Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Além do nada só tu!


Danae, de Henri Fantin-Latour

No meio daquele corpo tinha o meu
rasgando-o em beijos de desfolhada;
a hora, não era tempo, não era nada
nem a noite se estendia pelo céu,
nem o sol despontava com a madrugada.

Os lírios lá estavam nos canteiros
bailando na nova luz qu'aparecia;
no meu sono despregado do dia
não via a caminhada dos obreiros
nem o rosto sereno que ao meu lado, dormia.

Oh! quanta luz, quanto desejo
de te ter, mulher!
O teu olhar é um beijo
que o meu corpo só quer.

José Manuel Capelo, Miragem, Editora Montanha, 1978

Além do nada só tu!

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Ser

pintura de Vilhelm Hammershoi


A razão de ser como sou
deve-se ao facto
de não ser como deveria ser!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Sábado, 4 de Julho de 2009

Rosas nos peitos dos homens

Ansiedade, de Edvard Munch


Ela tinha no rosto as cavas fundas das rosas
e no peito o segredo imenso dos deuses

Passeava-se no espaço perdido de várias dimensões
acompanhando o grito com as mãos..... varrendo
o silêncio pesado de véu de viúva

Da sua boca destaparam-se filhos..... vários
estranhamente doentes estranhamente em silêncio
estranhamente estranhos de si-mesmos
véus encobertos que nunca se destapam
nem descobrem nem fogem nem lutam
a lembrarem as cavas fundas rosas
no peito imenso dos deuses..... estranhamente em silêncio

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Sábado, 27 de Junho de 2009

No dia em que …

A jangada da Medusa, de Théodore Géricault


Será que o mar cresce nesse dia?
Tudo vai da lua, da sombra
da montanha, do rio, do luar…
Tudo nasce do nada como eu nasci:
Homem! Mas… que tive para dar?

Será que a sombra me vem cobrir?
Desce comigo a calma do morto
o sangue enegrecido, o corpo a mirrar
o silêncio sempre pronto
para me digerir e olvidar.

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Poema do quarto vazio


Bailarina II, de Joan Miro


Quarto vazio, mas não vazio no meu quarto
estou só, sigo desperto, um acordar farto
repulsa de ter nascido, a olhar o nada
nada, que só diz: ninguém de nada.

É mau falarmos sós, dizer nada a ninguém
olhar pausado num espelho nu: de quem?
Visita de tristeza esta, que faço a mim mesmo
sem saber o que dizer, falar solto, grito a esmo.

Pobre capêlo meu, que sustento na cabeça,
professor de orgia, pensamento, peça
e peça a quem pedir, ninguém me ajuda
aplauso do anfitrião de boca muda.

Então noite, minha harpia amiga,
minha brava companheira mendiga,
voz das trevas e horrores e soluços, que dizes?
Triste quadro este, de directrizes.

Ainda ontem quis pintar um quadro...acabado,
um retoque aqui, uma pincelada ao lado,
olho na mira, mira desfeita, cruz axial
e acabei por traçar uma diagonal.

Ficou belo! Digno de um Picasso...
Noite, noite, como me maço!...
Para quem hei-de eu falar
tão triste, tão triste o meu acordar!?...

Julgas-me louco? Não penso, nem calculo,
matemática dum zero ou nulo,
biologia dum homem de quarto
adeus do homem que sou e que parto.
..................................Já não me farto!

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

Sábado, 20 de Junho de 2009

TU ESTÁS TÃO VELHA !...


Visita, de Jacopo Pontormo


Tu estás velha
tão velha
como os monumentos cicatrizados no meu rosto
velha
como a luz pálida que se apaga no dia
velha
como os dias que morreram sempre iguais
velha
como os quadros que fazíamos em noites por acabar
velha
como as ruas a que nos chegávamos
velha
como todos os abortos que nunca nasceram.
Tu estás velha
tão velha
como no retrato que vi casualmente numa revista
como este tempo que passou e não foi muito
sem te ter e sem te ver...
Velha
tão velha
que já nem te distingo.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Quem me dera poder voar

pintura de Gustave Courbet


Que falem de mim os gestos, amor
que falem de mim os gestos deste entardecer e da noite
longo silêncio, estranha penumbra a mascarar-se
com a manhã que nasce só.
Era mais belo misturar-me com o sorriso
dessa tua alma cheia de alma
flor única que beijo e transporto nos dedos
que me fizeram à tua imagem
como um pequeno deus transformado em homem.
.
E nada se compara ao teu sorriso
a esse teu sorriso como linha de horizonte
fumo duma ave elíptica a passar pelo arredondado da terra
sulcando o veio do mar
abrindo as fontes das serras e os eixos das plantas
e os olhares dos homens e o geométrico dos telhados
e as grandes quilhas suspensas e o mar a não ter fim
e o fim a não ter mar ou o teu sorriso ou o teu destino.
Quem me dera ser pena ou asa ou algo muito parecido
como um grande manto de nuvens ou a plena claridade
duma madrugada a despontar nos meus olhos.
Ah! quem me dera poder voar no meio dos teus olhos
queimar-me nas chamas que irrompem do seio dos teus lábios
fustigar-me com o suor que sai em cascatas de vida
em flores de lilás de entre os teus dedos
e adormecer no sonho infinito no meio do teu abraço.
.
Não pretendia mais. Tudo o resto poderia nascer igual
com salpicos de todas as formas e olhares
com os gestos idênticos de quem estende as mãos
quem oferece o corpo, quem dá a boca.
As manhãs, que viessem floridas, estivais, outonais
primaveris, frígidas. Não me importava. Nada me importava.
Mas que viesses tu, unicamente tu
com o sorriso nas mãos e a alma nos olhos.
Depois, que aparecesse a Natureza e o seu manto.
.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Ode Mística

Golconde, de René Magritte


Aparentemente nada resulta.
O que resulta é não resultarmos de nós-mesmos
os mesmos que resultaram de outros séculos
com a mesma força que resultaram antepassados
linhas directas que deram eixo
às formas que hoje somos.

Paralelamente e com os sinais dos tempos
as formas foram aparecendo
tornando-se seculares
idênticas
sem que o sorriso se alterasse
com a maneira mecânica com que os cigarros
são feitos hoje.
Nada há a dizer quanto ao sexo
que nos deu a mão e outro sexo.
Nada há a dizer quanto à beleza
com que o nosso nascimento foi materializado.
Nada há a dizer quanto à forma
com que as andorinhas criam ninhos
por vésperas da Primavera.

Hoje sou uma badalada rudimentar
das várias horas que se erguem sem destino
um frio achado em mim-próprio
encolhedor de ombros ante a maior miséria que se viu
ante a miséria de encolher os ombros
ante os ombros encolhidos de miséria.
Estou farto de ser idêntico!

Idêntica era a voz que se me baralhava cá dentro
que me emolcionava o sangue
que me fazia vomitar de cobardia
e a que não sabia responder.
Idênticos eram os meus gestos falhos
os meus risos de pobre diabo
a minha identicamente paralela razão de não ser
as buscas contínuas de destino
os amores perdidos no vão duma escada qualquer
ou nos degraus de uma catedral de sinos ocos
observando o sacro prior
humedecendo os virginais fulgores
de uma beatíssima rata de sacristia.

Ironicamente
na casualidade que me confere
sempre passei por mais uma ou outra pessoa
todas iguais
aparentemente
mas com o defeito do senão
de se quererem assemelhar uma às outras.
Sensatamente fugi
e recolhi-me aos bocejos dum pintor de jardim
acarinhando as flores
como se fossem ondas fluviais
pássaros
como se fossem livros a desfolhar
céus
como se fossem marchas fúnebres
ou figuras
como se fossem raios a curvarem-se.


Do alto deste pequeno inferno
deste púlpito sem ornamentos
de frontal escadaria
sempre pude olhar a Deus
este Deus que me existe cá dentro
que sinto
mas que não vejo.
Este Deus que é a minha Fé
razão obscura e temida
como a tela dum filme de horror.
Deste Deus a quem rezo sem rezar
a quem me dirijo sem me dirigir
e a quem peço um menos de súplica.

Sim
este Deus que tudo encobre e tudo destapa
que é a forma do meu sorrir e do meu beijo
que é a luz deste poema
e é a sombra desta ideia.
Este Deus que deu manha aos homens
e celibato aos padres
já que são eles a cumprirem o mandamento
obediente e de castidade.

Sim
eu sempre tive o meu Deus encoberto em mim
sempre O tive com as lágrimas que escorriam verdadeiras
que escorriam e me inundavam as mãos
suadas de as segurar
esse Deus que era o meu segredo
das grandes noites de reflexo
das grandes noites de magia oculta
das grandes noites de sossego e paz.

Mas se vim do homem como ter Deus?
Não seria preferia ter barcos e aviões?
Ou mesmo várias mulheres ou vários homens?
Ou mesmo as ideias umas conta as outras?

Sei lá o que estou para aqui a dizer...
Sei lá porque falo deste mistério
que constantemente me envolve
e me deixa descansado quando nele penso!?...
Sei que quando me deitar deixo de pensar Nele
deixo de me dizer que Ele existe
que Ele não é mais do que o meu Eu a confundir-se
a minha sensação de medo e de culpa
a minha razão porque hoje estou vivo
e amanhã desapareço sem deixar rasto.

Mas se assim for
que o seja. Nada é mais natural
nem mais verdadeiro nem mais evidente.
O mundo
- que não pode ser as mãos de uma criança -
rida como um carnaval de indiferença
mascarado e fugidio
ambíguo e sem conseguir ser irónico.
E por isso as minhas mãos choram suadas
suam de choro
e põem-se em forma imprópria de oração.

Nos cemitérios os restos de meus pais
de meus avós
dos avós de meus avós
da geração antepassada que me ungiu
reclama em voz de sepulcro a minha voz.
E dou-a!
Possivelmente
muito possivelmente será para eles que falo
que enuncio um poema
que desdobro as palavras e firo razões.
Será muito possivelmente que grito
o meu grito de mártir e de diabo
se mártires são os santos
- em que não acredito -
e diabos os vermes que me irão comer.
Mas não.
Para isso há o fogo para que nada resulte
para que tudo desapareça
para que o monte de cinzas seja o lugar
onde os homens escolheram descansar.

No fundo és tu meu ser humano
disfarçado
fundo que nasce e não se completa
olhos de madrugada a cantarem razões
sorrisos de vésperas a anunciarem que as sombras crescem
e se diluem no morno dos nossos sentidos
que passam perdurantes de nós.mesmos
e se embalam no sonho-sexo duma noite por achar.
Assim somos nós
eu e tu
comungantes deste delírio que nos acode
desta presença que não é presença
desta fúria matizada e breve
que são os nossos corpos por se achar.

Mas entre uma noite e a madrugada
há o silêncio desta vez.
Há a maneira dos teus lábios a serem presença
e o encontro das tuas mãos nas minhas.
Por tudo e uma razão
nasceste na manhã em que Deus feriu o mundo
no momento em que o pássaro sentiu o tronco
em que o homem balbuciou o queixume do teu sorriso
em que a forma ganhou a íris do teu sexo.

No fundo
nada mais tinha a dizer.
Era tudo breve
breve
breve como o dissilábico da tua voz
infante
ínfima
única
a reproduzir
que o mundo só acaba nos lençóis.

E o que é o sonho
senão uma noite que se faz?
E o que é a manhã
senão um dia consumado?

Entre ti e mim
agora
há o silêncio que nos busca.
E não será que o buscar
é a forma que achamos própria?
Calemos o silêncio.
Calemos o fulgor que nos arde.
Calemos a própria voz e busquemos a luz
num reflexo de luz frouxa.

Ah! como buscar não perdoa!
E as tuas mãos na tua face
têm o querer duma ave de rapina
o gesto duma acção momentânea
e a busca de te encontrarem comigo
numa cama de pau e esteira.

Fugindo
tenho a nuvem do meu cigarro
diluído
fumegante
atroz sinal de que o tempo se completa
que perdura através do tempo
e que o mesmo tempo
é um sinal que não corresponde.
O tempo é um engano.
O nosso nascimento outro-tanto.
Mas também tenho que dizer que a minha almofada
é tão pesada quanto o meu cansaço
quanto os meus olhos que se abrem pesados
pela manhã e fogem para a água
com medo de secarem.
Por isso desperto e enfrento a luz.
Por isso observo os olhos dos que passam inutilmente
dos que agarram com as mãos as esquinas das ruas
lançam um sorriso e escondem lágrimas.
Pode bem ser que sejam eles os que verdadeiramente amam
os que passam em busca do modo e encontram o tempo perdido
os que por um pedaço de pão pensam ter a barriga cheia
ou que por não terem barriga julgam-se com o corpo fresco.
Pode bem ser que sejam eles os poetas e eu o antipoeta.
Pode bem ser que lhes pertença a rua ou as badaladas das horas.
Pode bem ser que leiam os livros que eu não leio.
Pode bem ser que não seja eu quem eles olham.
No fundo
olhar é distinguir uma aparência que se não distingue
uma imagem que por ser viva também é falsa
um corpo que por lá estar não se percebe.
No fundo talvez lá bem no fundo eu seja quem não julgo ser.
Talvez que eu seja a aparência inaparente
ou uma forma movediça que tem pés e mãos
ou o resultado duma catástrofe de leito.

Certo que a manhã vem brincar com a alma
vem arder onde haja um reflexo
uma mão uma janela um assomo de sombra
um riso infantil duma criança feliz.
Mas será que uma criança é feliz?
Perdoa criança
mas eu não quero chamar-te infeliz
eu não quero que me venhas dizer que a sombra te atingiu
nem que o pássaro caiu do beiral com a minha pedrada.
Não! Eu não quero dizer nada disso
mas somente perguntar-te se és feliz?

Acredito que a felicidade seja algo muito importante
pois mais do que ninguém tu deves merecê-la.
Mas à medida que fores crescendo
encontrarás pelo caminho a outra face do espelho
aquela-mesmo em que olharás e te verás diferente
enganada desiludida baralhada
sem vontade para nunca mais creres em felicidade
que foi feita pelo homem com a mesma argúcia
com que criou outros nomes e outros gestos:
a guerra como o exemplo mais intimo nele.

Mas um dia decidi pintar o mundo.
Estiquei o braço
levantei o dedo polegar
fechei uma das vistas
e tive a impressão de que as silhuetas
não eram tão nítidas quanto o horizonte.
Por isso voltei a repetir os gestos.
Aparentemente a diferença não era nenhuma
a não ser um ligeiro contorno que se adivinhava
numa frente paralela ao risco do horizonte.
Atentei bem com os dois olhos abertos.
Sim, não havia dúvida: era o mar! ...

Mar
explosão branca de carroceis em redor de monstros
sem vizinhança que lhes possam destruir a imagem...
Paralelipipedos de estradas inteiras
de volta ao mundo na razão de vinte e quatro horas...
Sobejos fossilizados que se mantiveram na razão de anos
como imagem directa duma luz preelítica ...
Acordar de muitos sonhos que se distinguiram nos tufões
e se martirizaram nas grandes tragédias de fundo ...
Mar
onde tenho eu o teu espaço?
Essa imensidão sinistra que me embala e me cativa
sabendo eu que és um assassino em potência!?
Forçosamente que terei um destino bem diferente do teu
um acordar com as suas distâncias e paredes
algumas árvores em redor e o silêncio
dos pássaros nas manhãs arejadas e dissipadas nas névoas
que não teimam em ficar...
Mar
de relíquias feitas em dias de longas horas
com o pranto das aves a mergulharem baixo
os penedos a saírem dos promontórios esguios
a minha paciência a não ter limites
e tu cada vez mais distante
mais distante
tão distante que nunca te vi nem senti
nem chorei pela perda das tuas marés.
Mar
hoje tenho um infinito que não desvendo
nem te abro no guardanapo de todos os dias
de todas as noites de todas as mazelas que me fizeste.
Quero-te grande
assim como estás
grande como a grande cordilheira que passa
por debaixo do meu olhar
olhos de luz afogada e mão branca
branca de mim vermelha de tudo
até de sangue que não pára de escorrer.
Mar
não quebres o meu silêncio e não o escondas no teu.
Não brinques com o meu sorriso e não o transportes
na fuga da tua raiva esverdeada.
O que eu quero não o tens.
Amanhece o dia e a luz solta-se de encontro à minha mão
que se estende pela cidade de rua sem almas.
O que eu quero não o encontro em lado nenhum.
Vem com o silêncio e afasta-se com o desconhecido.

Talvez amanhã o sol mude de posição
as mãos se ergam e os gritos estoirem
as ruas se encham e a cidade viva
para que o tempo marque o virar da História.
O resto
virá da Terra em palavras e livros...

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

HÁ CÉU AZUL NUM TRAÇO VERMELHO

pintura de Vincent Willem van Gogh
para a Maria Guinot



Há estradas que circundam o nosso sorriso
mares que circumnevegam os nossos beijos
montanhas que nos gritam como aves
pedras que rolam como mãos
o grande anfiteatro a parecer pequeno
e onde julgamos não caberem os nossos olhos

Só que a estrada é mais comprida que a nossa fala

As velhas persianas ... ao fecharem-se ... estalam
de secas ... gripam dos gonzos ... rodam nos eixos
com o barulho característico de quem se esforça

As mãos abertas buscam os contrafortes das vozes
as silhuetas das faces em ginástica apressada
mímica transfugada para as paredes do acaso
onde se escondem as sobrancelhas cerradas
dos palhaços tristes

Mas vêm as pancadas na madeira aberta

Molham-se os lábios com a saliva da Hora
o cabelo com o barulho do ar
a nossa alma com o nosso medo

Mas do céu azul há sempre um traço vermelho
a gritar o nosso desprezo ... a nossa fúria ... a nossa ânsia
os mares da nossa fé ... de inocentes martirizados
canetas de água-tinta ... a comporem epopeias
enfrente do rochedo enorme ... informe ... sedento

Mas é do meio das nossas mãos que brota o suor

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Os teus trinta anos


pintura de Gustav Klimt


São trinta anos!
É um pedaço de tempo feito
de modo preenchido,
um sorriso, um olhar, jeito
do dia passado-ido...

É a busca na luta, assim
o medo de ser e não ser,
diálogo que não tem fim
daqui estar e doer.

É pedir um pouco mais, sem razão
entre dois acenos de boca,
mascarar com uma só mão
o que na outra está oca.

Ruíram impérios, ideias
mil sinos de sons ufanos.
De noites de luas cheias
ainda só vão trinta anos.

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

Sábado, 23 de Maio de 2009

Quiseram-me

pintura de Edmund Dulac

Quiseram-me rei, nasci menino
sinal errado daquilo que sou
acento firme daquilo que fui
pedaço de corpo do que serei.

Quiseram-me mago, nasci pedinte
criatura de vida, de mãos de semente
olhar vivo de brilho infeliz
praga viva em existência desfeita.

Quiseram crente, nasci agnóstico
pedido impossível para quem não vê
lugar no futuro para quem crê
incógnita de que existo e de que fico.

Quiseram-me tudo e, afinal sou nada
imagem para esquecer, nome para apagar
tempo perdido sem nada ficar
excepto ossos, para a árvore ramada!...

José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

PELA PROCISSÃO

pormenor da descida da cruz, de Fra Angelico


A horrível miséria das chagas
a passar com o andor do santo
pelas horas premiadas.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Sábado, 16 de Maio de 2009

As longas horas de encontro

Jovem Cicero lendo, de Vincenzo Foppa

Longamente... a noite
a fácil luz de todos os delírios
de todos estes medos que guardo desde a infância
essa, que só me soube a trevas e a embuste
a memórias fáceis e desatirculadas
a longas horas de encontro comigo, a sós comigo
com os meus vultos e os meus delírios
a minha imaginação fácil e desempoeirada
acontecida em longas horas de sono vivo e feliz.

Quem me soube ver quando me procurava
nas imensas manhãs de um qualquer dia sem dia?
Quem me soube entender quando me perguntava
de onde - ou de que lado - vinha a luz
quando se distinguia a sombra incontrolável das trevas?
Quem me soube responder a esse passado
que, de tão recente
tinha a visão da minha orfandade
vista por tantos
e pouco, ou nada, entendida por poucos mais ?

Foi brevemente longo o meu desespero
a minha ânsia descontrolada
o lado outro, que não era meu, porque o não tinha
e não sabia a quem pedir!?...

Quem fez de mim o que sou hoje?
Quem se lembrou de me lembrar?


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

À noite, na cidade


Spike, de Emília Matos e Silva

para o Putchi


A cidade dorme de preguiça. Plena, convencida, farta. Na rua passeiam-se os donos com os seus cães de estimação, enfeite mais para se amar uma casa, do que para mostrar ao vizinho o leão que se tem. Um deles, ladra a bom ladrar. É pequeno, negro, absolutamente vivo, orelhas esticadas sobre o focinho aligeirado, olhar inteligente, gesto rápido. Tem uma mancha branca, lindíssima, à flor do peito. O dono passeia-se com ele na mesma lentidão com que a cidade se espreguiça. Olho-os, e a minha paciência passa à frente com a faiscante certeza de quem tem tempo... e aguarda.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Mágico fogo da inocência

Desenho de mãos, de Leonardo da Vinci


Deixei o sonho
-essa língua de fogo que me ata ao ser
ou ao instante que pesamos-
quando acordo com o sorriso
do mágico da cena e privilégio.

E que sonhos deixo passar
por entre os dedos da fortuna
- invios como o éter ou como o arvoredo
no seu imenso lago de aves e vinganças-
sem que me sinta inocente... e confuso?

Não procuro os sonhos
Os sonhos... sonham-me!

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon. 2000

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

ESTA MANHÃ QUE NÃO CONSIGO



Alegoria com Vénus e o Tempo, de Giovanni Battista Tiepolo


para o José do Carmo Francisco

Era longa a noite do poema
tão longa como o sibilino eco vagueando
na cálice espuma duma onda vaga.

E eu perdi-me a olhar os dedos
a frágil brancura que sempre me confundiu
ao procurar no infinito
a ponta de todo este mistério

Lá estava a manhã com o resto das horas
o ponteiro pontual que me fere a cabeça
me encosta o sono ao acordar repentino
se enfeita de muitas, múltiplas alegrias
e regresso ao acto consentido e bento.

Só que eu não espero, não posso esperar
não posso aguardar que os dias se repitam
e consigo, me voltem a trazer o mesmo
na secura das lágrimas que não participei.

Estou farto e seco.
Comigo se alonga a noite que diviso
as estrelas penduradas e o rasto do cometa.

Fica só a longa noite do poema
tão longa como o sibilino eco vagueando
pela memória dos homens que ficaram...

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

UMA GOTA DE ÁGUA


Chuva, de Gustave Caillebotte


De ti sempre esperei a serena chuva
aquela frágil gota de água
que me tocava a ponta do nariz.
Talvez que viesse com a luz
ou com a ponta do cigarro
ou com a tua agonia aparente.
Mas de ti sempre esperei
essa pequena gota de água.

Normalmente pensava
que ao meu redor existiam as tuas fantasias
ou pelo menos
entregavas nas minhas mãos
as tuas intenções.
A gota de água era um símbolo
um movimento novo
que juntavas ao teu sorriso
e que fazias acompanhar
do mais belo gesto.

Normalmente era verdade.
Só que no meio do entusiasmo
me vieste com loucas manhãs
com gritos de menina mimada
com falas de falsa donzela
com arrepios próprios do Inverno.
Aí, pedi que me desses de novo
a chuva serena
a frágil gota de água
para que me pudesse saciar.
Então, estendeste as mãos
e pediste que eu me fosse!...


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

PONTO DIFERENCIAL

pintura de Paul Klee

para a Isabel Laginhas


Dói muito mais a dor no nosso corpo
do que dói na dor o corpo nosso!

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

De ti, oh! amada


Vénus adormecida, de Giorgione


De ti, oh! amada,
do murmúrio sonoro da noite, recebi do teu corpo
a imensa paz do teu busto, o prazer determinado do teu olhar
o nervosismo mágico das tuas mãos sôfregas
as palavras dos outros, como ecos de erros aos nossos ouvidos.
Se não havia silêncio, havia, pelo menos
o som da minha luz nos teus olhos.
Nervoso, nervoso de mais, isso bastou a que ali não ficasse.
Despedi-me um tanto apressado
como quem não sabe o que fazer ou por onde começar
quando tudo se precipita ou antecipa à nossa frente.
Apeteceu-me pegar-te pelo braço
e arrancar-te do meio daquele espaço sem realidade
sem qualquer valor ou forma, sem sentido nenhum.
Faria algum entendimento estarmos ali, nós que ali não estávamos?
Porém, e na verdade, que direito me assistia, que direito tinha
se ouvi de-mim (ou no poema da tua voz!)
que a litania era estar sozinho
estar com a minha correria desenfreada e vaga!?...


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Sábado, 2 de Maio de 2009

cabeça de homem, de Fra Angelico

Amore mio, com o se te pudesse explicar, em breves palavras
toda a incoerência, toda esta sombra de princípios, que existe
na consciência dos homens, na mente da Igreja, nas falácias dos
conselheiros nas mãos das grandes fortunas de Itália,
nas mãos do mundo?!...
E eu aqui, aqui preso nas masmorras dum cardeal tirano
que empreendeu perseguir-me pelas estradas e cidades da Europa
e prender-me para seu gozo e prazer, como se fosse um assassino
- antes o fosse! – ter-me à sua disposição para que renegasse
a minha fé e a minha consciência, os bens mais preciosos de que
disponho
faço uso e sigo, para dar-me e aos que me escutam, - esta infinidade!-
consciente de que poderei nela errar, mas que sinto estar certo
quando a explico, a uso, a faço entender e reconhecer
nesse Deus – que me espera -, como unidade infinita
na conciliação dos contrários, como causa imanente do Mundo.

Amore mio, aqui te segredo a minha paixão, a minha última palavra
o sentido da vida e da eternidade, essa conjunção que me torna
presente
e conquistador do eterno, na mente dos homens, na consciência
dos povos
na imensidão do futuro, que sempre foi o que procurei
nesta minha vida, errante, brusca, dilecta, mas apaixonada:
por ti, por mim, por esse Deus – a Sua causa e Destino – omnipotente!

Guarda-me e segreda-me, como se te lembrasses dum velho
que te segredou as últimas palavras e os últimos pensamentos.
Guarda-me, como eu te levarei, no último grito, entre o fogo da
fogueira que me consumirá o corpo, o sangue, o cérebro
mas nunca as ideias que deixei e consegui fazer vingar.

Guarda-me e segreda-me… o teu louvor e a tua lágrima.
.
José Manuel Capêlo, no romance sobre Giordano Bruno « Heróico Fogo da Primavera » de Sabina Ricagni, Zéfiro, 2008

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Ali estávamos nós, no rubro em que os tendões se desgastavam

A escola do amor, de Correggio

Ali estávamos nós, no rubro em que os tendões se desgastavam
em que as surpresas se animavam no canto da pele
em que a luz se limitava no pequeno sinal que saía da aparelhagem
a enunciar distância. Era nas nossas cinturas
que se armadilhavam as mãos, enquanto dormíamos.
Era nos nossos peitos que se surpreendiam as bocas
enquanto respirávamos. Era nos nossos sexos que estremecia a onda
que nos empurrava um contra o outro
aninhados em brilho de gestos, enquanto vivíamos. Sorrindo.
E enquanto tudo isto se enunciava, era a nossa língua
a carne onde habitavam as vésperas das folhagens.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

O velho moinho transformado

Cavalos de Néptuno, de Walter Crane

O velho moinho transformado
acolhia-nos com a pedra mó no lugar do sagrado, bem fixa
como a estrela polar que nos encaminhava as mãos.
O corpo. O instinto.
Deixamos para trás o mar
na longa onda que nos recebeu em pleno
como se o voo da gaivota, que entretanto passara
anunciasse o clamor dos deuses na era plena...

Então, eles escreveram para que se anunciasse:

Aqui,
junto ao grande mar-oceano
em que navegámos as nossas ânsias, medos, desejos
calados ficámos, falando somente, e em uníssono, no oiço-te e ouço-me
em que contemplámos os teus olhos ligeiros, brilhantes, únicos.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

Da louca paixão do corpo

Amor sagrado e profano, de Ticiano

Mais do que a verdade dos sentidos
é o que corre pela mão do vento que nos cerca
inundando os vales que as mãos procuram
e os nossos desejos ferem de ânsia.

Impossível dizer que a indiferença está em nós
quando um olhar surge. Possível e certo
é marcarmos o segundo com a presença do corpo
invadir o grande vale com as mãos abertas

desfolhar as margens com o orgulho do menir
sem que nos lembremos que a terra
é o lugar em que descansamos o nosso sentido.

Mais do que a verdade da vida
é a lonjura do corpo em que nos afogamos
e bebemos o delírio, o instinto e a indiferença.

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Domingo, 26 de Abril de 2009

A CINTURA DAS LÁGRIMAS

desenho de Parmigianino
para o Henrique Madeira


Ainda
a cintura das lágrimas
nos olhos escondidos ..... mas brancos
pelas luzes sombreadas
que arrefecem a alma.....no frio da praça.
.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

O RASTO DO POEMA

Manhã, de Camille Pissarro

Viera com a madrugada o rasto do poema
o sentido das luzes a apagarem-se dos candeeiros
a grande mancha da cidade a aparecer visível
e a minha grande alegria ao sentir-me vivo.
.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Janela

pintura de Jan Vermeer
para a Ema Brandão


Gostava de ter tido um olhar.
Porventura um sorriso
mesmo que não fosse
(e só)
para agradar ao espelho.


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Qualquer realidade é como uma andorinha à procura do beiral da Primavera

pintura de Albrecht Dürer


Nada (mais) resta a não ser o tempo fazedor de passagens fáceis, jardins públicos, mãos abertas, olhos nos olhos dos que comem pão amassado pela dureza das árvores, pelo contorno dos lábios, pela facilidade da voz. E há o sol, imenso roteiro de peregrinações, ruas paralelas, alianças nos dedos, tapetes de relva verde e o ocaso dos bancos dispostos ao acaso. E o mar de ondas vertigens, pássaros salgados, gestos de espuma e rosto de rochas esfíngicas, esculturas marsupiais de ventre para fora a lembrarem sombras apanhadas ao vento. E há ainda, o rosto que se espanta de encontro ao soluço do dia, de encontro à mentira da boca, de encontro ao silêncio do gesto que encobre a alma. Nada resta, a não ser, sonhos! Há passagens no céu que o demonstram, frutos na terra que os habitam, palavras que os espreitam sem lhes tocar, como se toda e qualquer realidade conseguisse apanhar um sonho na palma da esperança, vã. Qualquer realidade é uma andorinha à procura do beiral da primavera, quando as folhas se erguem ao vento, ou quando, o mar se recolhe mansamente à queda areia. No sítio da primavera, há sempre uma árvore levantada no meio da impossível vegetação. As rochas suam com refluxos de espuma e o grito que se ouve, é menos sonoro porque se não distingue na folhagem do vento. Nem no entercalado do casario. Juntam-se os (i)mortais, enquanto homens: nados, voltados de barriga para o lado, completamente cheios, no grão da publicitária esperança.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Domingo, 19 de Abril de 2009

Lugares de todos os lugares

baptismo de Cristo, de Pietro Perugino
.
a minha tia-madrinha Isabel Capêlo Gonçalves


Sabes tia,
tudo o que contigo aprendi nessa infância aberta
entre a fugidia maravilha dos dias jovens e o anguloso destino
dos dias preparados por sábias mãos, o encontrei nessa terra albicastra
que me foi lugar de nascimento, sedução e lembrança.
Contigo vivi o cheiro do azeite das ladainhas a iluminarem santinhos
postados em nichos e pequenos altares, aqueles a quem expressavas a tua fé
romana, outrotanto pagã, entre deuses e demónios que te perseguiam e enlutavam
principalmente quando acendias ou incensavas cadinhos de intenções
naquelas noites em que a substância dos dias e o enredo dos homens
faziam oráculos todos esses que se comemoravam para lá de todas as datas.

Sabes tia,
também jamais esqueci que essa linha recta invisível, mas seguríssima
que enfileira Monsanto com Idanha-a-Velha passando por S. Pedro de Vir-a-Corça
por essa ermida escondida entre penhas e silêncios, feita de mistérios e segredos
se tornasse um dos lugares sagrados que as pedras guardam e a terra cala
ou se lembrasse como princípio e fim de um rito que se prolongou
até que os homens se apercebecem de que não é com o furor da guerra
nem com os enganos da paz, que tudo se esquece ou apaga
mas sim pelas frases que se murmuram e prolongam pelos dias
— de todos os dias, até aos dias das pedras e das estrelas —
em que as evidências se colocam e se decifram tão distintamente
como qualquer documento deixado em papel, madeira ou pedra.

Sabes tia,
o meu poder, aquele que baptizaste e sagraste com a tua mão
não foi tirado do vento nem dos olhos dos homens: veio do ciclo da terra
dessa mesma que me ungiu como equinócio e solstício
de verões e invernos que se prolongaram e juntaram, como as marés
— esse vaivém contínuo de movimentos de horas e dias.
De ti, tia, guardo o encantamento do segundo e do lugar
da tua mão e do teu riso, também dos teus gestos e memórias
para que saibas, já que não precisas de me lembrar, porque o descobri
que a soma da realidade da vida, desta terra que pisámos e guardámos
é a existência: a eterna lembrança feita, na visão da sombra e da luz.

José Manuel Capêlo,


Lisboa, 24 de Outubro de 2002

Sábado, 18 de Abril de 2009

COBARDIA

pintura de Amadeo Modigliani


Apetece-me gritar o teu nome
para que todos o oiçam
e fugir depois...


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Primavera


Vénus Verticordia, de Dante Gabriel Rossetti

A laranjeira que me ofereceste
é a mais bela árvore do meu jardim.
Enquanto que as outras desaparecem ou vão secando
a tua cresce e expande-se com os seus frutos
a sua seiva nova, a majestade intacta.
Poder dizer-te que começou a Primavera!...
Mas que sentido tem isso tudo
quando a lembrança do tempo é lembrança anterior
a tudo o que se vem afirmando...naturalmente
como naturais são os nossos olhos ou as nossas palavras
o rigor que com que dizemos: amanhã é um dia eterno
e não estou cá para o ver. Disse-o em Paris
quando Paris era a capital cultural do Mundo.
Repeti-o em Londres quando Londres se começava a libertar
da oligarquia da igreja católica e se tornava a Meca dos protestos
dos novos ensinamentos, das novas descobertas marítimas.
Mas para que te digo eu isto tudo
quando sei que a laranjeira que me deste
é a mais bela árvore do meu jardim.

José Manuel Capêlo, publicado no romance de Sabina Ricagni, Heróico Fogo da Primavera, Zéfiro, 2008

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Fogo

Casamento do Céu com o Inferno, de William Blake


Deitem-me à sombra do loureiro
para que descanse nos sonhos eternos
junto à pedra tumular que ganhei aos celtas
gravada que fizeram a sua suástica
de braços redondos, seculares e idênticos
Deixa que me sepultem entre os dois
Para que me lembrem nas cinzas
Em que me quiseram desfeito.
Lembra-me no silêncio
para que o meu sorriso seja o mesmo
sempre, sempre igual ao que te repeti
ao longo de todos estes dias, estes anos
igual à força duradoura de um amor eterno.

José Manuel Capêlo, publicado no romance de Sabina Ricagni, Heróico Fogo da Primavera, Zéfiro, 2008

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Promontório

pintura de Eugène Boudin

Como um sinal do vento, o promontório ergue-se pesado de encontro ao grande mar-oceano. As casas aglomeram-se no amontoado da vila e a grande fé é correr de encontro ao mundo que se esconde para lá da invisível luz.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Terça-feira, 14 de Abril de 2009

ENTREGA

Homem com mulher nua, de Pablo Picasso



Regularizo ......molemente ........o passo
finjo que brinco .............com os olhos
destapo ........a tampa ........do universo
e ........entrego-te
de bandeja ........os meus dentes.

Faz deles .......o que quiseres .......menos
colocá-los ........ na tua ........ boca.



José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Domingo, 5 de Abril de 2009

Infinito em transparência

pintura de Thomas Gainsborough

para Iris May Walker

Tudo o que existe, pode existir para lá do que os olhos vêem. Nada na terra é igual; nem as mãos que a construem para lá do que é. Um rio enche-nos de infinito sossego. O mar de brusca solidão. O céu de infinita melancolia. Os homens de irremediável pavor. Tudo se mistura com a delicadeza das folhas em estranhíssimo bailado por entre o intrincado dos ramos. É folhagem e o manto da floresta. Mas tu, que és mãe, neste universo sedento e alheio, podes imaginar o que sinto ao olhar o cansaço dos olhos, o peso das mãos, o movimento das folhas que o vento levanta. Tu que és mãe, podes saber que te sinto um imenso rio, um infinito em transparência.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Com a paz nos olhos cheios

Inspiração do poeta, de Nicolas Poussin

Com a paz nos olhos cheios, olho a noite. Que me importa que ela me não olhe, se eu a olho? O grande manto fascina-me e amedronta-me, como situação paralela e singular que não consigo desfazer. Há em mim, perturbação, arrepio encalorado e estranhíssimo, como se uma fagulha de imenso frio, me varresse e me penetrasse com a ligeireza de um estilete. Os olhos enchem-se de grande mistério, do que está para lá da razão normal e concebível, tentativa impossível de descortinar o que se sente, mas que se lhe não pode dar forma. É como um grito saído do peito dum morto. Como um som gritado de dentro da terra por animais mumificados. É estranho e fantástico porque acontece com frequência e não com a raridade que lhe faz a excepção.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Oh! minha Ilha-Verde da paixão

Rochedos em L'Estaque, de Paul Cezanne

Oh! minha Ilha-Verde da paixão

como a nossa Verdade não se esconde, nem se encobre
não tapa o que o sol descobriu para nosso perfeito defeito e conforto.
Este, o grande mistério-verdade que a terra nos proporciona;
porque sabendo-nos, sabe-se!
Sem hipocrisias, sem fingimentos, sem adulterações
na pequena fábrica do nosso aconchego e enlevo.
.
Como razão de muitos dias
segredas-me o teu querer e a tua paixão, à mesa do tempo
por entre o deslumbramento das lágrimas
na amadurecida ausência das perguntas
no transbordante recolhimento das respostas
na impenitência que te faz perfeita
.
- luz única da Luz!
.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

MONTESEGURO

pintura de Jean Fouquet


para o Lud

Tiraram-me de cima as vestes de esmeraldas
enquanto adormecia.
Uma Dalila no tempo
cortou-me os cabelos
e ao som de marchas
fui parar a um cemitério sem ciprestes
enquanto homens juntavam piras
no centro do castelo
para imolarem outros-tantos
que se juntavam nas masmorras.
Perdera-se o vaso
mas ganhara-se o reino dos céus
enquanto a fortaleza permanecia calada
- lá no alto-
transponível por uma só entrada.
Movimentavam-se aí as sombras dos albigenses.


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Terça-feira, 31 de Março de 2009

Destino

pintura deFrédéric Bazille
para o Pedro Oom,
.
no seu túmulo de pérolas
e jade e riso cicatrizado
Deixar nos meus olhos a saudade de ficar
e seguir no tempo sem vontade de lá estar.
.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

A paixão de amar

A origem da Via Lactea, de Tintoretto

Deixaste-me, amor, no dizer que sente
esta minha alma castigada e gasta.
Do tempo, que foi longo e foi presente
bastou que a mão se levantasse casta
.
no esplendor deste desejo inocente.
Mas quê, se tudo o que se anima, basta
por si, em imagem diluída e carente
ante o calor que nos consome e arrasta...
.
A tentação do tempo é modo fugidio
como a maresia que vem e vai
na ondulação do espraiado mar.
.
Eu, que tenho em-mim este ardor frio
nunca me lembro se da minha alma sai
o amor ferido ou a paixão de amar.
.
.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas , Aríon, 2000

Domingo, 29 de Março de 2009

Tempo de regresso

pintura de Eugene Boudin
.
Fica-te o silêncio, as longas noites e o vento
com que sonhaste o regresso do infante adormecido
por entre as vagas que se levantam do mar imenso
ou no seio da floresta, em verde aberto.

Escuta amada, o murmúrio dos ecos
no levantar das folhas de encontro à brisa
ou a visão do sol, que se dilui na claridade da noite
lugar secretíssimo que ninguém descobre
e onde só nós estamos.

Que sei eu dizer-te, que já não saibas ou penses
- mesmo que o meu sorriso se ilumine de sombras -
se só tu decifras a lonjura da terra e o rebordo do mar?

Que sei eu provar-te que não me tivesses dito
senão esta natureza que se criou em-mim
mas que veio de ti, sem que jamais o soubesses?!...


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

José

Melancolia de Paul Serusier


José,
deixa que a tua fraqueza encolha os ombros
que os dias se levantem azuis e acabem em chuva
que a tua alma parta sozinha e viaje sempre
que o teu grito seja o eco no próprio vazio.
Dentro de ti, lá bem no fundo, és tu...
Ninguém te conhece. Os olhos são cegos
as mãos imensas, o frio ímpio, o calor tórrido
e todos têm Pátria e todos têm gente
só o frio que o teu olhar sente
é mais quente
......................que todo o sol no mundo.

José,
vai, descobre por ti mesmo cada erva na planície
cada toca de coelho bravo, todo o ninho de ave
toda a fogueira a arder no finito distante
toda a chuva e todo o vento
todo o enigma do poema - que é o teu!
Quem te pode falar as palavras e os risos
o choro, as emoções, os arrependimentos, os gestos
as miragens, os quadros, o poema?
Todos estão fartos, e cansados, e tu, vives
no mundo que te ignora ou te condena
sem mesmo que ele-dele tenha pena
embandeirado em crena
............................um arco desfeiteado.


José,
escreve o teu poema e deixa que o mundo continue
porque nunca houve um quadro acabado
sem que uma mão o pintasse!
Não tenhas remorso desta vida, deste tempo curto
destas horas fartas de rugas, de mãos cheias de vício
onde o sol se põe - como em todos os lugares-
porque a promissora morte, a morte inesperada e decente
não é ingénua, nem solitária, nem consente
que toda a mente
......................a leve para longe de si.


José,
assim, nunca estarás só ou insatisfeito
nesta lenta
........... e triste
................. caminhada
.................... dos dias...


José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

Quarta-feira, 25 de Março de 2009

LONGOS BRANCOS BRAÇOS


pintura de Pierre Puvis de Chavannes

Olhei na estranha montanha meu amor
que os dias não passavam iguais
que o reflexo do sol tinha a imagem da água
que a pobreza do mundo compreendia a imagem do céu
que ontem fora um dia longo
que hoje fora um dia sem qualquer dia
que amanhã irá ser um dia curto

Olhei na estranha montanha meu amor
os cavalos empinarem-se de riso
os archotes iluminarem a luz
a água vir dar de beber à sede e ao suor
as árvores baixarem-se na sombra seca
os teus longos brancos braços virem-se estreitar
de encontro ao amanhã que não virá

Olhei na estranha montanha meu amor
o meu gesto a cruzar-se no tronco
dum candeeiro sem lâmpada

Era o largo em que circulava o fumo do meu cigarro


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Terça-feira, 24 de Março de 2009

LUZES... COPOS


Le buveur, de Paul Cezanne

Deixem-me as luzes adormecidas no eco
as garrafas apanhadas no copo
e... serei eu!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Como se não bastasse

pintura de Amadeo Modigliani

Como se não bastasse
como se do vento sibilassem nuvens perpétuas
o clamor invadiu o lugar e dei por mim a segredar-te:

Os teus olhos eram azuis e bastavam-me, como o recanto ligeiro
em que abraço os teus ombros, o teu sorriso, a tua boca.
Inunda-me de ti, para que ofereça à terra o lugar perfeito
em que durmo o meu sono (ir)real. Deixa que te traga o silêncio
como me deixas o corpo, em contornos de mágico azul
e louco delírio. Corro-te as pernas com as mãos suadas
com a boca pronta, com o arco a pedir a flor do teu chamamento.
Breve, perfeito. Teu!... E é de ti, oh! amada - ermida do meu silêncio
oráculo do meu olhar, lugar do meu recolhimento, tempo da minha
espera - que ofereço em bênção, o calor do meu corpo
a forma (im)perfeita(?) que me espera e se te oferece.
Que me saibas guardar, como eu a ti, neste final do tempo
lugar da primavera em que crescem todas as estações.

Então, vendo que éramos dois
os deuses calaram e resguardaram-se no seu lugar.

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Domingo, 22 de Março de 2009

Quem correu comigo ao longo do rio e se transformou em mar?


pintura de Claude Lorrain

Quem correu comigo ao longo do rio
e se transformou em mar?

Quem comigo veio na longa sombra descendo as escadas
aquelas longas e incomensuráveis escadas
que seguem do abismo até ao abismo e nos transportam
numa lentidão sôfrega, ao mar em frente
ao mar do silêncio e da calma, da aflição e do instinto
sem que nos possamos deter?

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Sábado, 21 de Março de 2009

Vieste igual, porque vieste tu

pintura de Georges Seurat


Vieste igual, porque vieste tu
estrela de sílabas onde se contempla a boca
infinita face em que o suor escorre e o sorriso se anima
lugar de encontro onde a luz tem som
sinal vindo do claro-escuro onde tudo se destrinça e se esfria
-porque infinito é o eco da alma! -
malha sagrada onde se tece o Império, o Segredo
o velo temporal da Humana criatura, sílaba enunciada do silêncio.
As horas ficaram, porque eram!
Ruas intemporais de tantos passos dados
seguindo os caminhos habituais
os lugares destinados, as cadeiras à espera.

Sobre nós, corria o prédio de três andares
forma onde se esbatia o nosso ímpeto e o fulgor do suor
realidades de noites que se evadiam na ternura das dunas
ali à frente, com o mar em refúgio de ondas
perdida mancha duma palavra constante e vibrátil.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

ADORMECER

Miranda, de John William Waterhouse


Deixem-me a noite carregada de suspiros
adormecer a lua. A manhã virá
e com ela, o tempo imperfeito.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Quinta-feira, 19 de Março de 2009

de então...até agora

A leitora da sina de Michelangelo da Caravaggio



Como vai longe a minha infância
mascarada do gelo da serra
onde nasci, entre a vertente da Estrela
e o leito do Tejo, ainda fraco.
O crepitar das fagulhas de inverno
e o suor escorredio do verão
o amor e fala suaves de minha mãe
o chorar rabugento e vivo de minha irmã
o saltitar para a rua empoeirada
e a soante tareia por chegar tarde...
Tudo isto, em tempo de férias...

Mais longe, entre o fronteiro e o alto
do casario lisboeta, entre esse mesmo rio
e as pradarias verdes ribatejanas
onde cresci nos primeiros passos duma juventude
quase despreocupada, entre
a voz suave e o amor de minha mãe
as partidas de minha irmã, a tomar forma
o saltar p'ra praceta arranjada
postada mesmo enfrente
e a soante tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aulas...


Ainda mais longe, entre terra e terra
da vizinha Espanha e do antepassado Marrocos
na plena seiva uivante da minha adolescência
na forma gritante, do quero e posso, do
aqui mando porque me crio e defendo
nas cartas demandantes de aflição material
e da fome no estômago de dias sem comer
no amor e escrita suaves de minha mãe
do eco de desaprovação de minha irmã
do voltar para casa com ar empoeirado
a reprimenda e o sopapo por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aventura...


Quando agora, já mais próximo
entre o mesmo casario e o mesmo rio
com a força dos anos ainda forte
pai duma filha que nasceu chorando
primeira da minha composição-macha
seiva do meu grito breve e fecundo
do eco uivante de todo o meu ser
sem amor e palavras suaves de minha mãe morta
duma irmã que perdi na separação dos bens
com o corpo ainda quente daquela que muito amei
e que nunca mais me daria a reprimenda
o sopapo, a tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de angústia...


Quando ainda mais próximo
entre a partida e o regresso de cada voo
que é o meu trabalho e o meu sustento
senti a força do mundo e amei a mulher
na forma que é, na força que tem
voltei a viver e a sorrir e a chorar!...
Então, sim, então escrevi tudo o que é meu
na forma sincera do todo que me habita.
Escondi também, criando a forma, a expressão
daquilo que não sou e nem serei...
Tudo isto em tempo de meia-felicidade...


Quando e ainda mais próximo
mais uma filha tive nascida na britânica ilha
de carne lusa e carne inglesa
que não chorou nascendo, nem corou gritando...
Quando mais outra veio do mesmo modo
do mesmo corpo, do outro corpo e do mesmo sítio
em dia único de nome de rosa encoberta...
Assim, que reste o tempo de vida
olhando da minha infância a terra serrana
e o coito da grande urbe em movimento
- palco de gente movediça
crepúsculo de deuses e feras
minadas de ideias que saem e não nascem -
assim, que reste o tempo
entre o casario e o rio enquanto viver...
Tudo isto em tempo de rotina...



José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

os cafés não podem morrer!

pintura de Jean Béraud


Não, não, os cafés não podem morrer! ...
Não podem ser transformados em bancos
em vazadouros públicos, em memórias desarticuladas
em banquetes de opíparas magias
em casas de curta duração.

Onde estão os meus cafés perdidos
no meio do meu orgulho
da minha fronte de amigo vizinho
criador de palavras e de imagens
de puro amor às ideias?

Não, não, os cafés não podem morrer!...

Não deixem desaparecer as mesas
as bicas, os bagaços, os cinzeiros
a nossa alegria ou tristeza
de falarmos de cadeira para cadeira
em que cada conversa é uma ideia
em que cada ideia é uma geração
em que cada geração é a própria história.

Não, não, os cafés não podem morrer!...

Não pode morrer o que mais sagrado é
para todo aquele que ama a vida
a liberdade, a alegria de se saber
quem é e não é
e que o leva ao mundo maravilhoso
do ar empolado de fumo dos cigarros.

Como poderá morrer um café da avenida
dum parque, duma rua, dum largo
duma praça onde voam pombos, passam pessoas
caminham turistas e correm ladrões
que por serem ligeiros, se espaçam nas massas
das multidões desatentas e confusas?!...

Não, não, os cafés não podem morrer!...

Vivam os cafés abertos, os cafés-concertos
os cafés-botequins, os cafés Martinho (d'Arcada)
os cafés Gelo, os cafés do Chiado
(Brasileira, Benard, Tavares, Grandela)
as ruas a subirem, as ruas a descerem
os olhos falando, as mãos pedindo
a eterna bica e o quente bagaço ...

Vivam quem os inventou!
Nada, nada os poderá transformar
desaparecendo do nosso conforto
do nosso sentir de clepsidras
de graníticos lepidópteros
fantasiantes mancebos surrealistas
fantásticos plagiantes presencistas.

Não, não, os cafés não podem morrer!...

E se o fizerem
acabe-se Lisboa !!!!!!!!!!!!!!!!!

José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

Segunda-feira, 16 de Março de 2009

há tanta gente... tão pouca gente

cena de Carnaval, de Francisco de Goya

Há tanta gente...
Uma enorme quantidade de gente!
E dessa gente...tão pouca gente.
Que me interessam livros ou poemas
se os deitei fora?
Que me interessam gestos e palavras
se ficaram pendurados à porta?...

Deixem-me bater as palmas
para chamar os sonhos
se é que os sonhos vêm com as palmas.
Deixem-me querer meter
no sorriso do louco
que me apareceu pela janela... a chorar.

Há tanta gente...
E eu, sem vontade de chorar!
Ah! quanta vontade
quanto dizer que sim
chamar os sonhos, sem bater as palmas
meter-me no sorriso do louco
que me apareceu pela janela a chorar.

Há tanta gente...
Uma enorme quantidade de gente!
E dessa gente... tão pouca gente.
Tenho sorrisos atrás de mim
palavras, com sentido, um pouco mais à frente
dedos que se estendem e procuram copos
que o vinho semi enche.

Tenho olhos que me olham, sem me verem
se bem que pensem que o façam.
São olhos que só me olham
e não me sentem!

Ah! quanta vontade
quanto dizer que sim
que venham todos e chamem os sonhos
sem baterem palmas
sem serem livros e gestos
poemas pendurados à porta
e, meter-me no sorriso do homem
que me apareceu, pela frente
a olhar
sem me ver...

José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

Sábado, 14 de Março de 2009

O desejado

desenho de Hans Holbein the Younger

Nada é mais frágil do que o gesto tornado movimento e as ideias em forma de loucuras. Sempre pensei que nos oceanos como formas de grandes delírios, nos rostos dos homens olhando-os absortos, vagos, tementes, heróicos, em cima das falésias, infalivelmente irresistíveis perante o desconhecido que se encontra para lá do que é minimamente visível. Por isso, na sua loucura fácil - que é forma própria de temeridade - montaram corcéis de madeira e vaguearam-nos, cobrindo as cristas com apagados pedidos e cingidos corações. Entre o escorbuto e o tubarão, a distância era uma vaga mais forte, sinal de deuses escondidos e atentos, risonhos ou sérios, perante a odisseia dos protegidos. Nunca ninguém imaginaria que tal acontecesse e, muito menos, que tal conseguissem. O maior pecado, a maior honra, é o que o faziam com aquela cega fé de quem sabe que alguma coisa se encontrará para lá da distância, infinito horizonte que é curto e vário. O resto, na conquista da terra, é a imagem do encoberto a vacilar constantemente, nas mentes dos que ainda acreditam que o nevoeiro é o único meio de nos fazerem chegar o desejado do Quinto Império.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Há um sonho dentro do teu olhar azul

ghirlandata, de Dante Gabriel Rossetti

Mais do que o horizonte lento e suspenso, há um sonho dentro do teu olhar azul, que sonho múltiplas vezes. Espécie de onda a entrar em qualquer infinito, a varrer-me a lembrança, a possuir-me as mãos, como se todo o azul fosse terra e mar nos teus olhos.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Quinta-feira, 12 de Março de 2009

cresce em-mim a cidade

S. Vicente, de Emília Matos e Silva
.
cresce em-mim a cidade, com o sol queimando as arestas
do vento. depois, em uníssono
vagueiam os passos na procura direita da posição
que é aquela que os homens tomam quando se espantam
ao se encontrarem direitos, de se verem em pé
de continuarem vivos.

os homens vivos?!...
os homens com as cabeças levantadas, ainda?!...
os homens com estas personalidades que os tornam
distantes de tudo e de si-mesmos
como sombras resguardadas no canto da primavera?!...

cresce em-mim a cidade deste País tão belo
e de homens que andam sem saberem para onde vão!


José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Quarta-feira, 11 de Março de 2009

pelo outro lado da terra

Boreas, de John William Waterhouse

pelas portas azuis que Nokin me abriu, enquanto a fala me chegava pelo outro lado da terra, pude olhar-te no interior dos teus olhos verdes, do teu rosto franco, do teu cabelo negro. as mãos caíam-te suspensas ao longo do corpo e na boca entreaberta havia o manto branco do teu sorriso, alinhado por entre o vale estendido do vermelho dos teus lábios. vieste-me acordar enquanto a manhã durava nos acordes sibilinos da cidade a despertar, com o gaguejar do bocejo nas gargantas de mil almas.
estendeste-me as mãos. acariciaste as minhas entre o delgado suave das tuas e o finíssimo risco amarelo, transparente e próximo veio erguer-se entre o meu sono e o teu acordar.
nada mais havia senão o eco a transportar-se ante o sol que se erguia nessa esplêndida visão que a manhã traz e o momento transporta. ficamos nós, apenas os dois suspensos ante o ruído que se levantava lá fora e o manifesto silêncio que se transportava no nosso quarto. ruídos paralelos duma noite que nos fora leviana. dormiras acordada no meu sono de intensa bebedeira de azul, que Nokin me abriu, enquanto bocejava e me estendia pelo outro lado da terra. tinha partido sem ti e quedara-me imenso no peso das paredes brancamente encobertas pelos quadros que se faziam de figuras suspensas, imensamente grandes enormemente móveis. agora que acordei, vieste-me buscar, transportando-me nessas tuas mãos de suavíssimo movimento.
.
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Terça-feira, 10 de Março de 2009

ter herdado tudo, de nada e de ninguém

Vestigios atávicos depois da chuva, de Salvador Dali


ter herdado tudo
de nada e de ninguém.
luzes do meu universo cheio
onde estão as sombras do meu vazio pleno
as linhas do meu horizonte fácil
as rodas da minha máquina perpétua?

fumo sem cessar os cigarros da minha arteroesclerose ímpia
bebo sem me importar o álcool da minha cirrose sem dentes
fornico sem me caber a sida dos meus testículos inchados
grito a plenos pulmões a dose da minha over-dose inicial
rabujo contra os defeitos das minhas crianças apanhadas na mão
mastigo o doce que o empregado da confeitaria me pôs entre os dentes
pergunto ao Esteves, o da Tabacaria, se já mudou a tabuleta dos anos
imagino o poeta a embebedar-se com as sombras da noite
o pintor a esquizofrenizar-se com as luzes das cores
o aviador suspenso do seu balão estático
o motorista da caranguejola sem cheiro e sem buzinas.

enfrento o mar e pergunto pelo tubarão devorador da última perna
da mulher que enfrentou o marido e se cobriu de lágrimas
do último crime da rua do galeto que se repetirá daqui a dez anos
igualmente, pontualmente, como a luz que acendo sobre a minha cabeça
nessa variação que a terra dá e o tremor faz abanar?!...

ter herdado tudo
de nada e de ninguém
como ser único, solitário e temente.

por hoje basta de vultos e de efemérides
que as linhas do meu horizonte facilitam
e as rodas da minha máquina perpetuam.

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Como é louca esta velha terra de bravos, virgens



painel esquerdo da Tentação de Santo Antão, de Hieronymus Bosch


Como é louca esta velha terra de bravos, virgens
putas, cobardes, imbecis, para-génios
duendes, pigmeus, velhos, apátridas, traidores
e ninfas vestidas com paramentos de noviças.
Como é louca esta velha terra tresandando a enxofre
e a histórias de pecados e delírios, riquezas e misérias
despovoadas nas barracas de cobre ou erguidas em amoreiras
de super-luxo. Gritam-se os contrastes, mas que fazemos
para os desfazer? Gritamos o belo, mas que fazemos
para que o não seja, para que a luz não se baste à sombra?

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

Domingo, 8 de Março de 2009

Infinidade, sempre ...


litografia de M.C.Escher

Há sombras que os dias não apagam
ou risos que as bocas dissimulem
há gestos que são traços vagos
ou fumos que não são fumos de cigarros

Há mar que o mar não esconde
ou árvores cujas sombras não aquecem
há lágrimas nos olhos das imagens
ou imagens nas lágrimas das pessoas

Há rasto na luz dum candeeiro
ou margem num rio a acabar seco
há a infinidade que nunca se aproxima
ou o sempre que não tem nome

Há sombras mar rasto
ou risos árvores margem
há gestos lágrimas infinidade
ou fumos imagens sempre

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danubio, 1983

Sábado, 7 de Março de 2009

Passo ...

Auto retrato de Anthony van Dyck


Com semblante de mistério
tudo à minha volta gravita
faço cara, passo sério
olho o azul do etéreo
e fujo à voz que me grita.


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Sexta-feira, 6 de Março de 2009

DEIXA QUE DURE O TEMPO

Danae, de Ticiano


No teu olhar há um sonho
que sonhei múltiplas vezes.
No teu olhar, um regaço
em que me acobardei sem sentido.

Deixa que os dias sigam e os ponteiros se movam.
Deixa que dure o tempo.

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Parapeito

pintura de Rene Magritte


No princípio da tarde as nuvens vieram com o sol
dizer adeus aos telhados
Os pombos voaram em círculo
acompanhando as roupas estendidas às janelas
os jardins com crianças dentro
esfarrapando as roupas engomadas

Do alto da minha janela debruçado no parapeito
correspondi ao adeus
cruzei os braços e apontei o infinito
que era a distância que me separava
do resto do mundo

Elas passaram e levaram o meu adeus

José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Quarta-feira, 4 de Março de 2009

VAMOS SONHAR...DORMINDO

pintura de Degas
à Lynne
Vamos dormir meu amor ...
Vamos sonhar naquelas águas calmas
que descem em cascatas de vida
por aquele desfiladeiro de verde ! ...

Vamos sonhar o nosso sonho
para que ele se abra em flores de lilás
ou em música de Tchaikovsky
para nos amarmos melhor.

Vamos chamar os nossos sonhos de amor
numa tarde de chuva, para que se elevem
e nos deixem pensar no dia
amanhã chegado e sem pressas.

Vamos dormir meu amor
para que eu olhe nos teus olhos
a certeza de que amar, não é só
a forma de te sentir viva e minha.

Vamos sonhar o nosso sonho!


José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

DA TUA BOCA

Rapariga com brinco de pérola, de Johannes Vermeer


Da tua boca ergueram-se os olhos da minha infância
Da tua boca saiu o meu gesto antigo
Da tua boca chegaram-me os tempos de rebeldia
Da tua boca ensaiei os primeiros contornos
Da tua boca escutei as primeiras vozes
Da tua boca caíram os dias e levantaram-se as noites
Da tua boca correram imagens que já esquecera
Da tua boca inundou-se-me o gesto
Da tua boca cresceu o meu sorriso
.
Olhei um ponto perdido não sei onde em que distância
e fui feliz para casa onde sabia encontrar a tua boca
.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Suprema intensão

pintura de Paul Klee

Nada sem forma. A rua larga, albicastra, a forma esguia duma face em perfil, um sorriso num copo cheio de mim. Meu pai ... Quando sou eu? Talvez, um dia, quando o mar se chegar mais próximo. Quando a terra deixar de vacilar, ou quando a natureza se mostrar na sua plena grandeza, sem os desvarios dos homens. Quando Deus e o Diabo quiserem, sem que me modifique ou esqueça, sem deixar de pensar que por aqui passei, menir antepassado, narrativa em pedra, silhueta apontada à imensidão árida. Quando me procurarem e encontrarem na porção de tudo e nada!...

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Ruas imensas dum certo desespero

pintura de Joseph Mallord William Turner

Pelas tardes em que o sol começa a afogar-se no mar, que vejo por entre o ruído rústico das casas, tenho a impressão de que levantar-me me custa. Sinto que as pessoas me apertam os ombros com as mãos como a quererem dizer-me: «estamos aqui!», únicos, na pele de todos os selvagens vivos, canetas esfomeadas, línguas sedentas, ruas imensas dum certo desespero. Mas quem não estará a mais serei eu, que (só) me passeio na luz e na sombra, sem o minímo de remorso ou qualquer peso nos ombros. Sem ter que dizer que o mundo falseia as palavras, porventura, os gestos, nos lábios das testemunhas falsas. Quem não é falso, sou eu, que amo todas as luzes e todas as sombras, todas as madrugadas e silêncios, como se não houvessem mais sóis a iluminarem as faces que se arredondam neste muro de paredes que nos celam. Sem que oiçam as nossas vozes.


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Sábado, 21 de Fevereiro de 2009

Vaga visigótica

pintura de Jean-François Millet


Enquanto o promontório se alonga na espuma branca das ondas verdes... Enquanto a tua casa se suspende nas falésias abruptas da terra selvagem... Repito no eco deste cachimbo aceso, as palavras que me segredas, ao pressentires o horizonte: « Aqui nasce a terra que me fez encontrar-te, pedra angular, sagrada, inóspita. Revive em ti, o meu segredo. Enquanto guardares a voz dos nossos avós visigodos, terás a alma da consciência. Quê de lusitanos?... Esses, tinham desaparecido há muito dos montes baldios da estrelar montanha. Hermínios, lhes chamavam...»

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Ode infinita


pintura de Carlos Reis

Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
ser em ti vagaroso como o rio que nos cerca
compreender que a vergonha não és tu nem eu
nem tão pouco o castanho das madeiras
mas as angulosas cabeças de chapéus de feltros.

Imagina-te anzolada à minha dimensão metafísica
à ignorância colectiva que é aparentemente um fracasso
ao espaço hesitante do subproduto
à vergonha honesta de que vale mais importar
do que mingar tumularmente de fome.

Oh! Pátria, nada me impede de pensar
que, também tu, possas ser sempre eu
lastimável, acabrunhado, indeciso
recuando ante todo o vulto sentado
lembrando o meu passado sem história
no presente movimentoso e aparente.

Pensa que não vim de ti, mas me absorveste
gélida, tórrida, transparente, inofensiva
mãe, prolixa e diminuída, de achados
de líricos que se comprazem à modulação do canto
e se rasgam em lágrimas à hora do Natal.

Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
e saber que também a tens.
Não saber nada e dizeres que me cale
mantenha o mesmo passo e o mesmo olhar
suba aos edifícios e desça aos esgotos
analise os olhos e aguarde em sereníssima contemplação.

Acho que dizer - acabe! - não basta
já que o lento movimento das nuvens
nunca simbolizou temporal
nem as persianas a fecharem-se
significa que crianças adormecem.

Lento, é todo este movimento
diagonal
indulgente
formidável
cómico
com todas as suas arenas modificadas
de estranhas larguezas
lembrando chaminés
e o mais que se entrega num leito almofadado.

É tempo de dizer que nunca me tive
(nunca te tive)
nunca passeei com a tua estranha monotonia
a tua calma aparente
simbólica
consciência de feitos inacabados
horas de partida
de chegada
choros de faces sofredoras
mãos cobardes.

Desci aonde podia
aonde nunca ninguém me obrigou
onde sabia nascer um cavalo
com cara de menino
pestanas de escorpião
mãos de foca
silencioso e sem vertigens.

A partir desse momento meti na cabeça
que a estrada continuava
seguindo, uniforme, as cadeias de montanhas
delicadíssimas plantas lupanares
tropeçando nos regatos e nas cascatas.

Para cima
haviam as pontes estruturais, magníficas
não sei de que ano, de que tempo.
Só sei que lá estavam
como tu
Oh! Pátria
manifesto profundo das minhas palavras.

E eu que nunca fui um rei
no meu planeta?!...
Nunca tive palavras
nem gestos
nem o medo dos infelizes
dos que procuram
acobardando-se no pouco que comem
olhando simbolicamente
pois foram para isso que nasceram!?...

Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
e sentir-te vagarosa como eu.
Que estranho destino o contemplar paredes
a olhar sés que não percebo
monumentos, pontes, estradas, rios, florestas
céus, antenas, murais, risos, imagens, curvas
como o pensamento que me alaga
me conduz e me deixa sem que nada perceba.

Como um grande vento, Oh! Pátria
o teu rosto aparece-me no espelho
salpicado de mil cabelos, mil olhos
a loucura enorme de gestos, de palavras
de desenhos e pinturas, de poemas
de frases loucas de sentidos sem sentido
máquinas e poses, grandes telas de sorrisos
fáceis manobras de testemunhos e estímulos.

Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
que é toda
e é nenhuma!


José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982

Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

deo-la-deu-oh-linda

pintura de Pierre-Auguste Renoir



eras pequenina nos teus cabelos longos
enquanto a cidade esvoaçava ao redor do teu corpo.
fugias com as mãos ao encontro da fonte
enquanto, ao lado, o rio corria manso
.
marginando o cais paralelo e acimentado.
da tua saia apertada, apertava-se o recorte da perna
o friso branco que te enchia o andar.
levemente suspensos, na blusa desapertada
.
os teus seios plenos, pequenos, teus
como montanhas iguais ao terreno da lua.
era a cidade, na tua imensidão morena
cabelos longos, formas brancas, corpo esguio e pequeno.

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

amanhã saberei o segredo que há em-mim

pintura de Georgia O'Keeffe
para o Alberto Pimenta
meu amigo e Poeta do mundo


amanhã saberei o segredo que há em-mim

de resto, o sol, que despontou por cima das plantas do meu jardim suspenso deste andar de cinco pisos de altura, abriu-me o olhar enquanto espreguiçava as mãos, abria a boca, esticava o corpo e rodeava os pensamentos pelo som do eco.
era frio e vento nesse algures da distância que os dias trazem e as horas levam, com as mãos presas ao esticado do corpo, gabardina enrolada à volta de-mim, impotência de bolsos vazios, a fome a rondar os meus olhos cheios. e vêm as queixas de todos os que não se têm que queixar, das súplicas que fingiram alheamento, da lembrança dos que procuraram inventar desculpas e nos rasgos de intenção dos que raramente apareceram.

amanhã saberei o segredo que há em-mim

basta que espere com os ossos feitos pó ou que algum amigo sorria, me abrace e diga: Vem daí! saberei, então, que as mãos não escreveram em vão, que as ideias não morreram por si-mesmas, que a luz do fundo era tão igual como a luz do princípio. saberei olhar para mim e ler-me nos livros fabricados, nas palavras dos outros que me lembram e algo são.

amanhã saberei o segredo se me aguardar


José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

As árvores eram silhuetas breves

pintura de Henri Manguin


Todas as árvores têm o som da planície e a minha cama é o eco de pau e esteira em que múltiplas vezes meu pai sonhou para dentro de minha mãe. Era a África fácil e longínqua dentro dos olhos das florestas, mata de animais bravios e homens esguios, velozes, antílopes. Eu, tinha uns calções pequenos, muito pequenos a lembrarem a minha infância. E tu, meu amigo negro, de imenso arco-íris por dentro?


José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Hora segunda

pintura de Wassily Kandinsky


A minha realidade não é falar de mim, como quem fala duma coisa que se ama. Mas quem melhor para falar de mim, do que eu? Quem melhor para descrever o que sinto, senão estas palavras que me atrapalham e ferem, me subjugam e são vivas? O esplêndido é o espelho? Pois que o seja, já que o olho e ele se me inclina.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Idade que se compõe, quando no silêncio e no fresco da noite

Blossoms in the Night, de Paul Klee


Idade que se compõe, quando no silêncio e no fresco da noite
cumprindo o ritual antigo, nos baptizamos de céu claro e sem nuvens
com as estrelas penduradas num chamamento breve e perfeito.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Na forma e no sentido sempre me marginalizei

Filosofo em meditação, de Rembrandt van Rijn


Na forma e no sentido sempre me marginalizei
sempre procurei projectar-me de encontro à lição
de que sabia ir gostar aprender. Porque, e a verdade é
não consegui aprender o que nunca gostei.
Nunca confundi a forma da obrigação
da satisfação ou do prazer de gostar.
Os discursos, cada um em-si, sempre manifestaram
uma linguagem e um sentir diferentes.
Mas tudo isto não impede as travessias do deserto, muitas e várias
em que as sagradas alianças nada valem ou a nada levam. Daí...

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Tudo é meu, porque vem de-ti

Gioconda, de Leonardo da Vinci

Tudo é meu, porque vem de-ti
oh! amada,
minha Ilha-Verde da paixão!

Como o giocondo sorriso em que se eterniza o tempo
o lugar da casa onde se penitencia a palavra e se entrega o amor
esse modo abrasivo que é a união da paixão e do sexo.
.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Daí, as horas ficarem límpidas, como um enigma;

face da Paz, de Pablo Picasso


.......................................................Daí,
as horas ficarem límpidas, como um enigma;
um grande corpo inteiro onde acontece a voz inicial;
a memória de pequenos nadas; a alegria que se vê
sente e alonga como razão essencial da luz.

José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Que importa (sim que importa!?...)

retrato de mulher, de Raphael Sanzio


Que importa (sim que importa!?...)
o que os homens intentam modificar
- num planeamento nervoso e adulterado
força mais do seu orgulho ferido
do que propriamente da desgraça acontecida -
se as consequências em nada alteram o que está traçado
o que está marcado, o que será para sempre nosso?
A minha vida será a tua
mesmo que lhe queiram dar destinos e rumos diferentes.
Ninguém se aperceberá que a escolha foi voluntariamente nossa?
Que partiu de-mim para ti e de-ti para mim?
Que uma semana juntos valeu mais do que dezassete
ou vinte anos de acontecido matrimónio?
Ah! como a desgraçada frustração humana
é tão própria dos que a personalidade não dotou
ou em que a inteligência não permite destrinçar em pleno
pois só o desforço se manifesta importante.
Mas é a esses, que gritamos a nossa vontade e a nossa verdade.
E creiam, os bastardos, que não temos medo. Nem vingança.
Temos sim, o destemor dos que se apaixonam
dos que se amam verdadeiramente
dos que são livres por si-mesmos.
Essa paixão, esse amor, essa verdade
essa doação da Natureza temo-la nós, só-nós
a quem a Terra ungiu de amantes plenos e naturais.
Isto é: amadores sagrados do que têm... amando.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000

Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Hoje há o chegar

pintura de Jean-Baptiste Camille Corot


Hoje há o chegar. Quantas ruínas
derramei em leis perfeitas? Quantas luzes
dei a olhos cegos? Quanto retorno ao nada
retirei de-mim?

Oh! aquela imensa poeira repetida
oculta fronte de dedos ágeis
existência de só existirem coisas
para lá de sabermos mistérios...

Já hoje é o chegar
esplêndido e definitivo
Hora certa do equilíbrio da nudez
segurança do sol para lá das horas
das máscaras
das vozes fáceis e gastas.

Oh! como a melancolia é grande
e o meu tempo pouco. Ou nada. Ou sempre.

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Deixaram a terra produzir os seus efeitos

Ofélia, de John Everett Millais


Deixaram a terra produzir os seus efeitos
e que efeitos foram, sobre a luz solar!?

A alma grande dos rios soergueu-se das margens
em cânticos de verde e rochas arredondadas
com o mistério das paixões por entre os canaviais
a estrada de Marte em frente, o fluxo de Vénus ao largo
e a gruta estreita de negro aparecida.

Receberam, como sempre recebem no meio das mãos
o teu corpo arrefecido, de olhos fechados e mãos postas
adormecido num sonho vagaroso e grande.
A alma dos teus poetas inundou-se-te no sorriso
que punhas na boca pequena, vermelha e cheia
sorriso acontecido ontem, ante-ontem e sempre
já que fora teu. Breve e triste...

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Os homens, os homens, eternamente os homens

Músicos, de Caravaggio


Os homens, os homens, eternamente os homens
reflectidos nos espelhos das águas, nos labirintos
da espessa terra, composições de sombras de exércitos ávidos
de suicídios lentos, de solidões gritadas nas paredes
paredes de tantos lugares, de tantos prédios, de tantos museus.
Venham homens, venham com os vossos poderes suster as lágrimas

e a solidão e o desvario e a morte lenta dos oceanos
porque mais fácil - muito mais fácil -
é imaginar que conseguir
muito mais fácil do que iludir o gosto e o sangue.
Venham, porque sentirão o gesto torcer o emaranhado
ouvirão os ecos crescerem, variados, nas montanhas próximas
saberão dos rios que secam em tanto deserto.

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

há canções ao longe

pintura de Paul Gauguin


regresso à luz das estrelas com a brisa a soprar por detrás. caminho vagamente, como se não sentisse os pés tocarem o chão, momento único, distante, fértil de sensações e embaraços, grito a sair-me e a afundar-se-me na garganta, numa apoteose de multidões em aplausos de ante-estreia num coliseu de olhares. sobra-me o vento num silvo de companhia. puxo um cigarro do maço que tirara do bolso das calças soltas, coloco-o entre os lábios e faço-lhe sentir a frescura do ar em movimento ligeiro, mas prolongado. nada se me esquece. tudo se me aviva.

saboreio o silêncio da liberdade no caminho sem ninguém. sem qualquer pessoa, quero dizer. a noite é fácil e segura. respondem-me os ecos fáceis dos reflexos da sombra, nesse contraste que entusiasma, faz parar e dá para prosseguir. e sigo com as pernas que têm movimento. flexões de luzes percorrem os meus gestos e recriam-se no meu olhar. há canções ao longe na voz de um cantor de duas vozes. avanço e medito a liberdade que vou conquistando passo-a-passo.

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

os caminhantes sem destino

Bordeaux Branco, de Juan Gris

chuva e noite no quadro efémero do dia, que é final e sono. mergulham as mentes no silêncio feito e a aragem que sopra, alivia a cidade do peso do ruído e da espiral das vozes. caminhantes sem destino são os passos, que se abrem nas ruas estreitas e largas. uns, com a verdade que os leva em frente. outros, com a brecha que o álcool derrama no sangue quente. cambaleiam, riem, perdem-se na visão toldada que os olhos recebem, distinguindo-se unicamente, porque tocam em si-mesmos pelas paredes dos prédios verdadeiros, nos andares trôpegos e cruzados, nos risos abertos, nas mãos pesadas e que julgam leves. são estes, os companheiros da noite que vemos distintos, secularmente enunciados nos estribilhos da história, nas páginas amarelentas dos grandes romances, nas figurações dos pesadelos miúdos. e quando cresce a noite, a chuva derrama-se ininterruptamente sobre os espaços descobertos que a sombra fecha.

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Sobra a cidade com os seus mistérios

Port-de-Cassis, de Charles Camoin

Luzes num tempo solto, a varrerem a aragem dos castelos postos no alto.
Mãos que se levantam na procura dos astros que não saem do firmamento.
Casas alinhadas no contorno do mar com cabelos à espera que o vento chegue.
Risos na noite de ninguém, que é o silêncio das estradas por onde corre a paciência dos que não têm sono.
Bocas abertas à espera da fome, que é o que todos esperam e nenhum pede, pois a terra é solta e chega até aos olhos com a coragem de quem existe.
Sobra a cidade com os seus mistérios, as suas luzes, o desencantado movimento, as suas fontes enganadoramente disfarçadas, pedra angular duma igreja que não tem contornos de Sé, quiosques ribeirinhos de matarem gostos, gargantas secas à procura de múltiplos líquidos e o não acabar de certeza que se esgota.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

O silêncio

Os picos da Europa, de Carlos de Haes
.
O silêncio, este muro que nos adormece e cerca, é uma luz que se amedronta, abafada pelos gritos dos que mordem as palavras. Nunca poderia pedir o silêncio entre celas que não sinto. Mas há tantos que podem... Olha-me na tua fragilidade exposta, mulher. Espreita-me pelo canto do cinzeiro em que pus todas as minhas esperanças de amanhecer, todos os traços invisuais de credulidade, procura impossível de qualquer alegria breve. Hoje, acredita-me, sou mais do que todos os reis que existem nesta terra de noite. Do que todos os presidentes que se sentam entre cadeirões de veludo. Mais do que a riqueza de todos os ricos juntos. Não te esqueças que o meu sorriso traz a chama da liberdade a acender-se, como fogo do fia de ontem.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

No meu silêncio de escuta e visão

quarto, de Vincent Willem van Gogh

O meu quarto é uma autêntica câmara funerária, excepto no branco que separa o tecto das paredes. Negras se lembrarão como lágrimas a caírem. Vêm de não sei donde e sinto-as como lágrimas em suor. Não são lágrimas de mulher - mas imaginarei como se o fossem! - que escorrem a meio do meu cigarro a incensar-me. Vêm como a vida, que é o apetite da mulher que se quer e, da outra que se rejeita pelo simples facto de nos parecer a mais. Nenhuma mulher é a mais. Procuro o meu cigarro e fumo-o devoradoramente, como se procurasse na noite, um livro para ler... depois do sono. Voou no meio do meu corpo a pedir forma. Olho-me no espelho a pedir imagem. Resguardo-me no silêncio a pedir fala; nas palavras a pedir qualquer silêncio; na forma a pedir segredo; na cama a pedir a paz de um sonho sem trevas; num relógio a pedir as horas que não chegam. Tudo o que quero me sai, mas nada chega, a não ser o silêncio da noite que me passa em habituação. Só que nunca morrerá o poeta nos versos com os seus (de)feitos.

José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986

Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

De murmúrio fiz as esquinas próximas onde ninguém passa

pintura de Lichtenstein

De murmúrio fiz as esquinas próximas onde ninguém passa.
Elas existem em-mim, saem de-mim
percorrem-me em passos lentos e rápidos
seguros, inseguros, fáceis, desencantados, trôpegos
como os dos homens que se levantam dessedentados de álcool
em gritos breves e imensa tontura.

Murmurei as esquinas próximas onde ninguém passa.
Elas existem, porque se erguem em frente de qualquer olhar
passeio, jardim, praça, avenida, ruela.
Existem, porque são o que os olhos querem.
Se as murmuro, é porque elas são o aspecto
que em-mim há para quem me olha.

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Oh! como é triste não termos a alma que gostariamos de ter

detalhe do túmulo de Lorenzo di Medici, Miguel Ângelo


Oh! como é triste não termos a alma que gostaríamos de ter
para reproduzi-la de encontro aos muros da nossa ânsia
aos paredões sombrios do nosso gesto
às forças largas das nossas intenções
à praça grande que guarda as nossas capacidades
e encontrá-la na forma de Alma-Mulher, Alma-Gesto
Alma-Fracasso, Alma-Desejo, Alma-Encoberta na ânsia
de a termos. Alma-Nevoeiro de tanta face descoberta e fácil
como a nudez que nos torna tímidos e breves
para lá da ofuscada torre da nossa babilónica verdade e mentira.

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

É de noite que me visto. E dispo. E consumo.

pintura de Joseph Wright of Derby

É de noite que me visto. E dispo. E consumo.
É de noite que os meus braços sobressaem dos ombros, os meus olhos do rosto e o meu pequeno sorriso do silêncio e da escuta.
É de noite que a música ressoa acutilante e total, evasiva e penetrante, força humana escondida por detrás de cada delírio pleno e perfeito.
É de noite que as silhuetas são marcadamente breves, já que as sombras as identificam e definem.
É de que o choro se aquece e se transfigura; entrega em gelo ou se desprende em neblina.
É de noite que tudo se sublima, se torna mais visível, mais perfeito, mais nítido, como o sono das crianças e as esperas dos velhos. Mesmo a memória, que é vária e nunca acaba.
É de noite que abro os braços e me apaixono.
É de noite que junto seis candelabros com todas as velas acesas, disponho uma infinidade de copos e rego de champagne a minha fantasia, a minha imaginação, a minha cortesia. A minha maneira de receber. Bem ou mal, mas a minha! Deixo a mesa cheia de-mim e do gosto dos outros. Deixo as cadeiras vazias para quem se queira sentar.
..................Nos candelabros, as velas nunca se apagam,
..................nunca se gastam. Na minha casa, à noite,
..................tudo é suicídio, porque a minha memória é
..................um grande abraço envolvente, transportando-
.................-me não sei donde para onde. Apenas fantasia?
É de noite que as sensações se materializam, que podemos enfrentar os outros nos olhos, nas mãos, nas bocas, nos copos. É aí que a navalha aquece o sangue, o grito sai mais nítido, o corpo cai mais pesado, o vento se enrosca mais perto, a junção é mais breve. Mesmo o medo, que sendo a razão de se ser, é a alegria contrária de nos possuirmos. Fantástica a noite de todos os dias! Com todos os seus aspectos!
É de noite que vejo nascer o mar com as suas fronteiras de várias cores, com os seus olhos de várias luzes, com os seus corpos de várias formas, com os seus gritos de vários tamanhos.
É de noite que acordo, logo cedo, quando os barcos dormem no calado rumar das gaivotas, empinando o voo junto ao coração da terra.
É de noite que tudo vive e adormece.
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José Manuel Capêlo, Odes Submersas, Átrio, 1995

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

a voz que se levanta

alegoria da poesia, de Rafael Sanzio

podias vir com a tua beleza azul
levantar as mãos dos homens
adormecidos e gastos. podias vir
com o gesto da tua face em
sorriso aberto, marcar os olhos
dos homens que te chamam ao longe.
podias vir, e conscientemente proteger
todos os filhos que deste a nascer
por essas esquinas fixadas em cada
ponto da cidade, que sendo tua
é de todos os olhos dos homens
que te seguiam. podias vir, tu-mesma
ou a sombra que escolheste e te
representasse, porque a voz que se levanta
não é a tua, mas a minha!

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Domingo, 25 de Janeiro de 2009

palavra inicial V

estudo para cabeça de um poeta, de Rafael Sanzio de Urbino

para o João Ferreira da Silva

garras do destino neste tremor de gestos. como posso ser eu, se sou todos os outros que habitam comigo? como posso ser eu, se sou todos os que comigo me imaginam? mas como posso ser tantos se sou apenas um? não me inventem nem me peçam para inventar, para mentir. para fingir, basto eu. sou astro, face, olhar, gesto, pronúncia, restauro, pernas cruzadas, voo de ave, mãos, dentes, parafuso a entrar pela multidão, rodopio incontrolável num corpo de criança amável e indecisa. fumo com os lábios que tenho e não pareço mais, porque não sou mais que a forma igual que os olhos distinguem. e por estar farto de ser sempre o que me vêem. é que me inclino onde vegetam as aves falsamente alheias, falsamente dispersas. bruscamente entro onde a cidade se enche de eco!

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

palavra inicial IV

Perseus com a cabeça da Medusa, de António Canova
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vago e calmo é o poeta que se desprende das dores e dos vícios. do alheio e do que o habita. do que é real e imaginário. do que é facilmente disposto e dificilmente mentido. a cidade é uma página. a luz, um faiscar simultâneo e repentino. tudo aparece por entre as clarabóias dos prédios velhos e remendados. quem me vem dizer do que não posso? quem me viu onde ninguém me visse? sofro o medo horroroso e profundo do homem do leme. mas não o largo. menino de minha mãe me fiquei órfão de pai aos três anos. e quem mo lembrou, senão esta memória fácil e secreta? quem mo recriou, senão este gesto breve e fecundo? quem se me apercebeu, senão este caminhar de anos por entre as feridas da lembrança?! ninguém me esqueça como ninguém me lembre. tenho onde hei-de estar e que não me inventem!
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José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Sábado, 24 de Janeiro de 2009

palavra inicial III

Cidade, de Léopold Survage
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nada do que me é novo é verdadeiro. entusiasmam-se as frases e cresce o descalabro. formam-se as imagens e inverte-se a realidade. apagam-se as luzes e refina-se o movimento. tudo é delírio e o anquilosado do gesto. seguras, só as sombras que deslizam incapazes de serem outra coisa. tudo é igual, tão o-mesmo que arrelia e confunde. busco a noite dos silêncios vários e cada um deles, é um gesto desprendido e amável. o mesmo não posso dizer das vozes que me cercam, tão alheias e tão presas às marés de outros mares. o oceano é largo e não se ilude. tem o seu ritmo e o seu fulgor. é força e ânimo e imenso delírio. qual Homem, qual Mostrengo, qual Adamastor de bíblica e mitológica forma!?

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

palavra inicial II

Marte e Vénus, de Paolo Veronese

certa, virá a mulher desnuda com os ombros oscilantes, a boca larga e o cabelo desprendido. certo, virá o homem seguro pelo andar, trémulo no olhar, segurar-lhe a mesmíssima mão que se prende ao horizonte. deles, dessa união conciliática, nascerá um gesto, uma forma, uma presença. será caminho e desespero. noites de insónia e fluxos de suor. risos e trejeitos de uma outra dor. felicidade e destino. ritual e sevícia. clamor e pranto. amanhã, continuado em dias de outra claridade. tudo será diferente depois de tudo feito. dois sinais, dois símbolos, duas matérias que de tão idênticas, tão diferentes se mostram. o homem e a mulher!...


José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Saber o que está tão perto

pintura de George Braque


Saber o que está tão perto
tão seguramente confessado
qual retorno ao que se escreve e se canta
porque nada pode acabar sem ter começado.

Fluído, o que se consome por entre os lábios
- que são restos de hoje e lágrimas de um amanhã
que se inventa, se cria, se muda e se retém.

Não me demovam, porque tudo é luminoso e fluente
próximo e opaco, clareira e vertente.
Imagino-me e não ouso.
Invento e não creio.
Sonho-me e vejo-me um menir isolado.

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Rebentem as noites de chuva e aqui estarei

mulher deitada, de Pablo Picasso


Rebentem as noites de chuva e aqui estarei
aqui me suporto, aqui me faço fé.
Respondam-me com a segunda razão
- a razão dos aspectos, a razão da fala -
a lembrança da alma. Poderás recordar a alma?

Oh! frágil noite de lágrimas e fogo
onde me retêm as nuvens e as margens marítimas.
Deixa que me faça para que te possua.
Depois... Depois, que venha a tua alegria breve
transformada em desejo, em cama
esteira, pau, suor.
Deixa-me o tempo de hoje
porque amanhã será o leve tempo das brisas.

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Quanto tempo demorou o meu tempo em-ti?

pintura de William Trost Richards

Quanto tempo demorou o meu tempo em-ti?
Quanto segredo me custou as horas longas
em que a espera se anunciava e se estendia no rigor da demora?
Quanto tempo era o meu sem ti?
Quanto silêncio me habitou sem que te habitasse nas longas horas
em que me perdia na hora demorada?


Foi num fim de tarde, enquanto o sol tardava no mar.
O grande cata-vento movia as suas pás
empurradas por um vento sibilino e farto.
Alongava-se o horizonte mesmo em frente
e as quilhas dos barcos empinados, presos na corrente
acendiam luminosidades que a água reflectia.
Chegaste com o teu sorriso branco mascarado de vésperas
de manhãs erguidas no sono que a noite compõe
...........................................em horas remexidas e soltas.


José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Longe estavas, como longe estás

Ombro esquerdo, de François Boucher

Longe estavas como longe estás
oh! amada,
quando as razões nos conduziram ao encontro
no centro da sala, com luzes suspensas
figuras vagamente presentes
cadeiras praticamente encostadas ao chão
o centro dos corpos no centro da música...
Um qualquer lugar onde, que não importa nomeá-lo ou distingui-lo.
Só sei que lá estávamos!
Reinava a noite no seu silêncio manso
lugar onde surgia a união das vozes
as falas velozes dos encontros fugazes, a palavra na boca
- qual solidão do olhar-
primeira impressão de um aceno de adeus.
Como pode acontecer no sempre, um até sempre!...
Um até depois!
.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

palavra inicial I

pintura de René Magritte

entra-me brusca a noite, lepidópetra e cheia, com os calores claros dos dias por se abrirem, quando do vulgo da silhueta se enfrentam carrascos de amanhãs com mãos soltas e gestos semi-cerrados, no confuso diálogo de bocas emaranhadas. não é preciso que as palavras se desprendam, e soltas varram os locais usuais, fáceis e abertos. com a noite, vem-me o sabor das ruas planas e das casa plenas, das bocas insaciáveis e dos amantes adormecidos numa cama de qualquer quarto, satisfeitos dos gestos móveis nos corpos habituais. ao sentir isto tudo, o que mais me satisfaz, é poder erguer o braço e atingir o plano, que é o objectivo que me entusiasma e aquece. é o de poder possuir várias mãos que se me dirigem e afastá-las com o simples gesto de um silêncio, consumido em franjas de outros lençóis. depois, tudo é simples e tão seguro !


José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

A imagem que o sono adormeceu

pintura de Roger de La Fresnaye


descobrira a noite o meu silêncio de sono por fazer
com as estrelas penduradas na chuva que caía
já que os gestos se desdobravam múltiplos de ser
plenos de sonho e cansada fantasia.
só que pela manhã, neste silêncio de quarto, penumbrado
há horas que passam friamente arrepiantes.
emoldura-se o gesto no movimento desfiado
qual soluço quedo e triste! só amantes...
em cima da mesa, uma fotografia tua com o casario atrás.
é engraçado. lembras-me alguém, serenamente
e no mesmo momento, há uma ligeira névoa que desfaz
toda a visão errante e descontente.
resta esse olhar teu que é estranho e infinito
pensado sei lá em que distância ou em que perto
já que a luz que te ilumina, é parte e grito
que o teu corpo esconde em lugar deserto.
mas a noite, na imagem que o sono adormeceu
tem vapores de ópio e álcool liquefeitos
força de orgasmos que o silêncio arrefeceu
nos encontros marginais dos nossos peitos.

José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Se o meu silêncio fosse a traição de-mim


pormenor de painel do Jardim das delicias, de Hieronymus Bosch

a Miguel Torga

Se o meu silêncio fosse a traição de-mim
como a nuvem que, fugidia, apaga o sol
retornaria ao lugar constante onde me encontrei
em primeiro e último lugar de nascimento.
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Se a terra fosse tudo isso que piso e seguro
com o mesmo à-vontade com que ergo as mãos ao vento
deixaria os frutos nascerem debaixo dos pés
com a mesma alegria com que afago o eco.
.
Se tudo fosse, apenas, silêncio e escuta e desordem
reuniria o meu exército de fantasmas e com eles
percorreria as ruas vazias de sons e figuras.
.
fugiria aos lugares comuns e encheria de certeza
as vagas plenas do oceano, que manso avança
e tenebroso se refugia para lá das areias móveis.
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José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991

Domingo, 11 de Janeiro de 2009

Seguraram-me as mãos

cavalo bravo, de Theodore Gericault


Seguraram-me as mãos.
Mas de que vale segurá-las
se nesta terra tudo se compra
tudo se vende?! Como não gastá-las!?...

José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991