pintura de Thomas Gainsboroughdomingo, 5 de abril de 2009
Infinito em transparência
pintura de Thomas Gainsboroughsexta-feira, 3 de abril de 2009
Com a paz nos olhos cheios
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Oh! minha Ilha-Verde da paixão
Oh! minha Ilha-Verde da paixão
como a nossa Verdade não se esconde, nem se encobre
não tapa o que o sol descobriu para nosso perfeito defeito e conforto.
Este, o grande mistério-verdade que a terra nos proporciona;
porque sabendo-nos, sabe-se!
Sem hipocrisias, sem fingimentos, sem adulterações
na pequena fábrica do nosso aconchego e enlevo.
.
Como razão de muitos dias
segredas-me o teu querer e a tua paixão, à mesa do tempo
por entre o deslumbramento das lágrimas
na amadurecida ausência das perguntas
no transbordante recolhimento das respostas
na impenitência que te faz perfeita
.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
MONTESEGURO
para o Lud
Tiraram-me de cima as vestes de esmeraldas
enquanto adormecia.
Uma Dalila no tempo
cortou-me os cabelos
e ao som de marchas
fui parar a um cemitério sem ciprestes
enquanto homens juntavam piras
no centro do castelo
para imolarem outros-tantos
que se juntavam nas masmorras.
Perdera-se o vaso
mas ganhara-se o reino dos céus
enquanto a fortaleza permanecia calada
- lá no alto-
transponível por uma só entrada.
Movimentavam-se aí as sombras dos albigenses.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
terça-feira, 31 de março de 2009
Destino
segunda-feira, 30 de março de 2009
A paixão de amar
A origem da Via Lactea, de Tintorettodomingo, 29 de março de 2009
Tempo de regresso
com que sonhaste o regresso do infante adormecido
por entre as vagas que se levantam do mar imenso
ou no seio da floresta, em verde aberto.
Escuta amada, o murmúrio dos ecos
no levantar das folhas de encontro à brisa
ou a visão do sol, que se dilui na claridade da noite
lugar secretíssimo que ninguém descobre
e onde só nós estamos.
Que sei eu dizer-te, que já não saibas ou penses
- mesmo que o meu sorriso se ilumine de sombras -
se só tu decifras a lonjura da terra e o rebordo do mar?
Que sei eu provar-te que não me tivesses dito
senão esta natureza que se criou em-mim
mas que veio de ti, sem que jamais o soubesses?!...
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
sexta-feira, 27 de março de 2009
José
José,
deixa que a tua fraqueza encolha os ombros
que os dias se levantem azuis e acabem em chuva
que a tua alma parta sozinha e viaje sempre
que o teu grito seja o eco no próprio vazio.
Dentro de ti, lá bem no fundo, és tu...
Ninguém te conhece. Os olhos são cegos
as mãos imensas, o frio ímpio, o calor tórrido
e todos têm Pátria e todos têm gente
só o frio que o teu olhar sente
é mais quente
......................que todo o sol no mundo.
José,
vai, descobre por ti mesmo cada erva na planície
cada toca de coelho bravo, todo o ninho de ave
toda a fogueira a arder no finito distante
toda a chuva e todo o vento
todo o enigma do poema - que é o teu!
Quem te pode falar as palavras e os risos
o choro, as emoções, os arrependimentos, os gestos
as miragens, os quadros, o poema?
Todos estão fartos, e cansados, e tu, vives
no mundo que te ignora ou te condena
sem mesmo que ele-dele tenha pena
embandeirado em crena
............................um arco desfeiteado.
José,
escreve o teu poema e deixa que o mundo continue
porque nunca houve um quadro acabado
sem que uma mão o pintasse!
Não tenhas remorso desta vida, deste tempo curto
destas horas fartas de rugas, de mãos cheias de vício
onde o sol se põe - como em todos os lugares-
porque a promissora morte, a morte inesperada e decente
não é ingénua, nem solitária, nem consente
que toda a mente
......................a leve para longe de si.
José,
assim, nunca estarás só ou insatisfeito
nesta lenta
........... e triste
................. caminhada
.................... dos dias...
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
quarta-feira, 25 de março de 2009
LONGOS BRANCOS BRAÇOS

terça-feira, 24 de março de 2009
LUZES... COPOS

segunda-feira, 23 de março de 2009
Como se não bastasse
pintura de Amadeo Modiglianio clamor invadiu o lugar e dei por mim a segredar-te:
Então, vendo que éramos dois
os deuses calaram e resguardaram-se no seu lugar.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
domingo, 22 de março de 2009
Quem correu comigo ao longo do rio e se transformou em mar?

sábado, 21 de março de 2009
Vieste igual, porque vieste tu
pintura de Georges Seurat Vieste igual, porque vieste tu
infinita face em que o suor escorre e o sorriso se anima
lugar de encontro onde a luz tem som
sinal vindo do claro-escuro onde tudo se destrinça e se esfria
-porque infinito é o eco da alma! -
malha sagrada onde se tece o Império, o Segredo
o velo temporal da Humana criatura, sílaba enunciada do silêncio.
As horas ficaram, porque eram!
Ruas intemporais de tantos passos dados
seguindo os caminhos habituais
os lugares destinados, as cadeiras à espera.
Sobre nós, corria o prédio de três andares
forma onde se esbatia o nosso ímpeto e o fulgor do suor
realidades de noites que se evadiam na ternura das dunas
ali à frente, com o mar em refúgio de ondas
perdida mancha duma palavra constante e vibrátil.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
sexta-feira, 20 de março de 2009
ADORMECER
quinta-feira, 19 de março de 2009
de então...até agora
Como vai longe a minha infância
mascarada do gelo da serra
onde nasci, entre a vertente da Estrela
e o leito do Tejo, ainda fraco.
O crepitar das fagulhas de inverno
e o suor escorredio do verão
o amor e fala suaves de minha mãe
o chorar rabugento e vivo de minha irmã
o saltitar para a rua empoeirada
e a soante tareia por chegar tarde...
Tudo isto, em tempo de férias...
Mais longe, entre o fronteiro e o alto
do casario lisboeta, entre esse mesmo rio
e as pradarias verdes ribatejanas
onde cresci nos primeiros passos duma juventude
quase despreocupada, entre
a voz suave e o amor de minha mãe
as partidas de minha irmã, a tomar forma
o saltar p'ra praceta arranjada
postada mesmo enfrente
e a soante tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aulas...
Ainda mais longe, entre terra e terra
da vizinha Espanha e do antepassado Marrocos
na plena seiva uivante da minha adolescência
na forma gritante, do quero e posso, do
aqui mando porque me crio e defendo
nas cartas demandantes de aflição material
e da fome no estômago de dias sem comer
no amor e escrita suaves de minha mãe
do eco de desaprovação de minha irmã
do voltar para casa com ar empoeirado
a reprimenda e o sopapo por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aventura...
Quando agora, já mais próximo
entre o mesmo casario e o mesmo rio
com a força dos anos ainda forte
pai duma filha que nasceu chorando
primeira da minha composição-macha
seiva do meu grito breve e fecundo
do eco uivante de todo o meu ser
sem amor e palavras suaves de minha mãe morta
duma irmã que perdi na separação dos bens
com o corpo ainda quente daquela que muito amei
e que nunca mais me daria a reprimenda
o sopapo, a tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de angústia...
Quando ainda mais próximo
entre a partida e o regresso de cada voo
que é o meu trabalho e o meu sustento
senti a força do mundo e amei a mulher
na forma que é, na força que tem
voltei a viver e a sorrir e a chorar!...
Então, sim, então escrevi tudo o que é meu
na forma sincera do todo que me habita.
Escondi também, criando a forma, a expressão
daquilo que não sou e nem serei...
Tudo isto em tempo de meia-felicidade...
Quando e ainda mais próximo
mais uma filha tive nascida na britânica ilha
de carne lusa e carne inglesa
que não chorou nascendo, nem corou gritando...
Quando mais outra veio do mesmo modo
do mesmo corpo, do outro corpo e do mesmo sítio
em dia único de nome de rosa encoberta...
Assim, que reste o tempo de vida
olhando da minha infância a terra serrana
e o coito da grande urbe em movimento
- palco de gente movediça
crepúsculo de deuses e feras
minadas de ideias que saem e não nascem -
assim, que reste o tempo
entre o casario e o rio enquanto viver...
Tudo isto em tempo de rotina...
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
quarta-feira, 18 de março de 2009
os cafés não podem morrer!
Não podem ser transformados em bancos
em vazadouros públicos, em memórias desarticuladas
em banquetes de opíparas magias
em casas de curta duração.
Onde estão os meus cafés perdidos
no meio do meu orgulho
da minha fronte de amigo vizinho
criador de palavras e de imagens
de puro amor às ideias?
Não, não, os cafés não podem morrer!...
Não deixem desaparecer as mesas
as bicas, os bagaços, os cinzeiros
a nossa alegria ou tristeza
de falarmos de cadeira para cadeira
em que cada conversa é uma ideia
em que cada ideia é uma geração
em que cada geração é a própria história.
Não, não, os cafés não podem morrer!...
Não pode morrer o que mais sagrado é
para todo aquele que ama a vida
a liberdade, a alegria de se saber
quem é e não é
e que o leva ao mundo maravilhoso
do ar empolado de fumo dos cigarros.
Como poderá morrer um café da avenida
dum parque, duma rua, dum largo
duma praça onde voam pombos, passam pessoas
caminham turistas e correm ladrões
que por serem ligeiros, se espaçam nas massas
das multidões desatentas e confusas?!...
Não, não, os cafés não podem morrer!...
Vivam os cafés abertos, os cafés-concertos
os cafés-botequins, os cafés Martinho (d'Arcada)
os cafés Gelo, os cafés do Chiado
(Brasileira, Benard, Tavares, Grandela)
as ruas a subirem, as ruas a descerem
os olhos falando, as mãos pedindo
a eterna bica e o quente bagaço ...
Vivam quem os inventou!
Nada, nada os poderá transformar
desaparecendo do nosso conforto
do nosso sentir de clepsidras
de graníticos lepidópteros
fantasiantes mancebos surrealistas
fantásticos plagiantes presencistas.
Não, não, os cafés não podem morrer!...
E se o fizerem
acabe-se Lisboa !!!!!!!!!!!!!!!!!
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
segunda-feira, 16 de março de 2009
há tanta gente... tão pouca gente
sábado, 14 de março de 2009
O desejado
sexta-feira, 13 de março de 2009
Há um sonho dentro do teu olhar azul
ghirlandata, de Dante Gabriel Rossettiquinta-feira, 12 de março de 2009
cresce em-mim a cidade
do vento. depois, em uníssono
vagueiam os passos na procura direita da posição
que é aquela que os homens tomam quando se espantam
ao se encontrarem direitos, de se verem em pé
de continuarem vivos.
os homens vivos?!...
os homens com as cabeças levantadas, ainda?!...
os homens com estas personalidades que os tornam
distantes de tudo e de si-mesmos
como sombras resguardadas no canto da primavera?!...
cresce em-mim a cidade deste País tão belo
e de homens que andam sem saberem para onde vão!
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989
quarta-feira, 11 de março de 2009
pelo outro lado da terra
Boreas, de John William Waterhouseterça-feira, 10 de março de 2009
ter herdado tudo, de nada e de ninguém
ter herdado tudo
de nada e de ninguém.
luzes do meu universo cheio
onde estão as sombras do meu vazio pleno
as linhas do meu horizonte fácil
as rodas da minha máquina perpétua?
fumo sem cessar os cigarros da minha arteroesclerose ímpia
bebo sem me importar o álcool da minha cirrose sem dentes
fornico sem me caber a sida dos meus testículos inchados
grito a plenos pulmões a dose da minha over-dose inicial
rabujo contra os defeitos das minhas crianças apanhadas na mão
mastigo o doce que o empregado da confeitaria me pôs entre os dentes
pergunto ao Esteves, o da Tabacaria, se já mudou a tabuleta dos anos
imagino o poeta a embebedar-se com as sombras da noite
o pintor a esquizofrenizar-se com as luzes das cores
o aviador suspenso do seu balão estático
o motorista da caranguejola sem cheiro e sem buzinas.
enfrento o mar e pergunto pelo tubarão devorador da última perna
da mulher que enfrentou o marido e se cobriu de lágrimas
do último crime da rua do galeto que se repetirá daqui a dez anos
igualmente, pontualmente, como a luz que acendo sobre a minha cabeça
nessa variação que a terra dá e o tremor faz abanar?!...
ter herdado tudo
de nada e de ninguém
como ser único, solitário e temente.
por hoje basta de vultos e de efemérides
que as linhas do meu horizonte facilitam
e as rodas da minha máquina perpetuam.
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989
segunda-feira, 9 de março de 2009
Como é louca esta velha terra de bravos, virgens
painel esquerdo da Tentação de Santo Antão, de Hieronymus Bosch Como é louca esta velha terra de bravos, virgens
putas, cobardes, imbecis, para-génios
duendes, pigmeus, velhos, apátridas, traidores
e ninfas vestidas com paramentos de noviças.
Como é louca esta velha terra tresandando a enxofre
e a histórias de pecados e delírios, riquezas e misérias
despovoadas nas barracas de cobre ou erguidas em amoreiras
de super-luxo. Gritam-se os contrastes, mas que fazemos
para os desfazer? Gritamos o belo, mas que fazemos
para que o não seja, para que a luz não se baste à sombra?
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
domingo, 8 de março de 2009
Infinidade, sempre ...

sábado, 7 de março de 2009
Passo ...
sexta-feira, 6 de março de 2009
DEIXA QUE DURE O TEMPO
No teu olhar há um sonho
que sonhei múltiplas vezes.
No teu olhar, um regaço
em que me acobardei sem sentido.
Deixa que os dias sigam e os ponteiros se movam.
Deixa que dure o tempo.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
quinta-feira, 5 de março de 2009
Parapeito
quarta-feira, 4 de março de 2009
VAMOS SONHAR...DORMINDO
Vamos sonhar naquelas águas calmas
que descem em cascatas de vida
por aquele desfiladeiro de verde ! ...
Vamos sonhar o nosso sonho
para que ele se abra em flores de lilás
ou em música de Tchaikovsky
para nos amarmos melhor.
Vamos chamar os nossos sonhos de amor
numa tarde de chuva, para que se elevem
e nos deixem pensar no dia
amanhã chegado e sem pressas.
Vamos dormir meu amor
para que eu olhe nos teus olhos
a certeza de que amar, não é só
a forma de te sentir viva e minha.
Vamos sonhar o nosso sonho!
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
sábado, 28 de fevereiro de 2009
DA TUA BOCA
Rapariga com brinco de pérola, de Johannes VermeerOlhei um ponto perdido não sei onde em que distância
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Suprema intensão
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Ruas imensas dum certo desespero
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Vaga visigótica
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Ode infinita

ser em ti vagaroso como o rio que nos cerca
compreender que a vergonha não és tu nem eu
nem tão pouco o castanho das madeiras
mas as angulosas cabeças de chapéus de feltros.
Imagina-te anzolada à minha dimensão metafísica
à ignorância colectiva que é aparentemente um fracasso
ao espaço hesitante do subproduto
à vergonha honesta de que vale mais importar
do que mingar tumularmente de fome.
Oh! Pátria, nada me impede de pensar
que, também tu, possas ser sempre eu
lastimável, acabrunhado, indeciso
recuando ante todo o vulto sentado
lembrando o meu passado sem história
no presente movimentoso e aparente.
Pensa que não vim de ti, mas me absorveste
gélida, tórrida, transparente, inofensiva
mãe, prolixa e diminuída, de achados
de líricos que se comprazem à modulação do canto
e se rasgam em lágrimas à hora do Natal.
Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
e saber que também a tens.
Não saber nada e dizeres que me cale
mantenha o mesmo passo e o mesmo olhar
suba aos edifícios e desça aos esgotos
analise os olhos e aguarde em sereníssima contemplação.
Acho que dizer - acabe! - não basta
já que o lento movimento das nuvens
nunca simbolizou temporal
nem as persianas a fecharem-se
significa que crianças adormecem.
Lento, é todo este movimento
diagonal
indulgente
formidável
cómico
com todas as suas arenas modificadas
de estranhas larguezas
lembrando chaminés
e o mais que se entrega num leito almofadado.
É tempo de dizer que nunca me tive
(nunca te tive)
nunca passeei com a tua estranha monotonia
a tua calma aparente
simbólica
consciência de feitos inacabados
horas de partida
de chegada
choros de faces sofredoras
mãos cobardes.
Desci aonde podia
aonde nunca ninguém me obrigou
onde sabia nascer um cavalo
com cara de menino
pestanas de escorpião
mãos de foca
silencioso e sem vertigens.
A partir desse momento meti na cabeça
que a estrada continuava
seguindo, uniforme, as cadeias de montanhas
delicadíssimas plantas lupanares
tropeçando nos regatos e nas cascatas.
Para cima
haviam as pontes estruturais, magníficas
não sei de que ano, de que tempo.
Só sei que lá estavam
como tu
Oh! Pátria
manifesto profundo das minhas palavras.
E eu que nunca fui um rei
no meu planeta?!...
Nunca tive palavras
nem gestos
nem o medo dos infelizes
dos que procuram
acobardando-se no pouco que comem
olhando simbolicamente
pois foram para isso que nasceram!?...
Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
e sentir-te vagarosa como eu.
Que estranho destino o contemplar paredes
a olhar sés que não percebo
monumentos, pontes, estradas, rios, florestas
céus, antenas, murais, risos, imagens, curvas
como o pensamento que me alaga
me conduz e me deixa sem que nada perceba.
Como um grande vento, Oh! Pátria
o teu rosto aparece-me no espelho
salpicado de mil cabelos, mil olhos
a loucura enorme de gestos, de palavras
de desenhos e pinturas, de poemas
de frases loucas de sentidos sem sentido
máquinas e poses, grandes telas de sorrisos
fáceis manobras de testemunhos e estímulos.
Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
que é toda
e é nenhuma!
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
deo-la-deu-oh-linda
pintura de Pierre-Auguste Renoirquarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
amanhã saberei o segredo que há em-mim
pintura de Georgia O'Keeffeterça-feira, 17 de fevereiro de 2009
As árvores eram silhuetas breves
José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Hora segunda
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Idade que se compõe, quando no silêncio e no fresco da noite
Idade que se compõe, quando no silêncio e no fresco da noite
cumprindo o ritual antigo, nos baptizamos de céu claro e sem nuvens
com as estrelas penduradas num chamamento breve e perfeito.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Na forma e no sentido sempre me marginalizei
Na forma e no sentido sempre me marginalizei
sempre procurei projectar-me de encontro à lição
de que sabia ir gostar aprender. Porque, e a verdade é
não consegui aprender o que nunca gostei.
Nunca confundi a forma da obrigação
da satisfação ou do prazer de gostar.
Os discursos, cada um em-si, sempre manifestaram
uma linguagem e um sentir diferentes.
Mas tudo isto não impede as travessias do deserto, muitas e várias
em que as sagradas alianças nada valem ou a nada levam. Daí...
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Tudo é meu, porque vem de-ti
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Daí, as horas ficarem límpidas, como um enigma;
as horas ficarem límpidas, como um enigma;
um grande corpo inteiro onde acontece a voz inicial;
a memória de pequenos nadas; a alegria que se vê
sente e alonga como razão essencial da luz.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Que importa (sim que importa!?...)
Que importa (sim que importa!?...)
o que os homens intentam modificar
- num planeamento nervoso e adulterado
força mais do seu orgulho ferido
do que propriamente da desgraça acontecida -
se as consequências em nada alteram o que está traçado
o que está marcado, o que será para sempre nosso?
A minha vida será a tua
mesmo que lhe queiram dar destinos e rumos diferentes.
Ninguém se aperceberá que a escolha foi voluntariamente nossa?
Que partiu de-mim para ti e de-ti para mim?
Que uma semana juntos valeu mais do que dezassete
ou vinte anos de acontecido matrimónio?
Ah! como a desgraçada frustração humana
é tão própria dos que a personalidade não dotou
ou em que a inteligência não permite destrinçar em pleno
pois só o desforço se manifesta importante.
Mas é a esses, que gritamos a nossa vontade e a nossa verdade.
E creiam, os bastardos, que não temos medo. Nem vingança.
Temos sim, o destemor dos que se apaixonam
dos que se amam verdadeiramente
dos que são livres por si-mesmos.
Essa paixão, esse amor, essa verdade
essa doação da Natureza temo-la nós, só-nós
a quem a Terra ungiu de amantes plenos e naturais.
Isto é: amadores sagrados do que têm... amando.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Hoje há o chegar
Hoje há o chegar. Quantas ruínas
derramei em leis perfeitas? Quantas luzes
dei a olhos cegos? Quanto retorno ao nada
retirei de-mim?
Oh! aquela imensa poeira repetida
oculta fronte de dedos ágeis
existência de só existirem coisas
para lá de sabermos mistérios...
Já hoje é o chegar
esplêndido e definitivo
Hora certa do equilíbrio da nudez
segurança do sol para lá das horas
das máscaras
das vozes fáceis e gastas.
Oh! como a melancolia é grande
e o meu tempo pouco. Ou nada. Ou sempre.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Deixaram a terra produzir os seus efeitos
Deixaram a terra produzir os seus efeitos
e que efeitos foram, sobre a luz solar!?
A alma grande dos rios soergueu-se das margens
em cânticos de verde e rochas arredondadas
com o mistério das paixões por entre os canaviais
a estrada de Marte em frente, o fluxo de Vénus ao largo
e a gruta estreita de negro aparecida.
Receberam, como sempre recebem no meio das mãos
o teu corpo arrefecido, de olhos fechados e mãos postas
adormecido num sonho vagaroso e grande.
A alma dos teus poetas inundou-se-te no sorriso
que punhas na boca pequena, vermelha e cheia
sorriso acontecido ontem, ante-ontem e sempre
já que fora teu. Breve e triste...
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Os homens, os homens, eternamente os homens
Os homens, os homens, eternamente os homens
reflectidos nos espelhos das águas, nos labirintos
da espessa terra, composições de sombras de exércitos ávidos
de suicídios lentos, de solidões gritadas nas paredes
paredes de tantos lugares, de tantos prédios, de tantos museus.
Venham homens, venham com os vossos poderes suster as lágrimas
e a solidão e o desvario e a morte lenta dos oceanos
porque mais fácil - muito mais fácil -
é imaginar que conseguir
muito mais fácil do que iludir o gosto e o sangue.
Venham, porque sentirão o gesto torcer o emaranhado
ouvirão os ecos crescerem, variados, nas montanhas próximas
saberão dos rios que secam em tanto deserto.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
há canções ao longe
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
os caminhantes sem destino
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Sobra a cidade com os seus mistérios
Casas alinhadas no contorno do mar com cabelos à espera que o vento chegue.
Risos na noite de ninguém, que é o silêncio das estradas por onde corre a paciência dos que não têm sono.
Bocas abertas à espera da fome, que é o que todos esperam e nenhum pede, pois a terra é solta e chega até aos olhos com a coragem de quem existe.
Sobra a cidade com os seus mistérios, as suas luzes, o desencantado movimento, as suas fontes enganadoramente disfarçadas, pedra angular duma igreja que não tem contornos de Sé, quiosques ribeirinhos de matarem gostos, gargantas secas à procura de múltiplos líquidos e o não acabar de certeza que se esgota.
José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
O silêncio
domingo, 1 de fevereiro de 2009
No meu silêncio de escuta e visão
José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986



































