domingo, 20 de Dezembro de 2009
Se... em realidade
Se eu tivesse tempo de ser tempo
se o tempo tivesse tempo de ser eu
talvez que o tempo fosse mais tempo
e eu tivesse tempo de ser mais eu.
José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986.
sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
Regresso Tardio

Levaram-me tão cedo de casa de meus pais!...
Ainda mal tinha descoberto o sol
já o mar me puxava para terra estranha
e aves diferentes, que nunca conhecera
voavam sobre mim em gritos estridentes.
O casco do navio seguia, deixando na esteira
ondas de espuma, que se perdiam para lá
- donde tinha vindo-
do difícil do voltar a ter
não fossem os anos a passar, conscientes
da minha inconsciência de razão.
Levaram-me tão cedo de casa de meus pais!...
Quando voltei, também eles não estavam lá...
Regresso tárdio
Me arrancaran tan pronto de casa de mis padres!...
Por desgracia había descubierto el sol,
el mar ya me empujaba hacia una tierra extraña,
y aves diversas, que nunca conocí,
volaban sobre mí con gritos estridentes.
El casco del navío avanzaba, dejando en la estela
olas de espuma que desaparecían más allá
-por donde habían venido-
en el difícil recuperar,
no fuesen a pasar los años, conscientes
de mi frágil razón.
Me arrancaron tan pronto de casa de mis padres!...
Cuando volví, tampoco ellos estaban...
José Manuel Capêlo, Y si no existieses?/E se tu não existisses?, Edición de Ángel Guinda, Olifante, Saragoça, Espanha, 2003.
segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
Infinito o mar
longínquo
como a nudez
do teu corpo
entre a areia.
José Manuel Capêlo, Margens, Perspectivas & Realidades, 1984
terça-feira, 17 de Novembro de 2009
O eco e a cidade
bastavam-me os teus olhos
e a noite
vinha com o canto dos navios.
serena viria a sombra
e o teu eco
pelos rios.
bastavam-me os teus gestos
e a cidade
corria lado a lado junto a nós.
branda a silhueta
da saudade
na minha voz.
bastavam-me os murmúrios
lentos
e as tuas mãos cingidas ao meu corpo
como cadeias de ventos.
tudo bastava, meu amor.
o sol
preso na distância
traria o eco
o olhar
e a minha ânsia.
Lisboa, 01.Julho.1983
José Manuel Capêlo, Enche-se de eco a cidade, Átrio, 1989.
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Oh! dia fulgurante de estrelas e de luzes

de sombras, de vozes e de desejos
que contemplo aninhados e visíveis
nestas folhas brancas
que o papel imprime e seduz. Hoje é o dia material
responsável único por esta demanda de ecos
- vozes surdas e sobrenaturais -
pelas diferenças do espírito, pelos rios da cor
pelos rugidos da forma, pelos altos e baixos
da minha vontade e memória e tempo audaz.
Ninguém me perceba, porque todos me dirão!
- Como o horizonte que se aproxima na linha que fica
aquém da consequência e do modo.
poema de José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
Branco e Azul

Não porque elas sejam tristes
mas porque elas são humanas!
poema de José Manuel Capêlo, Corpo-terra, ed.Trelivro, 1982
terça-feira, 20 de Outubro de 2009
CONTIGO II
desta rua que me caminha todo o dia
e que não sei se é rua se são sedes
no ébrio de tão frágil alegria
inventar o teu nome quando esqueço
que a rua é toda gente e movimento!...
mas pedir-me, não to peço
já que a honra sustém o sentimento
inventar o teu nome até depois
que a própria terra esfrie e arrefeça
este sentir de um de nós dois
que a rua calou, sem que o pareça
José Manuel Capêlo, Enche-se de eco a cidade, Átrio, 1989.
quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Contigo I
o não te ver só a distância
mais próxima que todo o próximo
a imaginar-te
presa à minha mão de medo e ânsia
contigo sonho o não esquecer-te
o seres sempre a mesma voz
imagem que o fio reproduz
a esbater-se
dentro de ti talvez de nós
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio 1989
domingo, 11 de Outubro de 2009
Canto Maior
pintura de George Braquedeixa-a abrir, é só semente.
o canto é maior e nunca mente
mais ainda, se o canto for Lisboa.
.
José Manuel Capêlo, Enche-se de eco a cidade, Átrio, 1989.
quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
MOSAICO VIVO
As luzes a irem e a virem
por entre o turbilhão do cansaço…
O gosto das madrugadas passageiras encontrando forma
no ninho de antenas verdes, em risos de molduras geométricas
pagamentos diários - sem salários fixos –
enquanto o turbilhão do proxeneta procura na almofada
o licor acre duma noite de insónia compensadora.
Como se não bastasse emoldura-se o cigarro
cospe-se para o meio da rua
onde todos passam e ninguém pára
dado que parar
seria que cuspissem em nós-mesmos
os próprios dos próximos.
Em feliz coincidência
(a consciência em espirais e gritos
umas vezes roucos outras alegres)
a caneta que escreve em círculos
ou semi-círculos de enfeite
obra rara em deuses adormecidos nas estantes…
Pegando num deles
pode-se abraçá-lo ou rasgá-lo
com o mesmo destemor com que se o lê…
Poderá importar pouco
dado que o pouco poderá ser o muito
que nada temos. E tudo isso é mau
como o bom seria olharmo-nos de vez
arranjarmos uma lua de mil aspectos
crescermos no azul e espraiarmo-nos no fundo verde…
Poderíamos eventualmente deixar de ir
à confeitaria para comprar bolos
seguir um caminho paralelo
que não nos levasse a qualquer lado
- como à imensidão dum prado
onde não pastassem cabras -
ou a um rio onde não houvessem pedras
formas esguias da nossa perplexidade incomensuravelmente diminuta.
Afirmaríamos por outro lado que as mãos
eram arredondadas, próprias de desenhos rítmicos
os cigarros fracos, próprios de desenhos concêntricos
as vozes arrefecidas, próprias de desenhos iluminados pela noite
os copos cheios, próprios da boémia desaprendida…
Como se nada ficasse
gastaríamos as mãos nas paredes
os cigarros nas bicicleta as vozes nos bordéis
os copos no fígado
- onde tudo seria guardado, como que num cofre
sem chave, sem segredo, sem guarda –
apenas lembrando que lá
o tínhamos posto…
Ainda assim, a barbacã seguiria os contornos
tal como o rio, as margens
a cidade, o tempo
o meu olhar, a distância
a face da menina, o brinquedo por andar
a bicicleta, o fumo das chaminés
a tua presença, o movimento das tuas ancas
as aves, as antenas verdes
as nuvens, um mar fluvial
os remos, as braçadeiras do poder!
Qualquer função seria a minha a tua
como um interruptor de luz
enche a casa de gemidos
ovais empastados solenes
composição duma partitura inacabada
ópera de falsetes e acrobatas
circo de marianos e margaridas…
Como se tudo fosse um mundo único
bastava-nos levantar as mãos
para pedirmos perdão pela nossa inocência
escalavrada e grosseira
painel de tinta arremessada
ombro encolhido por murro directo
boca aberta gritando surdez
cigarro na mão
a atestar o vício.
Todas as aparências tinham características…
Sonâmbulas e ásperas
mal disfarçadas e rudes…
imaginavas-te diferente
por seres exactamente diferente
de todos nós
nós os que nunca parecemos iguais
A tua voz brincava com o ar
explodia em malícia
afogava a tua vivacidade
repreendia quem se lhe opusesse
e habituara-se a dizer…
- Vamos daqui!
Terias a certeza de seres tu quem mandavas
ordenavas brincavas com os nossos olhares
incrédulos mal postos
na tua figura de rainha anã
irrequieta ágil desempoeirada
nas calosidades que te cercavam os nós dos dedos
todos bem iguais à tua inteligência
irrequieta ágil desempoeirada
como os estridentes dentes
que salientavas
no fácil riso que te envolvia.
Bastava que tudo tivesse a proporção
tão necessária para ser luz
aparecesses longínqua e caminhasses directa
ao ponto de encontro
em que nos situávamos.
Não era preciso mais que uma palavra
um gesto
ou um adeus
para olharmos tudo diferentemente.
Rápido como o vento, só o nosso gesto…
Parede encostada à outra parte do quadro
que nos olha ao comermos bolos
ri ao fazermos caras
entristece-se ao ver-nos seguir sem encontro
só porque não está em nós podermos ganhar…
Na incógnita noite os rastos do poema…
Quem os virá buscar, enquanto ainda forem chama
luz, visão do dia, semente e pensamento?
não importa a que distância…
Mas venham!
Tragam as vossas bandejas de qualquer prata
as vossas mãos de qualquer pele
a vossa imagem de qualquer corpo
o vosso sentido de qualquer fim
as vossas ideias de qualquer ilusão…
Mas venham!
Com a eternidade que não vos obriga
a serenidade que não vos realça
a amizade que não vos impõe
a certeza que é própria de todos
a função que é dita de alguns…
Mas venham!
Tragam o espaço e os planos
as vossas cabeças e as vossas bocas
os pincéis e as paletas
a sombra e a claridade
as mesas e as portas
os museus e os bordéis
as mulheres sérias e as que o não são
as vossas filhas e as vossas empregadas.
Tragam as lembranças e o presente
os sãos e os doentes
os mendigos e os fidalgos
o forcado, o cavaleiro, o matador
todos eles com o touro à cintura
já que a arena é bem grande
e todos têm lugar em pé…
Mas venham!
Venham sem cerimónia, sem requintes
naturalmente
como natural é o céu e a voz encoberta
para lá da montanha.
Lembrem-se que todos têm o seu presente e o seu fim…
Que tudo cresce e tudo passa…
Que as noites são dias que se põem
e as manhãs luzes que se despregam…
Lembrem-se que são mortos os que pensamos
mas que são os vivos, os que nos amam…
Que tudo é igual
desde que não se mostre diferente…
Que uma hora não é igual ao tempo
mas que o tempo é uma hora…
Mas venham!
Tragam cânticos negros e odes triunfais
dispersão e mulheres de luto
o antónio-só clepsidra e as sombras e as vozes
cézanne van gogh picasso modigliani dali
almada amadeo bual lud seixas osório
um exercito de não soldados que lutam pela eternidade.
Mas venham!
Tragam nas mãos
rosas, cravos, manjericos, orquídeas
o que quiserem…
Mas venham!
Já que o mundo é mundo e o homem se acaba…
Já que a mão que acende cigarros, também acende fogos
e toca em botões e propulsiona ogivas
e não pára e não pára e não pára…
Parar, é como não saber! Mas o homem sabe
e sobe e desce e avança e recua
e obstina-se e cria
inventa para lá das memórias
para lá do sentido que possui
para lá da volta que dá ao mundo
para lá da montanha que sobe
para lá do mar em que mergulha
para lá de si para lá de tudo…
Tempo preciso, tempo necessário.
Uma flor que espreita empoleirada no muro…
Tanto silencio, estranho silêncio
a lembrar a sepultura em que estás deitada…
Vem-me com a tua serenidade diária
amiga dos meus tempos incompletos
dos meus gestos irreflectidos
suster o meu corpo de bebida entorpecente…
Traz-me a tua a tua imagem involuntária
que todos os dias espreito
todos os dias rezo na minha oração inacabada
como os olhares das filhas que me pedem
ou o beijo da mulher que me envolve…
Vem, vem dizer-me que não me engano
que não me posso enganar
que sou como o lusíada guerreiro
como o lusíada navegante
como o lusíada involuntário de ser lusíada
involuntário de ser alguém, involuntário de ser lido…
Vem até mim, ventre histórico, ventre de onde vim
ventre da minha saliva e das minhas lágrimas
ventre dos meus planos sempre inclinados
das minhas suposições incompletas
das minhas realidades risonhas, mas dispersas
do fumo que fumo sem fumar
do olhar que me deito e que não sinto
de tudo o que me parece triste mas que é real.
Tanto tempo, tanto dia sem realidade alguma
por detrás do meu silêncio
de olhos a lembrarem olhos
livros a lembrarem estátuas
poemas a lembrarem lágrimas
por ti por ele por nós!...
Que o tempo avance e se complete
mas que venha!
Venha como tu como todos a quem espero
e que não sendo muitos serão os bastantes
os verdadeiros os únicos
aqueles que terão a palavra para explicar
porque foi escrita…
Na incógnita noite os restos do poema…
A precisar de ser tempo
a ter de ser espaço…
Desenho quadro casa grande
cavalo selvagem sem domador…
E se for preciso
redigo o que alguém disse:
- Batam em latas!
Toquem no grande concerto abstracto
mas… batam em latas!
Firam o choro se o houveras lágrimas se caírem
a dor que alguém sinta o luto que possam tomar…
Brinquem com a bola pequena, vermelha e branca.
Atirem-na para as nuvens
para que se possa perder…
Foi o meu brinquedo de ouro rasgado
com que brincava todos os dias
com que saltava a janela do rés-do-chão
e jogava na praceta.
Hoje, tem a cor disforme do passado
a lembrar a incógnita noite
a perseguir os rastos do poema!...
José Manuel Capêlo, Odes submersas, Átrio, 1995.
segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
Estou farto de possuir florestas

Sagrado é este luar que à terra desce
este pequeno encanto de muitas nuvens
todo o silêncio que é de espanto
na noite salpicada de várias estrelas.
E eu, só
imensamente só com as palavras
estes ecos que nascem nem sei como
vultos, silhuetas estampadas nas paredes
como contornos apagados pela noite.
Resta-me o espanto da tua face
adormecida nos lençóis de linho
cotovelos apoiados nas paredes
redes envoltas com os teus cabelos
mãos que se erguem do negrume
bafos que acompanho no olhar
sem que o silêncio me diga: Pára!
E sabes que parei? Parei com os livros a abrirem-se
com os livros a fecharem-se
com os livros a nada serem, a não ser
imensas vírgulas no teu silêncio
adormecido pelo álcool de qualquer ascendência
ruas que se fechavam com o teu olhar
passagens de nível a descerem ao grande sacerdote
ao pajem de mãos suadas
pelo grito da guitarra.
E vieram canções embelezadas pelo cheiro
pelo acre-doce de duas rupias emolduradas de oiro
sedentas de mãos que conseguiam ser algumas
as únicas, necessárias para que todo
o ciclo se cumprisse entre mãos.
O resto veio depois, depois das horas
depois do vento
depois de muito suar
nas paredes abertas do teu seio.
Deixa-me agradecer pelo copo de cristal
que me ofereceste no olhar dos anos
no cigarro de múltiplas cicatrizes
no punhal de lânguidas arestas
frisos de sangue marcados pelo meu sangue
como resto que veio depois
de nunca ter passado.
Eu sei que a culpa foi minha
que o medo nasceu do nosso encontro
que o tempo nasceu depois dos filhos e parentes
e que a luz incidiu na minha boca.
Tenho aquela pastilha de agrafos como metafísica.
Vários álbuns encadernados como compêndios
e alguns discos como sequências.
O resto é o empedrado da rua
as pedras a subirem, as mãos a descerem
à procura das conchas que apanho do mar.
As cores... sucedem-se! Tenho pesadelos e confluências.
A floresta desaparece na quantidade de papel que possuo.
Estou farto de possuir florestas.
Que é do meu oxigénio? Que é do meu planeta?
Fui desencantar o meu rosário de vícios
nas pálpebras do teu rosário.
Vieram primas e irmãs, todas feitas de papel
único papel para limpar o cú...mulo
da minha paciência. Cú...bitos
só os ossos e esses emperram por todos os lados.
Quero o Deus que me sossega.
Vem espírito alcoólico até ao meu copo.
O resto são cantigas de meninas e fé.
Várias garrafas se abrem ao meu destino
encharcado de bebedeiras e fé.
Ergam-se os meus punhos e os meus braços.
O resto é o eterno silêncio dos meus lençóis.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
Entrevista Intima!
Está vazia a mente. Nada escreve.
O olhar repoisa num ponto infinito
que se alonga, até escurecer a névoa.
Mas penso?... Sim, penso
que nada imagino,
(como se o imaginar,
fosse o tudo que nos aparece!...)
O infinito não custa.
Custa... é, olhar o infinito!
Infinito tão finito como eu,
ponto dum olhar que se alonga,
imagina, aparece, escreve.
Entrevista-me assim, olhos nos olhos,
mão na caneta, ponta no papel
que marca, que traça, que risca.
Missão dum olhar, que é imaginação,
encanto de um corpo, que é só corpo
mente que escreve e se infinitiza,
no custar honesto que aparece.
Infinito num finito como eu,
em entrevista própria...
José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978
sábado, 12 de Setembro de 2009
Do mundo que é nosso!
sábado, 22 de Agosto de 2009
O que não merecemos!

Longe, tu e eu,
perdidos nos quilómetros que nos separam
por migalhas de tempo,
no olhar do relógio, que são horas
e que se perdem, a olhar os minutos.
Longe, tu e eu
que não merecemos, porque não esquecemos
que o tempo foi nosso
e que passou sem que déssemos tempo,
ao tempo, para nos vir buscar.
Longe, tu e eu
amantes do belo e de nós
que não nos possuímos há dias
e, que nos são tão longos e brutais
que não os merecemos.
Longe, tu e eu
um do outro!
José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978
segunda-feira, 17 de Agosto de 2009
Tangencial
Os amantes, de Pablo Picassosegunda-feira, 10 de Agosto de 2009
ETERNIDADE E SENTIDO
Fizeste com os teus lábios um arco grande
no meu peito. As tuas mãos tornearam-no
com a tua boca a procurar o meu gesto
e este a perder-se na noite almofadada dos lençóis.
O mínimo sussurro era o vento que saía de nós
apanhados no grande bloco de cimento armado
ferindo-nos no mais louco enternecer
com os fluxos da luz a saírem do écran
mais sumido tapado pelas gotas de suor
que em cascatas de vida vinham correr
das testas mais suaves deste mundo.
Ah! não, como não se esplêndido era o fumo
seco a entrar pelos nossos olhos pelos
nossos poros pelo vítreo semi-cerrado do
nosso olhar? ! Eras tu e eu..... únicos
debaixo do mundo que adormecia com uma calma
estonteante com a facilidade de quem
não tem nada para dar nada para amar
nada para beliscar a curiosidade e o sentido
da uma e meia da manhã já quando a noite
parecia ser igual parecia ser idêntica
fria vazia despida de corpos e de amor.
Porém, lá estava a luz vermelha o cabo
do telefone a chamada fácil a gritar pela
noite fora a voz longa e cansada o travar
brusco do carro a caminhada em penumbra correria.
Era o abraço e a noite das mil noites sonhadas
há longos anos de muitos anos como se
a eternidade fosse a palavra mais próxima
a mais projectada igualdade nas duas mãos gémeas.
Grita meu amor, pois o sol entrou com o sono
e a luz veio com a madrugada do outro dia
desse dia em que as nuvens passaram por baixo
do castelo de sonhos que fizemos na noite de
todos os sentidos únicos selvagens e possíveis.
Diz que o fim nunca está próximo nem presente
que não está aqui nem ali em parte alguma
e que os nossos pés são passadas de cavalos brancos
a correrem loucamente na areia das infinitas praias
com as ondas a salpicarem-nos não de espuma
mas de vento esse vento batido entre o horizonte
o nosso olhar a nossa língua e os nossos gestos.
Ah! os nossos corpos como brilham!... Chamam-se
estrelas, sabes? Deixa que pegue a tua mão e a
traga aos meus lábios que a sinta e a veja
que a adormeça no meio dos meus cabelos e a solte
à procura de mim de ti da palavra que escrevemos.
Vem, Encamdala meu barro coberto do meu suor
sem nunca te esqueceres que fizeste com
os teus lábios um arco grande no meu peito!
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
segunda-feira, 3 de Agosto de 2009
Fundo indicado diferentemente

No fundo
Mas o que eu posso dizer de certeza
é que com possíveis e impossíveis
com cicatrizes borboletas berlindes
ruas passos caminhos realidades sonhos
a mão segue sempre a mesma linha
e o tracejado risca-se
de encontro ao descomunal penhasco
que se nos posta à entrada.
Na feia noite de Janeiro
entre o dia ido que foi ontem
e o dia a ser que será amanhã
há o dia de estar que é o de hoje
igual ao de muitos séculos
igual ao de muitas semanas
igual ao muito igual que se desconhece
mas sempre primeiro e único
quando os outros se sucederem.
No fundo até pode ser
que a realidade seja
só e apenas
o parecer-se diferente
como sonho menos indicado
para a condição de fundo.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
domingo, 26 de Julho de 2009
Quem nos substitui?
pormenor do Nascimento de Vénus, de Sandro BotticelliMas, vem esta noite viver comigo
vamos desfraldar nas estrelas
as nossas mãos abertas
os nossos beijos secos
os nossos pés ressequidos
por caminhadas sem lei,
que tomamos, porque necessitamos.
Quem nos pode substituir?
Já não procuramos bandeiras
nem cargas de cavalaria
nem citaras à bandoleira
nem ondas para construir nuvens
nem ossos para edificar museus.
Temos nuvens num sol encoberto
- sempre o mau tempo -
tempo no mar, tempo no ar, tempo no campo
onde os chacais correm assustando as galinhas
os cães que procuram dormir acordados
os homens que descansam de barriga vazia...
Mas, vem esta noite viver comigo
que pode ser a última
que pode ser nunca
que também pode ser o princípio do nosso encontro
numa guarita vazia, sem cheiro
onde se batem fantasmas
de baionetas caladas fumegando ácidos.
Oh ! vem, vem meus doces olhos
de jardins-de infâncias-de mãos-hábeis
vem gritar a música que se rodopia cá dentro
que nos é comum e única
que adoramos e beijamos
porque ainda a pudemos ouvir.
E, quando acabarmos a noite
sonharemos então que nos tivemos
de mãos dadas, beijos feitos, pés únicos.
Boa noite meu amor. Vamos sonhar...
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
terça-feira, 21 de Julho de 2009
Os outros dias
quarta-feira, 15 de Julho de 2009
Traz-me...
Traz-me o mundo
que eu te darei a terra
não o acaso, o ser imundo
que nele anda, prolifera.
Traz-me flores
pétalas mal acesas
lírios debruados d'amores
e não ondas de incertezas.
Traz-me o tudo
o mar sem fim que aqui é
dá-me o teu corpo nudo
para riscar céus e maré.
Traz-me o meu egoísmo
e o reparo de quando me olhas
porque em mim, vês abismo
e não a flor que desfolhas.
José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978
sexta-feira, 10 de Julho de 2009
Além do nada só tu!

terça-feira, 7 de Julho de 2009
Ser
sábado, 4 de Julho de 2009
Rosas nos peitos dos homens
Ela tinha no rosto as cavas fundas das rosas
e no peito o segredo imenso dos deuses
Passeava-se no espaço perdido de várias dimensões
acompanhando o grito com as mãos..... varrendo
o silêncio pesado de véu de viúva
Da sua boca destaparam-se filhos..... vários
estranhamente doentes estranhamente em silêncio
estranhamente estranhos de si-mesmos
véus encobertos que nunca se destapam
nem descobrem nem fogem nem lutam
a lembrarem as cavas fundas rosas
no peito imenso dos deuses..... estranhamente em silêncio
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
sábado, 27 de Junho de 2009
No dia em que …
Tudo vai da lua, da sombra
da montanha, do rio, do luar…
Tudo nasce do nada como eu nasci:
Homem! Mas… que tive para dar?
Será que a sombra me vem cobrir?
Desce comigo a calma do morto
o sangue enegrecido, o corpo a mirrar
o silêncio sempre pronto
para me digerir e olvidar.
quarta-feira, 24 de Junho de 2009
Poema do quarto vazio

Quarto vazio, mas não vazio no meu quarto
estou só, sigo desperto, um acordar farto
repulsa de ter nascido, a olhar o nada
nada, que só diz: ninguém de nada.
É mau falarmos sós, dizer nada a ninguém
olhar pausado num espelho nu: de quem?
Visita de tristeza esta, que faço a mim mesmo
sem saber o que dizer, falar solto, grito a esmo.
Pobre capêlo meu, que sustento na cabeça,
professor de orgia, pensamento, peça
e peça a quem pedir, ninguém me ajuda
aplauso do anfitrião de boca muda.
Então noite, minha harpia amiga,
minha brava companheira mendiga,
voz das trevas e horrores e soluços, que dizes?
Triste quadro este, de directrizes.
Ainda ontem quis pintar um quadro...acabado,
um retoque aqui, uma pincelada ao lado,
olho na mira, mira desfeita, cruz axial
e acabei por traçar uma diagonal.
Ficou belo! Digno de um Picasso...
Noite, noite, como me maço!...
Para quem hei-de eu falar
tão triste, tão triste o meu acordar!?...
Julgas-me louco? Não penso, nem calculo,
matemática dum zero ou nulo,
biologia dum homem de quarto
adeus do homem que sou e que parto.
..................................Já não me farto!
José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978
sábado, 20 de Junho de 2009
TU ESTÁS TÃO VELHA !...

Tu estás velha
tão velha
como os monumentos cicatrizados no meu rosto
velha
como a luz pálida que se apaga no dia
velha
como os dias que morreram sempre iguais
velha
como os quadros que fazíamos em noites por acabar
velha
como as ruas a que nos chegávamos
velha
como todos os abortos que nunca nasceram.
Tu estás velha
tão velha
como no retrato que vi casualmente numa revista
como este tempo que passou e não foi muito
sem te ter e sem te ver...
Velha
tão velha
que já nem te distingo.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
segunda-feira, 15 de Junho de 2009
Quem me dera poder voar
sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Ode Mística
Aparentemente nada resulta.
os mesmos que resultaram de outros séculos
com a mesma força que resultaram antepassados
linhas directas que deram eixo
às formas que hoje somos.
tornando-se seculares
idênticas
sem que o sorriso se alterasse
com a maneira mecânica com que os cigarros
são feitos hoje.
Nada há a dizer quanto ao sexo
que nos deu a mão e outro sexo.
Nada há a dizer quanto à beleza
com que o nosso nascimento foi materializado.
Nada há a dizer quanto à forma
com que as andorinhas criam ninhos
por vésperas da Primavera.
um frio achado em mim-próprio
encolhedor de ombros ante a maior miséria que se viu
ante a miséria de encolher os ombros
ante os ombros encolhidos de miséria.
Estou farto de ser idêntico!
que me fazia vomitar de cobardia
e a que não sabia responder.
Idênticos eram os meus gestos falhos
os meus risos de pobre diabo
a minha identicamente paralela razão de não ser
as buscas contínuas de destino
os amores perdidos no vão duma escada qualquer
ou nos degraus de uma catedral de sinos ocos
observando o sacro prior
humedecendo os virginais fulgores
de uma beatíssima rata de sacristia.
sempre passei por mais uma ou outra pessoa
todas iguais
aparentemente
mas com o defeito do senão
de se quererem assemelhar uma às outras.
Sensatamente fugi
e recolhi-me aos bocejos dum pintor de jardim
acarinhando as flores
como se fossem ondas fluviais
pássaros
como se fossem livros a desfolhar
céus
como se fossem marchas fúnebres
ou figuras
como se fossem raios a curvarem-se.
Do alto deste pequeno inferno
deste púlpito sem ornamentos
de frontal escadaria
sempre pude olhar a Deus
este Deus que me existe cá dentro
que sinto
mas que não vejo.
Este Deus que é a minha Fé
razão obscura e temida
como a tela dum filme de horror.
Deste Deus a quem rezo sem rezar
a quem me dirijo sem me dirigir
e a quem peço um menos de súplica.
Sim
este Deus que tudo encobre e tudo destapa
que é a forma do meu sorrir e do meu beijo
que é a luz deste poema
e é a sombra desta ideia.
Este Deus que deu manha aos homens
e celibato aos padres
já que são eles a cumprirem o mandamento
obediente e de castidade.
Sim
eu sempre tive o meu Deus encoberto em mim
sempre O tive com as lágrimas que escorriam verdadeiras
que escorriam e me inundavam as mãos
suadas de as segurar
esse Deus que era o meu segredo
das grandes noites de reflexo
das grandes noites de magia oculta
das grandes noites de sossego e paz.
Mas se vim do homem como ter Deus?
Não seria preferia ter barcos e aviões?
Ou mesmo várias mulheres ou vários homens?
Ou mesmo as ideias umas conta as outras?
Sei lá o que estou para aqui a dizer...
Sei lá porque falo deste mistério
que constantemente me envolve
e me deixa descansado quando nele penso!?...
Sei que quando me deitar deixo de pensar Nele
deixo de me dizer que Ele existe
que Ele não é mais do que o meu Eu a confundir-se
a minha sensação de medo e de culpa
a minha razão porque hoje estou vivo
e amanhã desapareço sem deixar rasto.
Mas se assim for
que o seja. Nada é mais natural
nem mais verdadeiro nem mais evidente.
O mundo
- que não pode ser as mãos de uma criança -
rida como um carnaval de indiferença
mascarado e fugidio
ambíguo e sem conseguir ser irónico.
E por isso as minhas mãos choram suadas
suam de choro
e põem-se em forma imprópria de oração.
Nos cemitérios os restos de meus pais
de meus avós
dos avós de meus avós
da geração antepassada que me ungiu
reclama em voz de sepulcro a minha voz.
E dou-a!
Possivelmente
muito possivelmente será para eles que falo
que enuncio um poema
que desdobro as palavras e firo razões.
Será muito possivelmente que grito
o meu grito de mártir e de diabo
se mártires são os santos
- em que não acredito -
e diabos os vermes que me irão comer.
Mas não.
Para isso há o fogo para que nada resulte
para que tudo desapareça
para que o monte de cinzas seja o lugar
onde os homens escolheram descansar.
No fundo és tu meu ser humano
disfarçado
fundo que nasce e não se completa
olhos de madrugada a cantarem razões
sorrisos de vésperas a anunciarem que as sombras crescem
e se diluem no morno dos nossos sentidos
que passam perdurantes de nós.mesmos
e se embalam no sonho-sexo duma noite por achar.
Assim somos nós
eu e tu
comungantes deste delírio que nos acode
desta presença que não é presença
desta fúria matizada e breve
que são os nossos corpos por se achar.
Mas entre uma noite e a madrugada
há o silêncio desta vez.
Há a maneira dos teus lábios a serem presença
e o encontro das tuas mãos nas minhas.
Por tudo e uma razão
nasceste na manhã em que Deus feriu o mundo
no momento em que o pássaro sentiu o tronco
em que o homem balbuciou o queixume do teu sorriso
em que a forma ganhou a íris do teu sexo.
No fundo
nada mais tinha a dizer.
Era tudo breve
breve
breve como o dissilábico da tua voz
infante
ínfima
única
a reproduzir
que o mundo só acaba nos lençóis.
E o que é o sonho
senão uma noite que se faz?
E o que é a manhã
senão um dia consumado?
Entre ti e mim
agora
há o silêncio que nos busca.
E não será que o buscar
é a forma que achamos própria?
Calemos o silêncio.
Calemos o fulgor que nos arde.
Calemos a própria voz e busquemos a luz
num reflexo de luz frouxa.
Ah! como buscar não perdoa!
E as tuas mãos na tua face
têm o querer duma ave de rapina
o gesto duma acção momentânea
e a busca de te encontrarem comigo
numa cama de pau e esteira.
Fugindo
tenho a nuvem do meu cigarro
diluído
fumegante
atroz sinal de que o tempo se completa
que perdura através do tempo
e que o mesmo tempo
é um sinal que não corresponde.
O tempo é um engano.
O nosso nascimento outro-tanto.
Mas também tenho que dizer que a minha almofada
é tão pesada quanto o meu cansaço
quanto os meus olhos que se abrem pesados
pela manhã e fogem para a água
com medo de secarem.
Por isso desperto e enfrento a luz.
Por isso observo os olhos dos que passam inutilmente
dos que agarram com as mãos as esquinas das ruas
lançam um sorriso e escondem lágrimas.
Pode bem ser que sejam eles os que verdadeiramente amam
os que passam em busca do modo e encontram o tempo perdido
os que por um pedaço de pão pensam ter a barriga cheia
ou que por não terem barriga julgam-se com o corpo fresco.
Pode bem ser que sejam eles os poetas e eu o antipoeta.
Pode bem ser que lhes pertença a rua ou as badaladas das horas.
Pode bem ser que leiam os livros que eu não leio.
Pode bem ser que não seja eu quem eles olham.
No fundo
olhar é distinguir uma aparência que se não distingue
uma imagem que por ser viva também é falsa
um corpo que por lá estar não se percebe.
No fundo talvez lá bem no fundo eu seja quem não julgo ser.
Talvez que eu seja a aparência inaparente
ou uma forma movediça que tem pés e mãos
ou o resultado duma catástrofe de leito.
Certo que a manhã vem brincar com a alma
vem arder onde haja um reflexo
uma mão uma janela um assomo de sombra
um riso infantil duma criança feliz.
Mas será que uma criança é feliz?
Perdoa criança
mas eu não quero chamar-te infeliz
eu não quero que me venhas dizer que a sombra te atingiu
nem que o pássaro caiu do beiral com a minha pedrada.
Não! Eu não quero dizer nada disso
mas somente perguntar-te se és feliz?
Acredito que a felicidade seja algo muito importante
pois mais do que ninguém tu deves merecê-la.
Mas à medida que fores crescendo
encontrarás pelo caminho a outra face do espelho
aquela-mesmo em que olharás e te verás diferente
enganada desiludida baralhada
sem vontade para nunca mais creres em felicidade
que foi feita pelo homem com a mesma argúcia
com que criou outros nomes e outros gestos:
a guerra como o exemplo mais intimo nele.
Mas um dia decidi pintar o mundo.
Estiquei o braço
levantei o dedo polegar
fechei uma das vistas
e tive a impressão de que as silhuetas
não eram tão nítidas quanto o horizonte.
Por isso voltei a repetir os gestos.
Aparentemente a diferença não era nenhuma
a não ser um ligeiro contorno que se adivinhava
numa frente paralela ao risco do horizonte.
Atentei bem com os dois olhos abertos.
Sim, não havia dúvida: era o mar! ...
Mar
explosão branca de carroceis em redor de monstros
sem vizinhança que lhes possam destruir a imagem...
Paralelipipedos de estradas inteiras
de volta ao mundo na razão de vinte e quatro horas...
Sobejos fossilizados que se mantiveram na razão de anos
como imagem directa duma luz preelítica ...
Acordar de muitos sonhos que se distinguiram nos tufões
e se martirizaram nas grandes tragédias de fundo ...
Mar
onde tenho eu o teu espaço?
Essa imensidão sinistra que me embala e me cativa
sabendo eu que és um assassino em potência!?
Forçosamente que terei um destino bem diferente do teu
um acordar com as suas distâncias e paredes
algumas árvores em redor e o silêncio
dos pássaros nas manhãs arejadas e dissipadas nas névoas
que não teimam em ficar...
Mar
de relíquias feitas em dias de longas horas
com o pranto das aves a mergulharem baixo
os penedos a saírem dos promontórios esguios
a minha paciência a não ter limites
e tu cada vez mais distante
mais distante
tão distante que nunca te vi nem senti
nem chorei pela perda das tuas marés.
Mar
hoje tenho um infinito que não desvendo
nem te abro no guardanapo de todos os dias
de todas as noites de todas as mazelas que me fizeste.
Quero-te grande
assim como estás
grande como a grande cordilheira que passa
por debaixo do meu olhar
olhos de luz afogada e mão branca
branca de mim vermelha de tudo
até de sangue que não pára de escorrer.
Mar
não quebres o meu silêncio e não o escondas no teu.
Não brinques com o meu sorriso e não o transportes
na fuga da tua raiva esverdeada.
O que eu quero não o tens.
Amanhece o dia e a luz solta-se de encontro à minha mão
que se estende pela cidade de rua sem almas.
O que eu quero não o encontro em lado nenhum.
Vem com o silêncio e afasta-se com o desconhecido.
Talvez amanhã o sol mude de posição
as mãos se ergam e os gritos estoirem
as ruas se encham e a cidade viva
para que o tempo marque o virar da História.
O resto
virá da Terra em palavras e livros...
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
segunda-feira, 1 de Junho de 2009
HÁ CÉU AZUL NUM TRAÇO VERMELHO
pintura de Vincent Willem van Gogh Há estradas que circundam o nosso sorriso
mares que circumnevegam os nossos beijos
montanhas que nos gritam como aves
pedras que rolam como mãos
o grande anfiteatro a parecer pequeno
e onde julgamos não caberem os nossos olhos
Só que a estrada é mais comprida que a nossa fala
As velhas persianas ... ao fecharem-se ... estalam
de secas ... gripam dos gonzos ... rodam nos eixos
com o barulho característico de quem se esforça
As mãos abertas buscam os contrafortes das vozes
as silhuetas das faces em ginástica apressada
mímica transfugada para as paredes do acaso
onde se escondem as sobrancelhas cerradas
dos palhaços tristes
Mas vêm as pancadas na madeira aberta
Molham-se os lábios com a saliva da Hora
o cabelo com o barulho do ar
a nossa alma com o nosso medo
Mas do céu azul há sempre um traço vermelho
a gritar o nosso desprezo ... a nossa fúria ... a nossa ânsia
os mares da nossa fé ... de inocentes martirizados
canetas de água-tinta ... a comporem epopeias
enfrente do rochedo enorme ... informe ... sedento
Mas é do meio das nossas mãos que brota o suor
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
quarta-feira, 27 de Maio de 2009
Os teus trinta anos

sábado, 23 de Maio de 2009
Quiseram-me
pintura de Edmund Dulacpraga viva em existência desfeita.
Quiseram crente, nasci agnóstico
pedido impossível para quem não vê
lugar no futuro para quem crê
incógnita de que existo e de que fico.
Quiseram-me tudo e, afinal sou nada
imagem para esquecer, nome para apagar
tempo perdido sem nada ficar
excepto ossos, para a árvore ramada!...
José Manuel Capêlo, Miragem, Editora Montanha, 1978
quarta-feira, 20 de Maio de 2009
PELA PROCISSÃO
sábado, 16 de Maio de 2009
As longas horas de encontro
Longamente... a noite
a fácil luz de todos os delírios
de todos estes medos que guardo desde a infância
essa, que só me soube a trevas e a embuste
a memórias fáceis e desatirculadas
a longas horas de encontro comigo, a sós comigo
com os meus vultos e os meus delírios
a minha imaginação fácil e desempoeirada
acontecida em longas horas de sono vivo e feliz.
Quem me soube ver quando me procurava
nas imensas manhãs de um qualquer dia sem dia?
Quem me soube entender quando me perguntava
de onde - ou de que lado - vinha a luz
quando se distinguia a sombra incontrolável das trevas?
Quem me soube responder a esse passado
que, de tão recente
tinha a visão da minha orfandade
vista por tantos
e pouco, ou nada, entendida por poucos mais ?
Foi brevemente longo o meu desespero
a minha ânsia descontrolada
o lado outro, que não era meu, porque o não tinha
e não sabia a quem pedir!?...
Quem fez de mim o que sou hoje?
Quem se lembrou de me lembrar?
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
quarta-feira, 13 de Maio de 2009
À noite, na cidade

segunda-feira, 11 de Maio de 2009
Mágico fogo da inocência
Deixei o sonho
-essa língua de fogo que me ata ao ser
ou ao instante que pesamos-
quando acordo com o sorriso
do mágico da cena e privilégio.
E que sonhos deixo passar
por entre os dedos da fortuna
- invios como o éter ou como o arvoredo
no seu imenso lago de aves e vinganças-
sem que me sinta inocente... e confuso?
Não procuro os sonhos
Os sonhos... sonham-me!
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon. 2000
sexta-feira, 8 de Maio de 2009
ESTA MANHÃ QUE NÃO CONSIGO

quinta-feira, 7 de Maio de 2009
UMA GOTA DE ÁGUA

terça-feira, 5 de Maio de 2009
PONTO DIFERENCIAL
segunda-feira, 4 de Maio de 2009
De ti, oh! amada

sábado, 2 de Maio de 2009
toda a incoerência, toda esta sombra de princípios, que existe
na consciência dos homens, na mente da Igreja, nas falácias dos
conselheiros nas mãos das grandes fortunas de Itália,
nas mãos do mundo?!...
E eu aqui, aqui preso nas masmorras dum cardeal tirano
que empreendeu perseguir-me pelas estradas e cidades da Europa
e prender-me para seu gozo e prazer, como se fosse um assassino
- antes o fosse! – ter-me à sua disposição para que renegasse
a minha fé e a minha consciência, os bens mais preciosos de que
disponho
faço uso e sigo, para dar-me e aos que me escutam, - esta infinidade!-
consciente de que poderei nela errar, mas que sinto estar certo
quando a explico, a uso, a faço entender e reconhecer
nesse Deus – que me espera -, como unidade infinita
na conciliação dos contrários, como causa imanente do Mundo.
Amore mio, aqui te segredo a minha paixão, a minha última palavra
o sentido da vida e da eternidade, essa conjunção que me torna
presente
e conquistador do eterno, na mente dos homens, na consciência
dos povos
na imensidão do futuro, que sempre foi o que procurei
nesta minha vida, errante, brusca, dilecta, mas apaixonada:
por ti, por mim, por esse Deus – a Sua causa e Destino – omnipotente!
Guarda-me e segreda-me, como se te lembrasses dum velho
que te segredou as últimas palavras e os últimos pensamentos.
Guarda-me, como eu te levarei, no último grito, entre o fogo da
fogueira que me consumirá o corpo, o sangue, o cérebro
mas nunca as ideias que deixei e consegui fazer vingar.
Guarda-me e segreda-me… o teu louvor e a tua lágrima.
sexta-feira, 1 de Maio de 2009
Ali estávamos nós, no rubro em que os tendões se desgastavam
quarta-feira, 29 de Abril de 2009
O velho moinho transformado
O velho moinho transformado
acolhia-nos com a pedra mó no lugar do sagrado, bem fixa
como a estrela polar que nos encaminhava as mãos.
O corpo. O instinto.
Deixamos para trás o mar
na longa onda que nos recebeu em pleno
como se o voo da gaivota, que entretanto passara
anunciasse o clamor dos deuses na era plena...
Então, eles escreveram para que se anunciasse:
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
terça-feira, 28 de Abril de 2009
Da louca paixão do corpo
Mais do que a verdade dos sentidos
é o que corre pela mão do vento que nos cerca
inundando os vales que as mãos procuram
e os nossos desejos ferem de ânsia.
Impossível dizer que a indiferença está em nós
quando um olhar surge. Possível e certo
é marcarmos o segundo com a presença do corpo
invadir o grande vale com as mãos abertas
desfolhar as margens com o orgulho do menir
sem que nos lembremos que a terra
é o lugar em que descansamos o nosso sentido.
Mais do que a verdade da vida
é a lonjura do corpo em que nos afogamos
e bebemos o delírio, o instinto e a indiferença.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
domingo, 26 de Abril de 2009
sexta-feira, 24 de Abril de 2009
O RASTO DO POEMA
o sentido das luzes a apagarem-se dos candeeiros
a grande mancha da cidade a aparecer visível
e a minha grande alegria ao sentir-me vivo.
quinta-feira, 23 de Abril de 2009
segunda-feira, 20 de Abril de 2009
Qualquer realidade é como uma andorinha à procura do beiral da Primavera
domingo, 19 de Abril de 2009
Lugares de todos os lugares
tudo o que contigo aprendi nessa infância aberta
entre a fugidia maravilha dos dias jovens e o anguloso destino
dos dias preparados por sábias mãos, o encontrei nessa terra albicastra
que me foi lugar de nascimento, sedução e lembrança.
Contigo vivi o cheiro do azeite das ladainhas a iluminarem santinhos
postados em nichos e pequenos altares, aqueles a quem expressavas a tua fé
romana, outrotanto pagã, entre deuses e demónios que te perseguiam e enlutavam
principalmente quando acendias ou incensavas cadinhos de intenções
naquelas noites em que a substância dos dias e o enredo dos homens
faziam oráculos todos esses que se comemoravam para lá de todas as datas.
Sabes tia,
também jamais esqueci que essa linha recta invisível, mas seguríssima
que enfileira Monsanto com Idanha-a-Velha passando por S. Pedro de Vir-a-Corça
por essa ermida escondida entre penhas e silêncios, feita de mistérios e segredos
se tornasse um dos lugares sagrados que as pedras guardam e a terra cala
ou se lembrasse como princípio e fim de um rito que se prolongou
até que os homens se apercebecem de que não é com o furor da guerra
nem com os enganos da paz, que tudo se esquece ou apaga
mas sim pelas frases que se murmuram e prolongam pelos dias
— de todos os dias, até aos dias das pedras e das estrelas —
em que as evidências se colocam e se decifram tão distintamente
como qualquer documento deixado em papel, madeira ou pedra.
Sabes tia,
o meu poder, aquele que baptizaste e sagraste com a tua mão
não foi tirado do vento nem dos olhos dos homens: veio do ciclo da terra
dessa mesma que me ungiu como equinócio e solstício
de verões e invernos que se prolongaram e juntaram, como as marés
— esse vaivém contínuo de movimentos de horas e dias.
De ti, tia, guardo o encantamento do segundo e do lugar
da tua mão e do teu riso, também dos teus gestos e memórias
para que saibas, já que não precisas de me lembrar, porque o descobri
que a soma da realidade da vida, desta terra que pisámos e guardámos
é a existência: a eterna lembrança feita, na visão da sombra e da luz.
José Manuel Capêlo,
sábado, 18 de Abril de 2009
COBARDIA
Apetece-me gritar o teu nome
para que todos o oiçam
e fugir depois...
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
sexta-feira, 17 de Abril de 2009
Primavera

José Manuel Capêlo, publicado no romance de Sabina Ricagni, Heróico Fogo da Primavera, Zéfiro, 2008
quinta-feira, 16 de Abril de 2009
Fogo
Deitem-me à sombra do loureiro
para que descanse nos sonhos eternos
junto à pedra tumular que ganhei aos celtas
gravada que fizeram a sua suástica
de braços redondos, seculares e idênticos
Deixa que me sepultem entre os dois
Para que me lembrem nas cinzas
Em que me quiseram desfeito.
Lembra-me no silêncio
para que o meu sorriso seja o mesmo
sempre, sempre igual ao que te repeti
ao longo de todos estes dias, estes anos
igual à força duradoura de um amor eterno.
José Manuel Capêlo, publicado no romance de Sabina Ricagni, Heróico Fogo da Primavera, Zéfiro, 2008
quarta-feira, 15 de Abril de 2009
terça-feira, 14 de Abril de 2009
ENTREGA
Regularizo ......molemente ........o passo
finjo que brinco .............com os olhos
destapo ........a tampa ........do universo
e ........entrego-te
de bandeja ........os meus dentes.
Faz deles .......o que quiseres .......menos
colocá-los ........ na tua ........ boca.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
domingo, 5 de Abril de 2009
Infinito em transparência
pintura de Thomas Gainsboroughsexta-feira, 3 de Abril de 2009
Com a paz nos olhos cheios
quinta-feira, 2 de Abril de 2009
Oh! minha Ilha-Verde da paixão
Oh! minha Ilha-Verde da paixão
como a nossa Verdade não se esconde, nem se encobre
não tapa o que o sol descobriu para nosso perfeito defeito e conforto.
Este, o grande mistério-verdade que a terra nos proporciona;
porque sabendo-nos, sabe-se!
Sem hipocrisias, sem fingimentos, sem adulterações
na pequena fábrica do nosso aconchego e enlevo.
.
Como razão de muitos dias
segredas-me o teu querer e a tua paixão, à mesa do tempo
por entre o deslumbramento das lágrimas
na amadurecida ausência das perguntas
no transbordante recolhimento das respostas
na impenitência que te faz perfeita
.
quarta-feira, 1 de Abril de 2009
MONTESEGURO
para o Lud
Tiraram-me de cima as vestes de esmeraldas
enquanto adormecia.
Uma Dalila no tempo
cortou-me os cabelos
e ao som de marchas
fui parar a um cemitério sem ciprestes
enquanto homens juntavam piras
no centro do castelo
para imolarem outros-tantos
que se juntavam nas masmorras.
Perdera-se o vaso
mas ganhara-se o reino dos céus
enquanto a fortaleza permanecia calada
- lá no alto-
transponível por uma só entrada.
Movimentavam-se aí as sombras dos albigenses.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
terça-feira, 31 de Março de 2009
Destino
segunda-feira, 30 de Março de 2009
A paixão de amar
A origem da Via Lactea, de Tintorettodomingo, 29 de Março de 2009
Tempo de regresso
com que sonhaste o regresso do infante adormecido
por entre as vagas que se levantam do mar imenso
ou no seio da floresta, em verde aberto.
Escuta amada, o murmúrio dos ecos
no levantar das folhas de encontro à brisa
ou a visão do sol, que se dilui na claridade da noite
lugar secretíssimo que ninguém descobre
e onde só nós estamos.
Que sei eu dizer-te, que já não saibas ou penses
- mesmo que o meu sorriso se ilumine de sombras -
se só tu decifras a lonjura da terra e o rebordo do mar?
Que sei eu provar-te que não me tivesses dito
senão esta natureza que se criou em-mim
mas que veio de ti, sem que jamais o soubesses?!...
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
sexta-feira, 27 de Março de 2009
José
José,
deixa que a tua fraqueza encolha os ombros
que os dias se levantem azuis e acabem em chuva
que a tua alma parta sozinha e viaje sempre
que o teu grito seja o eco no próprio vazio.
Dentro de ti, lá bem no fundo, és tu...
Ninguém te conhece. Os olhos são cegos
as mãos imensas, o frio ímpio, o calor tórrido
e todos têm Pátria e todos têm gente
só o frio que o teu olhar sente
é mais quente
......................que todo o sol no mundo.
José,
vai, descobre por ti mesmo cada erva na planície
cada toca de coelho bravo, todo o ninho de ave
toda a fogueira a arder no finito distante
toda a chuva e todo o vento
todo o enigma do poema - que é o teu!
Quem te pode falar as palavras e os risos
o choro, as emoções, os arrependimentos, os gestos
as miragens, os quadros, o poema?
Todos estão fartos, e cansados, e tu, vives
no mundo que te ignora ou te condena
sem mesmo que ele-dele tenha pena
embandeirado em crena
............................um arco desfeiteado.
José,
escreve o teu poema e deixa que o mundo continue
porque nunca houve um quadro acabado
sem que uma mão o pintasse!
Não tenhas remorso desta vida, deste tempo curto
destas horas fartas de rugas, de mãos cheias de vício
onde o sol se põe - como em todos os lugares-
porque a promissora morte, a morte inesperada e decente
não é ingénua, nem solitária, nem consente
que toda a mente
......................a leve para longe de si.
José,
assim, nunca estarás só ou insatisfeito
nesta lenta
........... e triste
................. caminhada
.................... dos dias...
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
quarta-feira, 25 de Março de 2009
LONGOS BRANCOS BRAÇOS

terça-feira, 24 de Março de 2009
LUZES... COPOS

segunda-feira, 23 de Março de 2009
Como se não bastasse
pintura de Amadeo Modiglianio clamor invadiu o lugar e dei por mim a segredar-te:
Então, vendo que éramos dois
os deuses calaram e resguardaram-se no seu lugar.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
domingo, 22 de Março de 2009
Quem correu comigo ao longo do rio e se transformou em mar?

sábado, 21 de Março de 2009
Vieste igual, porque vieste tu
pintura de Georges Seurat Vieste igual, porque vieste tu
infinita face em que o suor escorre e o sorriso se anima
lugar de encontro onde a luz tem som
sinal vindo do claro-escuro onde tudo se destrinça e se esfria
-porque infinito é o eco da alma! -
malha sagrada onde se tece o Império, o Segredo
o velo temporal da Humana criatura, sílaba enunciada do silêncio.
As horas ficaram, porque eram!
Ruas intemporais de tantos passos dados
seguindo os caminhos habituais
os lugares destinados, as cadeiras à espera.
Sobre nós, corria o prédio de três andares
forma onde se esbatia o nosso ímpeto e o fulgor do suor
realidades de noites que se evadiam na ternura das dunas
ali à frente, com o mar em refúgio de ondas
perdida mancha duma palavra constante e vibrátil.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
sexta-feira, 20 de Março de 2009
ADORMECER
quinta-feira, 19 de Março de 2009
de então...até agora
Como vai longe a minha infância
mascarada do gelo da serra
onde nasci, entre a vertente da Estrela
e o leito do Tejo, ainda fraco.
O crepitar das fagulhas de inverno
e o suor escorredio do verão
o amor e fala suaves de minha mãe
o chorar rabugento e vivo de minha irmã
o saltitar para a rua empoeirada
e a soante tareia por chegar tarde...
Tudo isto, em tempo de férias...
Mais longe, entre o fronteiro e o alto
do casario lisboeta, entre esse mesmo rio
e as pradarias verdes ribatejanas
onde cresci nos primeiros passos duma juventude
quase despreocupada, entre
a voz suave e o amor de minha mãe
as partidas de minha irmã, a tomar forma
o saltar p'ra praceta arranjada
postada mesmo enfrente
e a soante tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aulas...
Ainda mais longe, entre terra e terra
da vizinha Espanha e do antepassado Marrocos
na plena seiva uivante da minha adolescência
na forma gritante, do quero e posso, do
aqui mando porque me crio e defendo
nas cartas demandantes de aflição material
e da fome no estômago de dias sem comer
no amor e escrita suaves de minha mãe
do eco de desaprovação de minha irmã
do voltar para casa com ar empoeirado
a reprimenda e o sopapo por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de aventura...
Quando agora, já mais próximo
entre o mesmo casario e o mesmo rio
com a força dos anos ainda forte
pai duma filha que nasceu chorando
primeira da minha composição-macha
seiva do meu grito breve e fecundo
do eco uivante de todo o meu ser
sem amor e palavras suaves de minha mãe morta
duma irmã que perdi na separação dos bens
com o corpo ainda quente daquela que muito amei
e que nunca mais me daria a reprimenda
o sopapo, a tareia, por chegar tarde...
Tudo isto em tempo de angústia...
Quando ainda mais próximo
entre a partida e o regresso de cada voo
que é o meu trabalho e o meu sustento
senti a força do mundo e amei a mulher
na forma que é, na força que tem
voltei a viver e a sorrir e a chorar!...
Então, sim, então escrevi tudo o que é meu
na forma sincera do todo que me habita.
Escondi também, criando a forma, a expressão
daquilo que não sou e nem serei...
Tudo isto em tempo de meia-felicidade...
Quando e ainda mais próximo
mais uma filha tive nascida na britânica ilha
de carne lusa e carne inglesa
que não chorou nascendo, nem corou gritando...
Quando mais outra veio do mesmo modo
do mesmo corpo, do outro corpo e do mesmo sítio
em dia único de nome de rosa encoberta...
Assim, que reste o tempo de vida
olhando da minha infância a terra serrana
e o coito da grande urbe em movimento
- palco de gente movediça
crepúsculo de deuses e feras
minadas de ideias que saem e não nascem -
assim, que reste o tempo
entre o casario e o rio enquanto viver...
Tudo isto em tempo de rotina...
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
quarta-feira, 18 de Março de 2009
os cafés não podem morrer!
Não podem ser transformados em bancos
em vazadouros públicos, em memórias desarticuladas
em banquetes de opíparas magias
em casas de curta duração.
Onde estão os meus cafés perdidos
no meio do meu orgulho
da minha fronte de amigo vizinho
criador de palavras e de imagens
de puro amor às ideias?
Não, não, os cafés não podem morrer!...
Não deixem desaparecer as mesas
as bicas, os bagaços, os cinzeiros
a nossa alegria ou tristeza
de falarmos de cadeira para cadeira
em que cada conversa é uma ideia
em que cada ideia é uma geração
em que cada geração é a própria história.
Não, não, os cafés não podem morrer!...
Não pode morrer o que mais sagrado é
para todo aquele que ama a vida
a liberdade, a alegria de se saber
quem é e não é
e que o leva ao mundo maravilhoso
do ar empolado de fumo dos cigarros.
Como poderá morrer um café da avenida
dum parque, duma rua, dum largo
duma praça onde voam pombos, passam pessoas
caminham turistas e correm ladrões
que por serem ligeiros, se espaçam nas massas
das multidões desatentas e confusas?!...
Não, não, os cafés não podem morrer!...
Vivam os cafés abertos, os cafés-concertos
os cafés-botequins, os cafés Martinho (d'Arcada)
os cafés Gelo, os cafés do Chiado
(Brasileira, Benard, Tavares, Grandela)
as ruas a subirem, as ruas a descerem
os olhos falando, as mãos pedindo
a eterna bica e o quente bagaço ...
Vivam quem os inventou!
Nada, nada os poderá transformar
desaparecendo do nosso conforto
do nosso sentir de clepsidras
de graníticos lepidópteros
fantasiantes mancebos surrealistas
fantásticos plagiantes presencistas.
Não, não, os cafés não podem morrer!...
E se o fizerem
acabe-se Lisboa !!!!!!!!!!!!!!!!!
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
segunda-feira, 16 de Março de 2009
há tanta gente... tão pouca gente
sábado, 14 de Março de 2009
O desejado
sexta-feira, 13 de Março de 2009
Há um sonho dentro do teu olhar azul
ghirlandata, de Dante Gabriel Rossettiquinta-feira, 12 de Março de 2009
cresce em-mim a cidade
do vento. depois, em uníssono
vagueiam os passos na procura direita da posição
que é aquela que os homens tomam quando se espantam
ao se encontrarem direitos, de se verem em pé
de continuarem vivos.
os homens vivos?!...
os homens com as cabeças levantadas, ainda?!...
os homens com estas personalidades que os tornam
distantes de tudo e de si-mesmos
como sombras resguardadas no canto da primavera?!...
cresce em-mim a cidade deste País tão belo
e de homens que andam sem saberem para onde vão!
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989
quarta-feira, 11 de Março de 2009
pelo outro lado da terra
Boreas, de John William Waterhouseterça-feira, 10 de Março de 2009
ter herdado tudo, de nada e de ninguém
ter herdado tudo
de nada e de ninguém.
luzes do meu universo cheio
onde estão as sombras do meu vazio pleno
as linhas do meu horizonte fácil
as rodas da minha máquina perpétua?
fumo sem cessar os cigarros da minha arteroesclerose ímpia
bebo sem me importar o álcool da minha cirrose sem dentes
fornico sem me caber a sida dos meus testículos inchados
grito a plenos pulmões a dose da minha over-dose inicial
rabujo contra os defeitos das minhas crianças apanhadas na mão
mastigo o doce que o empregado da confeitaria me pôs entre os dentes
pergunto ao Esteves, o da Tabacaria, se já mudou a tabuleta dos anos
imagino o poeta a embebedar-se com as sombras da noite
o pintor a esquizofrenizar-se com as luzes das cores
o aviador suspenso do seu balão estático
o motorista da caranguejola sem cheiro e sem buzinas.
enfrento o mar e pergunto pelo tubarão devorador da última perna
da mulher que enfrentou o marido e se cobriu de lágrimas
do último crime da rua do galeto que se repetirá daqui a dez anos
igualmente, pontualmente, como a luz que acendo sobre a minha cabeça
nessa variação que a terra dá e o tremor faz abanar?!...
ter herdado tudo
de nada e de ninguém
como ser único, solitário e temente.
por hoje basta de vultos e de efemérides
que as linhas do meu horizonte facilitam
e as rodas da minha máquina perpetuam.
José Manuel Capêlo, Enche-se de Eco a Cidade, Átrio, 1989
segunda-feira, 9 de Março de 2009
Como é louca esta velha terra de bravos, virgens
painel esquerdo da Tentação de Santo Antão, de Hieronymus Bosch Como é louca esta velha terra de bravos, virgens
putas, cobardes, imbecis, para-génios
duendes, pigmeus, velhos, apátridas, traidores
e ninfas vestidas com paramentos de noviças.
Como é louca esta velha terra tresandando a enxofre
e a histórias de pecados e delírios, riquezas e misérias
despovoadas nas barracas de cobre ou erguidas em amoreiras
de super-luxo. Gritam-se os contrastes, mas que fazemos
para os desfazer? Gritamos o belo, mas que fazemos
para que o não seja, para que a luz não se baste à sombra?
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
domingo, 8 de Março de 2009
Infinidade, sempre ...

sábado, 7 de Março de 2009
Passo ...
sexta-feira, 6 de Março de 2009
DEIXA QUE DURE O TEMPO
No teu olhar há um sonho
que sonhei múltiplas vezes.
No teu olhar, um regaço
em que me acobardei sem sentido.
Deixa que os dias sigam e os ponteiros se movam.
Deixa que dure o tempo.
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
quinta-feira, 5 de Março de 2009
Parapeito
quarta-feira, 4 de Março de 2009
VAMOS SONHAR...DORMINDO
Vamos sonhar naquelas águas calmas
que descem em cascatas de vida
por aquele desfiladeiro de verde ! ...
Vamos sonhar o nosso sonho
para que ele se abra em flores de lilás
ou em música de Tchaikovsky
para nos amarmos melhor.
Vamos chamar os nossos sonhos de amor
numa tarde de chuva, para que se elevem
e nos deixem pensar no dia
amanhã chegado e sem pressas.
Vamos dormir meu amor
para que eu olhe nos teus olhos
a certeza de que amar, não é só
a forma de te sentir viva e minha.
Vamos sonhar o nosso sonho!
José Manuel Capêlo, Fala do Homem Sozinho, Editora Danúbio, 1983
sábado, 28 de Fevereiro de 2009
DA TUA BOCA
Rapariga com brinco de pérola, de Johannes VermeerOlhei um ponto perdido não sei onde em que distância
quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009
Suprema intensão
terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009
Ruas imensas dum certo desespero
sábado, 21 de Fevereiro de 2009
Vaga visigótica
sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009
Ode infinita

ser em ti vagaroso como o rio que nos cerca
compreender que a vergonha não és tu nem eu
nem tão pouco o castanho das madeiras
mas as angulosas cabeças de chapéus de feltros.
Imagina-te anzolada à minha dimensão metafísica
à ignorância colectiva que é aparentemente um fracasso
ao espaço hesitante do subproduto
à vergonha honesta de que vale mais importar
do que mingar tumularmente de fome.
Oh! Pátria, nada me impede de pensar
que, também tu, possas ser sempre eu
lastimável, acabrunhado, indeciso
recuando ante todo o vulto sentado
lembrando o meu passado sem história
no presente movimentoso e aparente.
Pensa que não vim de ti, mas me absorveste
gélida, tórrida, transparente, inofensiva
mãe, prolixa e diminuída, de achados
de líricos que se comprazem à modulação do canto
e se rasgam em lágrimas à hora do Natal.
Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
e saber que também a tens.
Não saber nada e dizeres que me cale
mantenha o mesmo passo e o mesmo olhar
suba aos edifícios e desça aos esgotos
analise os olhos e aguarde em sereníssima contemplação.
Acho que dizer - acabe! - não basta
já que o lento movimento das nuvens
nunca simbolizou temporal
nem as persianas a fecharem-se
significa que crianças adormecem.
Lento, é todo este movimento
diagonal
indulgente
formidável
cómico
com todas as suas arenas modificadas
de estranhas larguezas
lembrando chaminés
e o mais que se entrega num leito almofadado.
É tempo de dizer que nunca me tive
(nunca te tive)
nunca passeei com a tua estranha monotonia
a tua calma aparente
simbólica
consciência de feitos inacabados
horas de partida
de chegada
choros de faces sofredoras
mãos cobardes.
Desci aonde podia
aonde nunca ninguém me obrigou
onde sabia nascer um cavalo
com cara de menino
pestanas de escorpião
mãos de foca
silencioso e sem vertigens.
A partir desse momento meti na cabeça
que a estrada continuava
seguindo, uniforme, as cadeias de montanhas
delicadíssimas plantas lupanares
tropeçando nos regatos e nas cascatas.
Para cima
haviam as pontes estruturais, magníficas
não sei de que ano, de que tempo.
Só sei que lá estavam
como tu
Oh! Pátria
manifesto profundo das minhas palavras.
E eu que nunca fui um rei
no meu planeta?!...
Nunca tive palavras
nem gestos
nem o medo dos infelizes
dos que procuram
acobardando-se no pouco que comem
olhando simbolicamente
pois foram para isso que nasceram!?...
Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
e sentir-te vagarosa como eu.
Que estranho destino o contemplar paredes
a olhar sés que não percebo
monumentos, pontes, estradas, rios, florestas
céus, antenas, murais, risos, imagens, curvas
como o pensamento que me alaga
me conduz e me deixa sem que nada perceba.
Como um grande vento, Oh! Pátria
o teu rosto aparece-me no espelho
salpicado de mil cabelos, mil olhos
a loucura enorme de gestos, de palavras
de desenhos e pinturas, de poemas
de frases loucas de sentidos sem sentido
máquinas e poses, grandes telas de sorrisos
fáceis manobras de testemunhos e estímulos.
Oh! Pátria, ver em ti a minha solidão
que é toda
e é nenhuma!
José Manuel Capêlo, corpo-terra, Trelivro, 1982
quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009
deo-la-deu-oh-linda
pintura de Pierre-Auguste Renoirquarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009
amanhã saberei o segredo que há em-mim
pintura de Georgia O'Keeffeterça-feira, 17 de Fevereiro de 2009
As árvores eram silhuetas breves
José Manuel Capêlo, Rostos e Sombras, Sílex, 1986
segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009
Hora segunda
domingo, 15 de Fevereiro de 2009
Idade que se compõe, quando no silêncio e no fresco da noite
Idade que se compõe, quando no silêncio e no fresco da noite
cumprindo o ritual antigo, nos baptizamos de céu claro e sem nuvens
com as estrelas penduradas num chamamento breve e perfeito.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
sábado, 14 de Fevereiro de 2009
Na forma e no sentido sempre me marginalizei
Na forma e no sentido sempre me marginalizei
sempre procurei projectar-me de encontro à lição
de que sabia ir gostar aprender. Porque, e a verdade é
não consegui aprender o que nunca gostei.
Nunca confundi a forma da obrigação
da satisfação ou do prazer de gostar.
Os discursos, cada um em-si, sempre manifestaram
uma linguagem e um sentir diferentes.
Mas tudo isto não impede as travessias do deserto, muitas e várias
em que as sagradas alianças nada valem ou a nada levam. Daí...
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Aríon, 2000
quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009
Tudo é meu, porque vem de-ti
quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009
Daí, as horas ficarem límpidas, como um enigma;
as horas ficarem límpidas, como um enigma;
um grande corpo inteiro onde acontece a voz inicial;
a memória de pequenos nadas; a alegria que se vê
sente e alonga como razão essencial da luz.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000
terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009
Que importa (sim que importa!?...)
Que importa (sim que importa!?...)
o que os homens intentam modificar
- num planeamento nervoso e adulterado
força mais do seu orgulho ferido
do que propriamente da desgraça acontecida -
se as consequências em nada alteram o que está traçado
o que está marcado, o que será para sempre nosso?
A minha vida será a tua
mesmo que lhe queiram dar destinos e rumos diferentes.
Ninguém se aperceberá que a escolha foi voluntariamente nossa?
Que partiu de-mim para ti e de-ti para mim?
Que uma semana juntos valeu mais do que dezassete
ou vinte anos de acontecido matrimónio?
Ah! como a desgraçada frustração humana
é tão própria dos que a personalidade não dotou
ou em que a inteligência não permite destrinçar em pleno
pois só o desforço se manifesta importante.
Mas é a esses, que gritamos a nossa vontade e a nossa verdade.
E creiam, os bastardos, que não temos medo. Nem vingança.
Temos sim, o destemor dos que se apaixonam
dos que se amam verdadeiramente
dos que são livres por si-mesmos.
Essa paixão, esse amor, essa verdade
essa doação da Natureza temo-la nós, só-nós
a quem a Terra ungiu de amantes plenos e naturais.
Isto é: amadores sagrados do que têm... amando.
José Manuel Capêlo, A Noite das Lendas, Árion, 2000
domingo, 8 de Fevereiro de 2009
Hoje há o chegar
Hoje há o chegar. Quantas ruínas
derramei em leis perfeitas? Quantas luzes
dei a olhos cegos? Quanto retorno ao nada
retirei de-mim?
Oh! aquela imensa poeira repetida
oculta fronte de dedos ágeis
existência de só existirem coisas
para lá de sabermos mistérios...
Já hoje é o chegar
esplêndido e definitivo
Hora certa do equilíbrio da nudez
segurança do sol para lá das horas
das máscaras
das vozes fáceis e gastas.
Oh! como a melancolia é grande
e o meu tempo pouco. Ou nada. Ou sempre.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
sábado, 7 de Fevereiro de 2009
Deixaram a terra produzir os seus efeitos
Deixaram a terra produzir os seus efeitos
e que efeitos foram, sobre a luz solar!?
A alma grande dos rios soergueu-se das margens
em cânticos de verde e rochas arredondadas
com o mistério das paixões por entre os canaviais
a estrada de Marte em frente, o fluxo de Vénus ao largo
e a gruta estreita de negro aparecida.
Receberam, como sempre recebem no meio das mãos
o teu corpo arrefecido, de olhos fechados e mãos postas
adormecido num sonho vagaroso e grande.
A alma dos teus poetas inundou-se-te no sorriso
que punhas na boca pequena, vermelha e cheia
sorriso acontecido ontem, ante-ontem e sempre
já que fora teu. Breve e triste...
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991
sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009
Os homens, os homens, eternamente os homens
Os homens, os homens, eternamente os homens
reflectidos nos espelhos das águas, nos labirintos
da espessa terra, composições de sombras de exércitos ávidos
de suicídios lentos, de solidões gritadas nas paredes
paredes de tantos lugares, de tantos prédios, de tantos museus.
Venham homens, venham com os vossos poderes suster as lágrimas
e a solidão e o desvario e a morte lenta dos oceanos
porque mais fácil - muito mais fácil -
é imaginar que conseguir
muito mais fácil do que iludir o gosto e o sangue.
Venham, porque sentirão o gesto torcer o emaranhado
ouvirão os ecos crescerem, variados, nas montanhas próximas
saberão dos rios que secam em tanto deserto.
José Manuel Capêlo, A Voz dos Temporais, Átrio, 1991































































