdala..... vamos destruir todos os sonhos
dormir nos laços da noite .....nas camas de ferro
nos prédios de aço e cimento ....nas escadas de madeira
nos buracos das vigias ....nas anteparas dos falsos camarotes
e esqueçamos as vozes vindas do alto pedestal
rígido.... frio ....cómico ....vicioso ....vociferante
plagiante.... anómalo.... irritante ....beato.... sacrílego.

Que tudo se esqueça ....que tudo passe.... que tudo
contorne as tangentes do planeta e os ângulos
e os vícios e as paredes que nos quiseram impor
e o mal que está por detrás do bem
e o que está pela frente de nós-mesmos
e o que há e o que não existe
e o que poderá haver no verde.... no negro ....no vermelho
no espelho dos nossos olhos de mãos abertas
nas costas de todos os que caminham à nossa frente.

Amemo-nos Encamdala e gritemos que o
céu
somos nós!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ETERNIDADE E SENTIDO

Nascimento da terra, de Emília Matos e Silva

Fizeste com os teus lábios um arco grande
no meu peito. As tuas mãos tornearam-no
com a tua boca a procurar o meu gesto
e este a perder-se na noite almofadada dos lençóis.
O mínimo sussurro era o vento que saía de nós
apanhados no grande bloco de cimento armado
ferindo-nos no mais louco enternecer
com os fluxos da luz a saírem do écran
mais sumido tapado pelas gotas de suor
que em cascatas de vida vinham correr
das testas mais suaves deste mundo.

Ah! não, como não se esplêndido era o fumo
seco a entrar pelos nossos olhos pelos
nossos poros pelo vítreo semi-cerrado do
nosso olhar? ! Eras tu e eu..... únicos
debaixo do mundo que adormecia com uma calma
estonteante com a facilidade de quem
não tem nada para dar nada para amar
nada para beliscar a curiosidade e o sentido
da uma e meia da manhã já quando a noite
parecia ser igual parecia ser idêntica
fria vazia despida de corpos e de amor.
Porém, lá estava a luz vermelha o cabo
do telefone a chamada fácil a gritar pela
noite fora a voz longa e cansada o travar
brusco do carro a caminhada em penumbra correria.
Era o abraço e a noite das mil noites sonhadas
há longos anos de muitos anos como se
a eternidade fosse a palavra mais próxima
a mais projectada igualdade nas duas mãos gémeas.

Grita meu amor, pois o sol entrou com o sono
e a luz veio com a madrugada do outro dia
desse dia em que as nuvens passaram por baixo
do castelo de sonhos que fizemos na noite de
todos os sentidos únicos selvagens e possíveis.
Diz que o fim nunca está próximo nem presente
que não está aqui nem ali em parte alguma
e que os nossos pés são passadas de cavalos brancos
a correrem loucamente na areia das infinitas praias
com as ondas a salpicarem-nos não de espuma
mas de vento esse vento batido entre o horizonte
o nosso olhar a nossa língua e os nossos gestos.

Ah! os nossos corpos como brilham!... Chamam-se
estrelas, sabes? Deixa que pegue a tua mão e a
traga aos meus lábios que a sinta e a veja
que a adormeça no meio dos meus cabelos e a solte
à procura de mim de ti da palavra que escrevemos.
Vem, Encamdala meu barro coberto do meu suor
sem nunca te esqueceres que fizeste com
os teus lábios um arco grande no meu peito!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Fundo indicado diferentemente


pintura de Vilhelm Hammershoi

Acho que não
que nunca esse tempo foi tempo
de cicatrizes
de borboletas na mão
de berlindes nas algibeiras
de ruas que nunca seguiam
nem de passos que tivessem pressa.

O que também acho
é que bem podia ter sido diferente
distinguível como
um outro caminho
um outro gesto
um outro ar
uma outra forma que pudesse
parecer-se diferente.

Só que
(e a realidade é uma)
eu teria gostado de ter as minhas mãos
em sítios impossíveis
em falas impossíveis
em risos impossíveis
em olhos impossíveis
tão impossíveis como o impossível
de que tudo isso acontecesse.

No fundo
nem seria sonho
porque os sonhos não se sonham assim
(eu também não sei como é que os sonhos se sonham ...)
nem sonhar assim seria sonhar
nem sonhar seria o mais indicado
para a condição de fundo.

Mas o que eu posso dizer de certeza
é que com possíveis e impossíveis
com cicatrizes borboletas berlindes
ruas passos caminhos realidades sonhos
a mão segue sempre a mesma linha
e o tracejado risca-se
de encontro ao descomunal penhasco
que se nos posta à entrada.

Na feia noite de Janeiro
entre o dia ido que foi ontem
e o dia a ser que será amanhã
há o dia de estar que é o de hoje
igual ao de muitos séculos
igual ao de muitas semanas
igual ao muito igual que se desconhece
mas sempre primeiro e único
quando os outros se sucederem.

No fundo até pode ser
que a realidade seja
só e apenas
o parecer-se diferente
como sonho menos indicado
para a condição de fundo.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

domingo, 26 de julho de 2009

Quem nos substitui?

pormenor do Nascimento de Vénus, de Sandro Botticelli

As outras noites, dispenso-as.

Mas, vem esta noite viver comigo
vamos desfraldar nas estrelas
as nossas mãos abertas
os nossos beijos secos
os nossos pés ressequidos
por caminhadas sem lei,
que tomamos, porque necessitamos.

Quem nos pode substituir?

Já não procuramos bandeiras
nem cargas de cavalaria
nem citaras à bandoleira
nem ondas para construir nuvens
nem ossos para edificar museus.
Temos nuvens num sol encoberto
- sempre o mau tempo -
tempo no mar, tempo no ar, tempo no campo
onde os chacais correm assustando as galinhas
os cães que procuram dormir acordados
os homens que descansam de barriga vazia...

Mas, vem esta noite viver comigo
que pode ser a última
que pode ser nunca
que também pode ser o princípio do nosso encontro
numa guarita vazia, sem cheiro
onde se batem fantasmas
de baionetas caladas fumegando ácidos.

Oh ! vem, vem meus doces olhos
de jardins-de infâncias-de mãos-hábeis
vem gritar a música que se rodopia cá dentro
que nos é comum e única
que adoramos e beijamos
porque ainda a pudemos ouvir.
E, quando acabarmos a noite
sonharemos então que nos tivemos
de mãos dadas, beijos feitos, pés únicos.

Boa noite meu amor. Vamos sonhar...

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

terça-feira, 21 de julho de 2009

Os outros dias

Paisagem com pássaros amarelos, de Paul Klee


Felizes vão os dias de sossego
na vida calma de horas certas...
Nada em mim é visão de cego
antes, claridades de portas abertas.

Corriam livres esses dias marcados;
eram plenas, essas horas sagradas
buscavam os dedos os lugares fechados
sentiam as mãos as formas onduladas.

Como eram bons esses dias de ontem
que não esquecem no tempo de hoje.
Revivam-se, porque todos se sentem
porque nada se perde, nada foge.

Adeus meus dias passados
meus bons tempos de fortuna;
escrevo agora meus breves fados
p'ros lançar, depois, na laguna!

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Traz-me...

Criação do Sol, Lua e Planetas, Miguel Angelo


Traz-me o mundo
que eu te darei a terra
não o acaso, o ser imundo
que nele anda, prolifera.

Traz-me flores
pétalas mal acesas
lírios debruados d'amores
e não ondas de incertezas.

Traz-me o tudo
o mar sem fim que aqui é
dá-me o teu corpo nudo
para riscar céus e maré.

Traz-me o meu egoísmo
e o reparo de quando me olhas
porque em mim, vês abismo
e não a flor que desfolhas.

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Além do nada só tu!


Danae, de Henri Fantin-Latour

No meio daquele corpo tinha o meu
rasgando-o em beijos de desfolhada;
a hora, não era tempo, não era nada
nem a noite se estendia pelo céu,
nem o sol despontava com a madrugada.

Os lírios lá estavam nos canteiros
bailando na nova luz qu'aparecia;
no meu sono despregado do dia
não via a caminhada dos obreiros
nem o rosto sereno que ao meu lado, dormia.

Oh! quanta luz, quanto desejo
de te ter, mulher!
O teu olhar é um beijo
que o meu corpo só quer.

José Manuel Capelo, Miragem, Editora Montanha, 1978

terça-feira, 7 de julho de 2009

Ser

pintura de Vilhelm Hammershoi


A razão de ser como sou
deve-se ao facto
de não ser como deveria ser!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sábado, 4 de julho de 2009

Rosas nos peitos dos homens

Ansiedade, de Edvard Munch


Ela tinha no rosto as cavas fundas das rosas
e no peito o segredo imenso dos deuses

Passeava-se no espaço perdido de várias dimensões
acompanhando o grito com as mãos..... varrendo
o silêncio pesado de véu de viúva

Da sua boca destaparam-se filhos..... vários
estranhamente doentes estranhamente em silêncio
estranhamente estranhos de si-mesmos
véus encobertos que nunca se destapam
nem descobrem nem fogem nem lutam
a lembrarem as cavas fundas rosas
no peito imenso dos deuses..... estranhamente em silêncio

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

sábado, 27 de junho de 2009

No dia em que …

A jangada da Medusa, de Théodore Géricault


Será que o mar cresce nesse dia?
Tudo vai da lua, da sombra
da montanha, do rio, do luar…
Tudo nasce do nada como eu nasci:
Homem! Mas… que tive para dar?

Será que a sombra me vem cobrir?
Desce comigo a calma do morto
o sangue enegrecido, o corpo a mirrar
o silêncio sempre pronto
para me digerir e olvidar.

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Poema do quarto vazio


Bailarina II, de Joan Miro


Quarto vazio, mas não vazio no meu quarto
estou só, sigo desperto, um acordar farto
repulsa de ter nascido, a olhar o nada
nada, que só diz: ninguém de nada.

É mau falarmos sós, dizer nada a ninguém
olhar pausado num espelho nu: de quem?
Visita de tristeza esta, que faço a mim mesmo
sem saber o que dizer, falar solto, grito a esmo.

Pobre capêlo meu, que sustento na cabeça,
professor de orgia, pensamento, peça
e peça a quem pedir, ninguém me ajuda
aplauso do anfitrião de boca muda.

Então noite, minha harpia amiga,
minha brava companheira mendiga,
voz das trevas e horrores e soluços, que dizes?
Triste quadro este, de directrizes.

Ainda ontem quis pintar um quadro...acabado,
um retoque aqui, uma pincelada ao lado,
olho na mira, mira desfeita, cruz axial
e acabei por traçar uma diagonal.

Ficou belo! Digno de um Picasso...
Noite, noite, como me maço!...
Para quem hei-de eu falar
tão triste, tão triste o meu acordar!?...

Julgas-me louco? Não penso, nem calculo,
matemática dum zero ou nulo,
biologia dum homem de quarto
adeus do homem que sou e que parto.
..................................Já não me farto!

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

sábado, 20 de junho de 2009

TU ESTÁS TÃO VELHA !...


Visita, de Jacopo Pontormo


Tu estás velha
tão velha
como os monumentos cicatrizados no meu rosto
velha
como a luz pálida que se apaga no dia
velha
como os dias que morreram sempre iguais
velha
como os quadros que fazíamos em noites por acabar
velha
como as ruas a que nos chegávamos
velha
como todos os abortos que nunca nasceram.
Tu estás velha
tão velha
como no retrato que vi casualmente numa revista
como este tempo que passou e não foi muito
sem te ter e sem te ver...
Velha
tão velha
que já nem te distingo.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983